sixty six

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O sol já estava alto quando meu celular começou a tocar insistentemente na mesa de cabeceira eu alcancei o aparelho com uma mão preguiçosa mal abrindo os olhos quando vi a foto de Jules no visor, claro que era ela.

— Não é muito cedo pra você me ligar, Jules?

Bonjour pra você também, dorminhoca. — a voz dela era cheia de energia, como sempre. — Quero a sua vida, Maya dormir até tarde, sem preocupações...

— É, porque é tão glamorosa a vida de uma desempregada que passou a madrugada pintando. — Respondi, rindo e Jules gargalhou.

— Pintando, é? Tá apaixonada mesmo né?

— Vai se foder, Jules. — tentei desviar o assunto, não querendo entrar no assunto carina pra não lembrar da nossa briga.

— Certo, certo fica na defensiva, mas eu sei o que eu sei. — ela fez uma pausa. — Tô em Seattle, sabia?

— Seattle? O que você tá fazendo aqui? — perguntei, surpresa.— Você tá com alergia do seu próprio país agora? Nunca para lá.

— Muito engraçada, sua idiota. — Jules respondeu, rindo. — Estou no Grey Sloan Memorial.

Imediatamente, meu corpo ficou tenso não sei porque o nome do hospital fez meu coração acelerar.

— No hospital? Por quê? Tá tudo bem? — minha voz saiu mais séria do que eu pretendia.

— Relaxa, não é nada comigo, vim atender um atleta. Tem uma etapa da Liga de Diamante aqui essa semana.

— Liga de Diamante? Em Seattle? — perguntei, confusa. — Nem sabia que teria isso aqui.

— Claro que não, você foge de qualquer notícia relacionada ao atletismo como o diabo foge da cruz.

Ela tinha razão e não tentei negar.

— Prefiro assim. — Respondi seca.

— Você tem direito de evitar, mas eu acho uma besteira. — Jules disse mas antes que eu pudesse retrucar, ela mudou de assunto. — De qualquer forma, vem me encontrar no hospital, tenho uma coisa pra te contar.

— No hospital? Por quê? — Perguntei ainda hesitante.

— Porque é onde eu tô, oras e ah eu vi sua namorada hoje, sabia? ela tava gritando em italiano com uns internos que fugiam dela loucamente.

Eu ri involuntariamente, era tão Carina mas meu sorriso logo desapareceu ao lembrar da discussão da noite anterior.

— É, a Carina é bem... apaixonada pelo que faz e detesta erros — respondi sem dar muitos detalhes.

— Apaixonada, sim e assustadora também, você devia vir logo, antes que eu acabe encontrando ela de novo e precise pedir refúgio político.

— Idiota. — respondi mas uma pequena risada escapou.

Jules era assim, sempre sabia como aliviar meu humor, mesmo quando eu não queria admitir.

— Tá bom, já tô indo me espera no saguão.

— Isso é o que você acha, estar na cafeteria, espero você lá jusqu' à bientôt

Desliguei e joguei o celular de lado, suspirei sentindo meu peito apertar ao pensar na Carina, a noite anterior ainda pairava sobre mim como uma sombra que eu não conseguia afastar mas talvez encontrar Jules fosse uma distração bem-vinda.

Levantei vesti algo confortável e saí tentando me preparar para o que quer que aquele dia fosse me trazer.

Cheguei ao hospital e avistei Jules na cafeteria, sentada de forma casual com outra mulher que não reconheci, ela mexia distraidamente no celular enquanto ria de algo que sua acompanhante havia dito, assim que me aproximei, ela ergueu os olhos e abriu um sorriso.

— Maya Bishop! Até que enfim, pensei que fosse me deixar mofar aqui. — ela brincou levantando para me abraçar.

— Drama, Jules é a minha especialidade. — respondi, sorrindo e olhei para a mulher ao lado dela, curiosa.

— Ah, claro! — Jules disse lembrando de apresentar sua companhia. — Essa é a Dra. Emily Hayes, minha assistente no comitê, Emily acho que não preciso apresentar mas essa é a famosa Maya Bishop.

Emily sorriu e estendeu a mão.

— É um prazer finalmente conhecê-la, Jules fala muito de você.

— Espero que sejam coisas boas. — apertei a mão dela, sentindo o olhar avaliador da médica.

— Sempre. — Emily respondeu simpática.

Nos sentamos e assim que o garçom passou pedi um café rápido, olhei para Jules, curiosa.

— Então, o que era tão urgente que precisava me fazer sair de casa?

Jules fez uma pausa dramática antes de responder.

— Estive conversando com o Dr. Lincoln...

Meu coração deu um leve salto ao ouvir o nome do meu antigo ortopedista, Lincoln era um dos melhores médicos com quem já trabalhei mas o que ele tinha a ver com tudo isso?

— ...e ele mencionou um tratamento experimental que está desenvolvendo, algo que pode ser aplicado na sua lesão do joelho — ela continuou e eu me ajeitei na cadeira, interessada.

— Que tipo de tratamento?

— É um método baseado em regeneração celular, combinado com terapia física intensiva. — Emily interveio claramente animada. — O objetivo é restaurar a funcionalidade do tecido ao redor da lesão, reduzindo a dor e devolvendo mobilidade total — Jules assentiu.

— E, com o tempo, pode até fortalecer sua estrutura. Link disse que é algo promissor mas ainda está em fase de teste.

Fiquei em silêncio, absorvendo a informação, por um lado parecia algo incrível por outro eu sabia que tratamentos experimentais podiam ser complicados.

— Isso parece... impressionante. — respondi, cuidadosa. — Mas tem um problema: não tenho mais plano de saúde aqui no Grey Sloan e não tenho dinheiro para pagar particular.

Jules sorriu como se esperasse que eu fosse falar isso.

— Você não precisaria pagar, você seria uma espécie de cobaia da pesquisa.

Emily sorriu, se inclinando ligeiramente para frente.

— Nós estudamos muito para isso, Maya as chances são realmente boas.

Enquanto ela falava, segurou minha mão, provavelmente para enfatizar o ponto mas naquele momento um som chamou minha atenção de algo caindo no chão.

Virei a cabeça rapidamente e vi Carina se abaixando para pegar seu tablet, ela parecia concentrada nisso mas notei que sua postura estava rígida, tensa. Assim que se levantou, seus olhos encontraram os meus.

Carina forçou um sorriso, claramente desconfortável.

— Jules.

— Carina! Quanto tempo. — Jules respondeu, levantando a mão para um aceno.

Carina apenas assentiu cumprimentando Emily de forma educada, mas rápida, antes de seguir seu caminho.

Assim que ela saiu de vista Jules explodiu em gargalhadas, chamando a atenção de algumas pessoas ao redor.

— Você é louca? — Perguntei olhando para ela como se tivesse perdido o juízo.

Jules ainda ria, mas conseguiu falar entre as risadas.

— Eu não queria estar na sua pele agora, sua namorada está explodindo de ciúmes.

Suspirei, balançando a cabeça.

— Isso não tem nada a ver com ciúmes.

— Claro que não, Maya. — Jules piscou ainda rindo. — Absolutamente nada.

Emily parecia confusa mas permaneceu em silêncio, observando a interação entre nós.

Suspirei de novo, sentindo a tensão subir pelo meu corpo.

Era óbvio que aquilo não ia acabar bem.

Amizade Colorida - Marina Histórias para pegar e não largar. Descubra agora