Capítulo 2

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Marcelo Menezes.

A agência era tão perto que, se um carro normal estivesse a 60 km/h, chegaria lá em seis ou sete minutos. Uma viatura, no entanto, não levava nem metade disso.

Quando nós a paramos no meio fio e saímos às pressas na direção da entrada, penso que esta talvez seja a principal vantagem em ser policial. Você pode dirigir a mais de 80 km/h tranquilamente, ultrapassar semáforos, ignorar algumas placas e, quando tem trânsito, o pessoal até abre espaço pra você. O lado ruim, talvez, é que quando você está com o seu carro pessoal, acha que pode fazer o mesmo e só se ferra, porque todo mundo te ignora. Levei um bom tempo para me acostumar e largar de ser folgado.

Há outra viatura parada bem em frente às portas, ainda aberta e com uma voz em alerta saindo pelo rádio. Se eu estivesse com tempo até pararia para responder a quem quer que estivesse chamando, mas eu precisava me por à par da situação ─ que, a propósito, não era das melhores. Tinha umas quinze pessoas correndo afobadas pelo caminho, e a primeira coisa que Daniel faz é orientá-las a se afastarem dali. Eu, no entanto, não tenho muito tempo para pensar no que fazer, porque pelas portas de vidro consigo enxergar o outro policial (aquele que a Helen mandou antes de nós) e pelo visto a situação não era nada boa.

Ao olhar para ele com atenção, o reconheço por ser do 29º DP. Nunca fomos apresentados formalmente, mas sei que o pessoal o chama de Sobreira. Ele está meio abaixado gritando instruções às pessoas paradas perto dos caixas eletrônicos. Mas não o observo por muito mais tempo, porque precisava localizar o filho da puta da vez, se me permitem o termo. Quer dizer, não é como se eu estivesse esperando que um cara assaltasse sozinho a um banco, já que eles geralmente trabalham em grupo, mas todo grupo tem um Manda-Chuva, não? E era esse que eu queria, porque é claro que era ele quem estava me mandando recadinhos.

Eu sei que parece egoísmo da minha parte não ter a vida das pessoas ao meu redor como preocupação maior, mas eu já havia passado por situações parecidas. No final eles sempre fazem alguém de refém e tentam negociar com a polícia, que atira no cara antes que ele possa dizer "abaixa a sua arma". Blá blá blá. O que eu queria mesmo era encontrar o cara que estava me querendo morto.

─ Eu vou entrar ─ diz Daniel para mim, fazendo um sinal com a mão para as portas, já que estávamos meio distantes.

Faço que não com a cabeça. Qualquer outro cara teria insistido na ideia, afinal todos nós gostamos de ação. Mas Daniel concorda em silêncio, porque sabe mais do que ninguém o quanto eu mesmo queria aqueles caras.

É importante ressaltar que eu sabia que eram eles. A cena toda era muito parecida com a que presenciei há mais de um ano atrás, quando invadimos o galpão à procura da quadrilha. Primeiro nós recebemos o chamado, depois houve uma troca de tiros formal como quem diz "oi", e por último uma ambulância levou o corpo do cara em quem atirei, dando o negócio por encerrado. É claro que isso acontecia muitas vezes e eu estava pra lá de acostumado, mas havia algo nessa vez que me lembrava àquela no galpão abandonado. Ou seja, eram eles lá dentro. E eu, como o bom policial e cidadão que sou, precisava dar o meu jeitinho.

Saco a arma do coldre e a posiciono à esquerda do meu queixo. Olho para o Daniel, que assente novamente, e entro no banco.

Puta. Que. Pariu.

Um cara. Só havia um cara de rosto encapuzado – e isso era uma coisa na qual eu não acreditaria se alguém me contasse. Rapidamente tive um vislumbre de pelo menos cinco ou seis pessoas agachadas no chão ─ e eu não preciso dizer que elas estavam em pânico, porque elas sempre estavam. Até parece que nunca presenciaram um assalto nessa cidade. Ah, e é claro, não podia deixar de mencionar o detalhe primordial: um refém. Ou melhor, uma refém. A garota, num estado três vezes maior de pânico, estava nos braços do cara de capuz, que a segurava tão firme que parecia prestes a estrangulá-la num mata-leão.

Amor em Risco (COMPLETO)Onde histórias criam vida. Descubra agora