Capítulo 41 (Parte II)

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─ Eu, como pai, posso dizer que é sempre motivo de muito orgulho quando nossos filhos seguem nossos passos ─ Sérgio volta a falar, seu olhar abrangendo Bianca e Murilo, ambos agora ligeiramente tensos, olhando um pro outro como quem diz "sabia que ia sobrar pra gente". ─ E tenho muita sorte em poder dizer que não só um, mas os meus dois filhos resolveram seguir pelo caminho que trilhei.

Como se você tivesse dado muita escolha a eles.

Ele ri, ingênuo (ou talvez ardiloso, devo supor), e percebo que o papo acabaria aí. Olho para Bianca, esperando ouvi-la contradizê-lo de alguma maneira, qualquer maneira, mas ela fica quieta. Até Murilo fica quieto.

─ É claro que ─ Sérgio retoma o assunto que ninguém aparentemente está interessado em permanecer ─ foi difícil convencê-los, entende, pois quando se é jovem, é como se houvesse milhões de coisas a se fazer. E não é bem assim que a vida funciona.

Blá blá blá.

─ É muita sorte a sua ter conseguido convencê-los ─ eu digo ─, já que eu, se não gostasse mesmo da profissão e fosse seu filho, teria te dado um certo trabalho para isso.

Tânia e Sérgio sorriem. Murilo e Bianca não.

─ Ah, mas eles dão, sabe? Bianca e Murilo. Bianca só vai ao jornal arrastada. E Murilo trabalha o fim de semana todo nesse negócio de... Como é mesmo o nome?

─ DJ ─ responde Murilo com voz entediada.

─ Isso. DJ. E então, na segunda-feira, quando preciso que trabalhe, ele está cansado e mal humorado. Mas, bem, eles sabem que o jornalismo é o melhor caminho, não? ─ Sérgio dá de ombros, convencido, e volta a comer por um momento. O cara falava à beça! ─ Quero dizer, ser músico ou sei lá o quê não dá dinheiro algum!

─ Não é só de dinheiro que as pessoas precisam, pai ─ Murilo diz.

He-he-he. Casos de família. Alguém traga uma pipoca para mim!

Certo, eu deveria focar em cessar fogo. Ok.

─ Mas é claro que é, Murilo. Você não é pai. Não sabe o que diz ─ e, antes que o filho pudesse replicar, ele continua: ─ A minha sorte, Marcelo, é que a Bianca aqui não tem esses passatempos.

─ Passatempos? ─ repito, me ocupando em levar a taça de vinho à boca e, nesse meio-tempo, encarar os olhos inquietos de Bianca.

─ É, sabe, essas coisas que tiram o foco. Como Murilo. Bianca só estuda, trabalha no jornal e... Claro, nas horas vagas, liga para você. Há-há-há. Essa minha filha.

É claro que fiquei esperando que Bianca nos interrompesse ao dizer qualquer coisa relacionada à pintura ou, talvez, que simplesmente mencionasse que faz sim outras coisas da vida além de tomar notas num bloquinho para a equipe de reportagem, mas ela não diz, de modo que a cutuco ligeiramente com o pé por baixo da mesa. Ela faz que não com a cabeça e, no mesmo instante, Tânia começa a dizer:

─ Isso nos dá a chance, minha filha, de entender o que o Marcelo faz aqui, você não acha? ─ e sorri bondosamente (ou talvez ardilosamente, já que eu não confiava nem nela nem no marido). ─ Afinal de contas, vocês se tornaram amigos desde o dia do assalto ao banco?

Mães...

Eu respondo:

─ É. A médica que atendeu a Bianca no pós-trauma é minha melhor amiga, então, bem, a gente acabou, ahn...

─ Nos tornando amigos. Todos nós ─ Bianca diz, a voz saindo meio cortada por ter ficado calada por todo o jantar.

─ Isso é muito bom ─ Sérgio diz, ao passo que eu arqueio a sobrancelha espontaneamente. ─ Quero dizer, ter um policial por perto, se me permite dizer, Marcelo, nos traz conforto, entende, ainda mais depois do que aconteceu com... Você sabe, com o meu irmão. Richard.

Amor em Risco (COMPLETO)Onde histórias criam vida. Descubra agora