Capítulo 72

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Bianca Trajano.

Assim que chego a recepção, sou cumprimentada pelos policiais sem nem mesmo precisar me apresentar. Mas olha que ótima notícia às oito da manhã: 19 anos na cara, mas já conhecida por metade dos policiais da cidade.

Dentre os cinco rostos, apenas um é conhecido para mim. Daniel também estava ali e me olhava com um sorriso reconfortante. Me dirijo para seu lado, enquanto caminhávamos em direção ao quarto de meu pai - quarto esse que eu ainda não fazia a mínima ideia de onde era, afinal não tive coragem de encará-lo depois de ter sido obrigada a assistir ele atirando no peito de alguém. No peito de Marcelo. A cena ainda me dá calafrios.

- Bom dia, loirinha. Como você tá? - Daniel pergunta, tentando manter o clima descontraído para mim. Eu já disse que gostava muito desse cara?

- Melhor do que ontem. E você? - respondo, sincera.

- Bem, depois de tudo... Mas isso não importa. Você sabe que está prestes a escutar muita coisa absurda, não sabe?

- Sim, tentei me preparar psicologicamente essa madrugada pra isso. Sei que não vai ser nada legal escutar do meu próprio pai que forjou um assalto que podia ter me matado.

- Seus filhos vão escutar histórias hilárias do vovô, hein? - ele comenta, dando uma risada. Eu apenas estreito os olhos, porque não vejo como aquilo poderia ser engraçado. Ele se recompõe, parecendo culpado. - Foi mal. Pelo menos o vô por parte de pai vai poder contar umas coisas bem maneiras.

- Vô por parte de pai?

- É, o pai do Celo é um homão da porra - levanto as sobrancelhas, em choque. Ok, ele estava insinuando que eu teria filhos com o Marcelo. Meu Deus, eu mal conseguia imaginar eu e Celo resolvendo qual ração comprar para o Bartô, imagine escolhendo leite! Ele parece ter se dado conta do que falou, porque se corrige logo em seguida: - Não no sentido de bonito. Porque, sabe, é o Marcelo. Nenhum casal pode ser muito bonito pra ter feito aquela coisa horrorosa.

Sem conseguir me conter, deixo escapar uma risada. A amizade deles era algo que eu amava.

- Acho que isso é recalque daquele rostinho, hein?

- Nunca! Sou bem mais eu - ele responde, também rindo.

Percebo que os outros policiais param de caminhar assim que chegam à uma porta no corredor.

Fico tensa novamente.

- Daqui quem me acompanhará será apenas o escrivão e a garota. Está pronta? - um oficial pergunta, me encarando.

Olho para Daniel, que estava com uma careta nada agradável no rosto - suponho que ele pensava que iria entrar também -, mas ele apenas assente para mim.

- Sim, vamos - respondo, me adiantando sobre os demais homens.

O oficial abre a porta sem modos algum e antes que pudêssemos passar, sai da sala mais dois policiais. Meu pai era quase o Fernandinho Beira-Mar e eu não sabia.

Entro depois do oficial e do escrivão, fechando a porta atrás de mim. Queria evitar ter que olhar nos olhos do meu pai. Queria mesmo.

Me viro em sua direção e seus olhos já estavam pousados em mim, um tanto quanto surpresos. Ao seu lado, um homem de terno e gravata estava em pé como uma estátua. É claro que ele traria um advogado. Dou uma rápida olhada no quarto: pequeno, sem muitos confortos como ele estava acostumado e três câmeras em tripés apontavam para ele. No pé que lhe restava, estava uma algema presa na ponta da cama de ferro. Sinto um arrepio ruim por todo meu corpo ao olhá-lo naquele estado. Meu pai. Com um pé na prisão e o outro... Bom, o outro ele não tinha mais.

Amor em Risco (COMPLETO)Onde histórias criam vida. Descubra agora