seventy six

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O plantão da noite raramente era meu favorito, mas havia algo silenciosamente poderoso em trazer uma nova vida ao mundo enquanto o resto dele dormia. Começou como tantas outras madrugadas: prontuários, café amargo e queimado demais e a esperança de poucas emergências, mas logo depois da meia-noite meu pager tocou e tudo mudou.

A paciente chegou com a bolsa rompida e contrações tão fortes que mal conseguia andar, ela era jovem, assustada, e segurava minha mão com força como se eu fosse a única coisa impedindo o mundo de desabar ao redor dela.

— Você está indo muito bem — falei com a voz calma, mesmo sentindo a tensão dela nos dedos. — Só mais um pouco, respira comigo.

Foi bem rápido, um daqueles partos em que o bebê parece estar tão pronto quanto a mãe e com um último grito, o choro forte preencheu a sala.

Um menino, forte, saudável e com os pulmões funcionando perfeitamente.

Coloquei ele sobre o peito da mãe e por um momento, tudo parou, o tempo, o barulho, até os pensamentos. Só restou aquele som... o choro da vida.

Na calmaria que se seguiu enquanto preenchia os papéis, senti meu celular vibrar no bolso e eu sorri antes mesmo de olhar.

Era Maya.

Meu dia foi mais longo que uma maratona debaixo de chuva, cheguei agora no seu apt como tá sua noite?

Sorri de novo.

Acabei de fazer um parto relâmpago literalmente, o bebê quase nasceu na recepção mas está tudo bem, um menino lindo. Vai dormir já?

Com certeza vou apagar jaja, depois me manda foto do bebê, mesmo se ele parecer uma batata enrugada.

Ele parece mesmo, mas é uma batata muito fofa. Descansa, amore mio.

Guardei o celular sentindo aquele calor no peito que só ela conseguia provocar. Ainda era estranho, confuso... às vezes parecia que amávamos em tempos diferentes mas a Maya me fazia sentir em casa.

O céu ainda estava escuro quando finalmente entreguei meu último relatório, saí pela porta dos fundos do hospital, respirando fundo o ar frio da manhã. Eu só queria chegar em casa, me enfiar debaixo do chuveiro e dormir por doze horas.

Mas então eu a vi.

Jules estava de. costas conversando com um homem alto, cabelos castanhos claros, jaqueta escura. Não me aproximei, nem queria escutar mas algo no meu corpo endureceu, uma tensão que veio do nada.

E aí ela disse.

— James, você não deveria estar aqui.

O som do nome dele foi como uma explosão dentro de mim, o meu sangue gelou nas veias, as chaves escorregaram dos meus dedos e caíram no chão com um barulho alto.

James.

O nome que Maya carregava como cicatriz.

Me abaixei devagar com as mãos trêmulas, cada célula do meu corpo parecia entrar em alerta, quando olhei pra cima, os dois estavam olhando direto pra mim.

O olhar dele me atravessou, não era agressivo e nem carismático na verdade era... estranho, inquieto como alguém que esconde algo e sabe disso. Jules estava pálida quase desesperada.

Me levantei, ignorei os dois e caminhei rápido até meu carro, meu coração batia tão forte que parecia gritar nos meus ouvidos eu precisava sair dali agora.

Amizade Colorida - Marina Histórias para pegar e não largar. Descubra agora