eighty

538 60 29
                                        

Assim que a Carina terminou de falar, eu me levantei num impulso.

— Eu vou te levar até o hospital — falei já pegando minhas coisas.

— Maya, não precisa, eu peço um carro — ela disse, calma, tentando aliviar o clima.

— Eu não quero ficar longe de você — respondi sem pensar — E eu preciso ver a Jules também... ver se ela tá bem.

Carina assentiu, com aquele jeitinho doce que ela sempre tem quando entende o que tá por trás das minhas palavras. Se aproximou, colocou a mão no meu rosto e me deu um beijo calmo.

— Vai ficar tudo bem.

A gente saiu da estação o mais rápido possível, eu mal sentia meus pés tocando no chão, entramos no carro e eu liguei o motor no automático como se meu corpo soubesse o que fazer enquanto minha cabeça estava a mil por hora.

No caminho tudo parecia em câmera lenta, o rádio desligado as ruas quase vazias, os faróis passando por mim como borrões era como se todo o desespero que eu tinha sentido minutos antes tivesse sumido e deixado só... o vazio. Um buraco no peito.

A única coisa que me ancorava na realidade era a mão da Carina na minha coxa.

Eu olhei de relance pra ela, seus olhos estavam sérios, focados em algo que eu não conseguia alcança mas a mão dela estava ali apertando a minha perna com firmeza e eu segurei a mão dela também bem apertado, como se eu precisasse me lembrar de que ela era real.

— Tá tudo bem? — perguntei com a voz mais baixa do que pretendia.

Ela só balançou a cabeça, afirmando mas não disse nada e eu também não consegui.

Chegando no hospital ela soltou o cinto e se virou pra mim.

— Você vai ficar bem? Eu posso chamar outro obstetra pra cobrir, se quiser ficar comigo...

— Vai. Vai fazer seu trabalho tranquilo — respondi rápido, forçando um meio sorriso. — Eu tô bem.

Ela olhou nos meus olhos por mais um segundo, como se estivesse checando se era verdade em seguida me deu um beijo leve com gosto de preocupação e saiu correndo pra emergência.

Fiquei ali parada por alguns segundos, o silêncio dentro do carro era estranho... incômodo peguei o celular e mandei mensagem:

MAYA:
"Jules, onde você tá?"

Ela respondeu quase na hora:

JULES:
"Tô aqui no hospital."

MAYA:
"Tô indo aí."

Desci do carro de novo e comecei a caminhar até a entrada meus passos estavam firmes, mas dentro de mim tudo parecia... fora do lugar como se meu corpo não estivesse se movendo direito no espaço, um arrepio estranho como se eu tivesse esquecido algo importante, mas não soubesse o quê.

Quando vi a Jules, parei por um segundo, ela estava de costas falando com uma enfermeira o cabelo preso de qualquer jeito, a expressão preocupada me aproximei sem pensar e abracei ela por trás, com força, apoiei meu queixo no ombro dela e fechei os olhos.

Ela se virou e retribuiu o abraço. Forte. Apertado. Como se ela também estivesse precisando daquilo.

Mas mesmo abraçada nela, eu ainda sentia o mundo girando errado ao meu redor  como se algo estivesse prestes a quebrar.

E eu sabia...
Era só o começo.

Jules estava tremendo levemente mas eu percebi, ela fingia que estava tudo bem mas o jeito que os dedos dela apertavam a manga do próprio casaco entregava tudo.

Amizade Colorida - Marina Histórias para pegar e não largar. Descubra agora