Capítulo 42

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Marcelo Menezes.

─ Acha que eu posso, enfim, respirar? ─ Bianca pergunta no momento em que chegamos ao sub-solo de sua casa.

O estacionamento era mais ou menos do tamanho do estacionamento do meu prédio, onde mais de sessenta pessoas morava. Mas, claro, não era nisso que eu pensava naquele momento. Ainda sentia o suor descer ligeiro pelas minhas costas e a tensão, aos poucos, se esvair dos meus ombros agora que havíamos nos livrado dos Trajano.

Depois que Bianca reaparecera na sala com cafés e conhaque (sim, conhaque), Sérgio resolvera agir como um pai da década de setenta, cuja única preocupação era buscar uma jarra de leite na porta de casa ou arrancar ervas daninha do quintal, o que significa que ele não voltou a falar sobre assuntos "proibidos". Bianca havia retomado o seu lugar ao meu lado e, logo após Tânia tornar a se juntar à nós com a sobremesa, todos engrenamos em conversas costumeiras. Meia hora depois, quando não havia mais sobre o quê falar, eu me levantei e agradeci pela recepção e gentileza da família para com o policial que havia matado o titio.

Brincadeira. Eu somente agradeci e, nem um pouquinho surpreso, assegurei a Sérgio que voltaria em breve quando ele me convidou três vezes seguidas.

─ Ah, para ─ respondo à baixinha que praticamente se arrastava de exaustão a alguns passos de mim. ─ Não foi tão ruim. Se quer saber, eu estou realmente surpreso pela recepção. Seu pai não me pareceu uma pessoa não muito flexível, como você tinha dito.

Bianca se vira para me olhar nos olhos por um momento e, mesmo antes de ela dizer, sei que concorda plenamente comigo.

─ Você se surpreenderia se eu dissesse que também estou muito surpresa? Mas, sério, surpresa mesmo! Quero dizer, não é do feitio dele fazer sala a alguém, entende? Ele apenas cumprimenta, comenta algo sobre trabalho ou política no jantar e, sem mais nem menos, dá tchau e, puff, evapora! Acho que, sinceramente, você conseguiu extrair mais do meu pai do que meus amigos em toda uma vida.

Ela ri, nervosa, e parece meio perdida em seus próprios pensamentos turbulentos.

─ E isso não é bom?

─ Ah, sim, claro, é fantástico ─ ela responde e volta a andar. Faltavam apenas alguns metros para alcançarmos o meu carro na outra extremidade da garagem. ─ Afinal de contas, se você disse a ele sobre nós dois e, mesmo assim, ele permaneceu na sala papeando como o papai-do-ano, isso quer dizer que tivemos sorte e estamos no caminho certo, não?

─ Ahn, Bi... ─ começo, me perguntando que palavras eu poderia usar para dizer a ela que eu não havia dito coisa alguma ao pai dela sobre nós dois, muito pelo contrário...

─ Quero dizer, o Otávio, mesmo tendo a minha idade e sendo filho de alguns amigos jornalistas do meu pai, ainda teve de enfrentar algumas coisas até ter a total aprovação dele, sabe? ─ ela volta a rir. ─ E você, apesar dos pesares...

Bi ─ a interrompo de novo, desta vez com um pouco mais de firmeza na voz.

Ela me olha de cenho franzido e faz um "hm?", e eu soube que, talvez, a decepcionaria. Entretanto, eu não podia mentir mais, podia?

Embora Sérgio soubesse - mesmo sem que nada tivesse sido dito - que nós estávamos juntos como um casal, eu não poderia arriscar ao dizer que tive uma conversa com ele que, na verdade, não havia tido. E eu também não podia, sob hipótese alguma, dizer que havíamos conversado sobre o seu tio de novo. Bianca certamente iria desconfiar de mim ─ e com devida razão, se querem saber.

─ Não falei sobre a gente ─ confesso, observando-a franzir ainda mais a testa. ─ Não deu tempo.

─ Mas e... E quando eu saí? Deixei vocês sozinhos por uns dez minutos. Fiquei lá, na cozinha, futricando o Instagram até ter certeza de que você já tinha conseguido dizer algo.

Amor em Risco (COMPLETO)Onde histórias criam vida. Descubra agora