forty four

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Estava organizando o material depois de horas de trabalho na triagem daquele incendio horrível, normalmente era um trabalho simples mas hoje eu estava exausta. Enquanto guardava o equipamento sentia o cansaço pesar nos meus ombros e na minha alma. Estava dobrando minha jaqueta quando ouvi uma voz familiar.

— Bishop, eu preciso falar com você — era o meu capitão da academia de bombeiros.

Meu coração afundou, eu sentia que isso não seria bom, ele me levou para um canto mais reservado e olhou diretamente nos meus olhos, sua expressão séria.

— Maya, após a revisão do incidente na clínica, você está suspensa por quinze dias.

— O quê? — minha reação foi instantânea cheia de incredulidade. — Capitão, eu apenas fiz o que qualquer um faria, eu trabalhei, eu protegi civis... — falei e ele levantou a mão para me interromper.

— Eu entendo que estava tentando proteger alguém importante para você, mas você descumpriu ordens diretas e agrediu um civil. Esses são atos inaceitáveis, independentemente das circunstâncias e se você não entrar na linha Bishop eu vou garantir que você nunca se forme.

As palavras dele foram um golpe no estômago, eu sabia que ele tinha razão, mas ouvir aquilo ainda doía, assenti, tentando controlar minha frustração.

— Entendido capitão, peço desculpas.

Apesar das minhas palavras, a irritação e a decepção estavam claras no meu rosto, terminei de arrumar minhas coisas em silêncio. Andy, percebendo a tensão no ar se aproximou.

— Maya, o que aconteceu? — ela perguntou com preocupação.

— Não quero falar sobre isso, Andy, quero ficar sozinha.

Ela assentiu, respeitando meu pedido, mas pude ver a preocupação em seus olhos.

Entreguei minhas coisas da estação, sentindo cada passo como se estivesse caminhando sobre cacos de vidro, a humilhação e a raiva ferviam dentro de mim saí de lá sem olhar para trás, determinada a encontrar algum consolo fora daquele ambiente sufocante minha mente girava com pensamentos e emoções conflitantes, eu precisava de um plano, algo para fazer durante esses quinze dias de suspensão, mais importante ainda, precisava encontrar uma forma de lidar com a turbulência que estava crescendo dentro de mim. A única coisa que eu sabia com certeza era que, mais do que nunca, precisava de paz e clareza para seguir em frente.

Cheguei na casa de Andy exausta e com a cabeça cheia, ao abrir a porta, encontrei Jules e Sophie na sala de estar. Sophie estava brincando com um kit médico de brinquedo, examinando um dos seus bichinhos de pelúcia. Sorri ao ver ela tão concentrada e por um momento, toda a minha frustração desapareceu. 

Tante Maya! — Sophie exclamou ao me ver, correndo para me abraçar.

— Oi, praguinha! — eu disse, pegando ela no colo. — O que você está fazendo?

— Estou cuidando do meu paciente — respondeu ela com um ar sério, me entregando o estetoscópio de brinquedo. — Você pode ser a enfermeira?

Eu ri, aceitando o brinquedo, sentei no chão ao lado dela e comecei a brincar, ouvindo atentamente enquanto Sophie me explicava o que cada ferramenta fazia, ela era adorável e muito inteligente para sua idade.

— Carina é tão legal! — Sophie disse de repente me pegando de surpresa. — Ela sabe um monte de coisas sobre bebês e é muito gentil e linda.

Eu sorri, sentindo uma onda de calor no peito ao ouvir os elogios de Sophie sobre Carina. Mas então notei a expressão de Jules que observava a cena com uma mistura de preocupação e irritação.

— Jules, você precisa parar de arrumar motivo para implicar com a Carina — eu disse, mantendo minha voz baixa mas firme.— Eu não estou implicando — Jules respondeu cruzando os braços. — Estou apenas sendo cautelosa.

Nós discutimos, a tensão no ar aumentando a cada palavra trocada, Jules mencionou James e o que ele tinha feito comigo e percebi que por trás de sua postura defensiva, havia uma dor profunda e um sentimento de culpa.

— Depois que soube o que James fez com você, me senti culpada por não ter visto na época, quero proteger você a todo custo, Maya!!

— Eu entendo, Jules, mas Carina não é James, ela nunca faria nada para me machucar.

A discussão ficou mais intensa, até que Sophie começou a chorar, pedindo para que parássemos de brigar.

— Por favor, parem de brigar! — ela implorou as lágrimas escorrendo pelo rosto.

Jules suspirou, passando a mão pelo rosto e decidindo que era melhor ir embora, antes de sair, ela se virou para mim com uma expressão mais suave.

— Maya, você está errada, eu não odeio a Carina, longe disso só quero ter certeza de que você está segura e feliz.

Assenti, sem saber exatamente o que dizer, observei enquanto ela e Sophie saíam sentindo um turbilhão de emoções dentro de mim. Fechei a porta e encostei a cabeça na madeira, tentando acalmar meus pensamentos.A preocupação de Jules era genuína, mas eu precisava acreditar em Carina e no que sentia por ela. Com esse pensamento, fui até o quarto, determinada a resolver tudo isso de uma vez por todas.

Assim que entrei no quarto, meu telefone começou a vibrar; era Carina, meu coração acelerou ao ver o nome dela na tela e eu respirei fundo e atendi.

— Oi linda

—Ei Bambina, eu... preciso falar com você sobre algo importante — ela disse sua voz suave mas carregada de emoção.

— Claro, o que foi?

— Eu estava pensando, depois de tudo o que aconteceu, talvez precisemos de um tempo para nós mesmas longe de todo esse caos. O que você acha de passarmos um tempo na casa que eu cresci na Itália? só nós duas, pra descansar e nos reconectar.

Meu coração deu um salto ao ouvir a proposta, a ideia de escapar de tudo isso, de ter um tempo só com Carina, soava tentadora e necessária mas  a realidade financeira me atingiu.

— Carina, isso seria maravilhoso, eu realmente acho que precisamos disso mas eu não sei se vou poder pagar por isso agora — confessei, sentindo um nó na garganta.

— Maya, não se preocupe com isso — ela respondeu com uma ternura que fez meu coração derreter. — Eu já pensei nisso, eu posso comprar as passagens no meu cartão e você pode me pagar aos poucos o importante é estarmos juntas e cuidarmos uma da outra.

— Tem certeza? Eu não quero ser um peso para você... eu posso ver com a Jules se ela me empresta...

— Deixa de ser orgulhosa só um pouco — ela pediu —Você não é um peso, Maya, nós somos um time lembra? e essa viagem é importante para nós duas. 


— Mas e o seu trabalho? — perguntei.

— Eu já falei com o hospital, eles entenderam e me deram um tempo e você? como estão as coisas na academia?

— Eu fui suspensa por quinze dias — confessei — Então, tecnicamente estou disponível.

— Ótimo, então está decidido? — ela perguntou com uma esperança na voz.

— Tudo bem, então vamos para a Itália —falei com um sorriso no rosto. — Mal posso esperar para estar com você e deixar tudo isso para trás.

— Isso bella, eu vou arrumar as coisas aqui e reservar nossos voos, e você arruma ai também e vem pra casa.

— Ta bom Cá, obrigada por tudo.

— Obrigada você Maya, até daqui a pouco

Desliguei o telefone, sentindo uma mistura de alívio e excitação essa viagem poderia ser exatamente o que precisávamos para deixar tudo isso para trás e focar em nós, comecei a arrumar minhas coisas ansiosa pra esse tempo a lado da Carina.

Amizade Colorida - Marina Histórias para pegar e não largar. Descubra agora