Quando a porta da UTI se abriu, eu senti antes de ver e meu corpo inteiro ficou em alerta. Maya saiu do quarto com o rosto fechado, os olhos duros e a postura rígida demais, não havia lágrimas, não havia medo só um silêncio pesado que me deu mais medo do que qualquer crise.
— Maya... — chamei dando um passo à frente.
Ela parou mas não me olhou.
— Eu quero ir embora daqui — ela disse com a voz baixa, sem emoção. — Agora.
Não fiz perguntas, não naquele momento apenas a mão dela com cuidado como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar ela, ela não apertou de volta, mas também não soltou e isso já era alguma coisa.
No caminho até o estacionamento, Maya não disse uma palavra ela andava como se estivesse no automático, entrou no carro, colocou o cinto, olhou para frente.
Eu liguei o carro com o coração apertado.
Durante todo o trajeto até meu apartamento só o som baixo do rádio preenchia o silêncio Maya mantinha o olhar perdido pela janela, a mandíbula travada, minha mão foi para a coxa dela quase sem perceber. Ela não reagiu mas alguns minutos depois, senti seus dedos segurarem os meus com força como se aquilo fosse a única coisa real.
Quando chegamos, subi com ela em silêncio. Abri a porta do flat e assim que entramos Maya largou a mochila no chão e ficou parada no meio da sala, olhando para lugar nenhum.
— Você quer água? — perguntei. — Um banho? Quer sentar?
Ela respirou fundo várias vezes até finalmente falar:
— Ele olhou pra você como se... — a voz dela falhou. — Como se ainda tivesse algum tipo de poder.
Foi ali que tudo desabou me aproximei devagar e coloquei as mãos nos ombros dela.
— Olha pra mim, Maya.
Ela virou o rosto, os olhos agora vermelhos.
— Ele tentou me provocar, tentou falar de você. — ela engoliu seco. — E isso... isso me deixou mais forte do que nunca.
Meu coração bateu forte.
— O que você fez? — perguntei com cuidado.
Ela soltou uma risada curta sem humor.
— Eu disse que acabou, que agora eu decido, que tudo o que ele roubou de mim... eu vou pegar de volta, tudo!— ela respirava rápido. — Que eu vou expor tudo, o abuso, o dinheiro, o acidente... a carreira dele acabou.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, absorvendo cada palavra.
— E disse mais — ela continuou com a voz firme agora. — Disse que ele deveria agradecer por eu ser boa o suficiente pra não assinar uma ordem de não reanimação. — Acho que passei dos limites
Meu estômago revirou, não por medo dela mas pela dimensão da força que eu via ali, e segurei o rosto dela com as duas mãos.
— Você não passou dos limites — falei com firmeza. — Você colocou limites.
Ela me olhou como se estivesse esperando julgamento.
— Eu fiquei com medo... — confessou. — Medo de você se machucar por causa dele.
Meu peito apertou.
— Maya, escuta bem — falei devagar. — Você não precisa me proteger sozinha mas eu nunca vou te achar errada por se defender, nunca.
Ela me abraçou forte, o corpo inteiro tremendo agora que a adrenalina tinha ido embora e eu a segurei com tudo que tinha.
— Eu não sei o que faria sem você — ela murmurou no meu pescoço.
— Você estaria viva — respondi. — Mas comigo, você pode ser feliz também.
Ela levantou o rosto, os olhos marejados.
— Eu te amo.
Senti o peso daquelas palavras como uma âncora e um abrigo ao mesmo tempo.
— Eu te amo — respondi antes de beijar ela com calma, sem pressa, como se aquele beijo fosse um acordo silencioso: ele não tem mais poder aqui.
Deitamos mais tarde, quando o mundo parecia finalmente mais silencioso. A luz do abajur deixava o quarto em um tom quente e Maya estava de costas, comigo deitada sobre o peito dela meu rosto encaixado ali como se sempre tivesse sido aquele o lugar certo os dedos dela faziam um carinho lento na minha nuca, repetitivo, quase automático como se fosse algo que ela fazia para se acalmar também.
O silêncio não era pesado, era confortável.
— Quando tudo isso passar... — Maya começou, a voz baixa. — Eu quero me formar logo na academia, resolver de vez esse joelho e encontrar uma estação fixa pra trabalhar.
Levantei um pouco a cabeça, apoiando o queixo no peito dela, olhando para o rosto que eu conhecia tão bem.
— E depois? — perguntei.
— Depois... comprar um apartamento, algo simples mas um lugar que seja meu de verdade.
Fiquei alguns segundos em silêncio, sentindo o coração dela bater sob minha bochecha.
— E onde eu fico nesses planos todos? — perguntei sem acusação, só curiosidade sincera.
Maya virou o rosto para mim na hora, como se a resposta fosse óbvia demais pra ser ignorada.
— Do meu lado — ela disse — Em cada fase, eu não faria nada disso sem você, Carina.
Meu peito apertou de um jeito bom e eu inclinei o rosto e a beijei devagar, sem pressa, só para sentir. Quando nos afastamos ficamos com os rostos próximos respirando o mesmo ar os olhos presos um no outro.
Ela foi a primeira a sorrir.
— O quê? — perguntei.
— Você é linda — ela disse simplesmente. — Às vezes eu ainda não acredito na sorte que tive.
Ri, balançando a cabeça.
— Talvez a sorte tenha algo a ver com esses braços musculosos — provoquei passando a mão pelo braço dela.
Ela riu também.
— Bom saber que eu sou resumida apenas a músculos.
Dei um selinho rápido nela.
— Não só músculos — falei — Mas também pelo melhor orgasmo que eu já tive na vida.
Vi o sorriso dela mudar na hora, não foi um sorriso qualquer foi aquele sorriso lento cheio de intenção.
Maya se moveu virando o corpo até ficar sobre mim, apoiando o peso com cuidado os olhos escuros presos nos meus.
— Então eu acho — ela disse com a voz baixa — Que eu vou ter que aumentar essa pontuação.
Minha respiração falhou antes mesmo que eu percebesse.
Passei as mãos pelas costas dela puxando ela para mais perto, enquanto o mundo lá fora desaparecia de novo. Não havia James, não havia hospital, não havia insegurança, não havia medo.
Só nós duas.
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Amizade Colorida - Marina
FanfictionCarina DeLuca, uma renomada obstetra italiana que se encontra no auge de sua carreira e confortável em sua vida na ensolarada Sicilia. Enquanto isso, Maya Bishop, uma dedicada ex-atleta americana é encarregada de uma missão desafiadora: persuadir a...
