Capítulo 71

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Bianca Trajano.

Marcelo permaneceria no hospital por mais alguns dias. Depois de ficar em seu quarto por todo o tempo em que me foi permitido, me despedi de todos e voltei para casa com o que restara da minha família.

Claro que ele e eu tínhamos muito a acertar; para ser sincera, eu nem sabia como nós ficaríamos. Durante o tempo em que conversamos, Marcelo foi carinhoso e cuidadoso em todo tempo, jamais se atrevendo a perguntar qualquer coisa que fosse sobre nós dois. Afinal de contas, não fazia sentido. Havíamos terminado, não havíamos? E eu não sei dizer se esperava que ele entrasse nesse assunto.

Não pude visitá-lo no dia seguinte. A tarefa de contar tudo o que havia acontecido para minha mãe fez com que eu me sentisse esgotada emocionalmente. Foi realmente difícil convencê-la a acreditar que o homem com quem era casada há mais de vinte anos era, na verdade, um bandido.

Na delegacia, nossos depoimentos duraram mais de uma hora. Tudo o que tínhamos para dizer era que não fazíamos ideia sobre a vida dupla de meu pai. Daniel, que voltara ao trabalho, nos contou e mostrou tudo o que a equipe havia descoberto após a troca de tiros.

- Após a morte de Richard, a polícia realmente pensou ter acabado com o contrabando de armas. Sérgio, no entanto, tinha outro galpão e esquemas muito bem elaborados para que o negócio nunca parasse de crescer.

Nesse ponto, os olhos de minha mãe se arregalaram tanto que eu jurei que ela os colocaria para fora.

- Toda a quadrilha está sendo procurada; alguns caras já foram encontrados e presos. Nossa recomendação é que vocês, Murilo, Tânia e Bianca permaneçam seguros em casa até a poeira baixar. Se permitirem, deixaremos policiais de prontidão à porta de vocês. Vinte e quatro horas por dia.

O delegado, que também estava presente, parecia muito feliz àquela tarde. Num determinado momento ele falou com inegável prazer:

- Devo informá-los de que a recuperação para o caso clínico de Sérgio é um pouco longa, mas a liberdade do "chefe" - e aqui ele fez aspas, dando uma risadinha satisfeita - está com os dias contados.

Quando estávamos prestes a sair, ele pigarreou.

- Só mais uma coisa. Segundo o protocolo, um escrivão e um oficial terão de ir ao hospital amanhã para colher o depoimento de Sérgio, piriri, pororó.... vocês devem saber como funcionam - ele abanou a mão, entediado com todo o procedimento policial de que tanto conhecia. - Menezes me pediu pessoalmente para que você, Bianca, pudesse participar da reunião. Ele acha que você, mais do que qualquer pessoa, merece ouvir a versão de seu pai. Entender seus motivos. Se é que há motivos para se pôr a família em risco - ele cochichou a última frase.

(...)

No dia seguinte, cheguei ao hospital cedo demais. Ou pelo menos foi isso que Marcelo me disse quando me permitiram acordá-lo.

- Você não devia estar tão ansiosa, Bi - fala ele após alguns minutos.

Sentada numa poltrona ao lado de sua cama, devolvo o olhar interrogativo com que ele me olhava.

- Por que não?

- Não sei. Pensei que você quisesse adiar esse momento o máximo que pudesse. Sei lá, é meio foda ter que ouvir tudo o que seu pai está para dizer.

Após um tempo em que tudo o que se ouviu foi o som da televisão no canal de esportes, solto um suspiro.

- Acho que preciso pôr um fim nisso. Do jeito certo.

- Eu sei, pequena - fala ele. Ao som do apelido, levanto o olhar para ele outra vez. Marcelo parece perceber, pois ergue a mão com um pouco de esforço e coça a nuca, como costuma fazer quando está numa enrascada. - Bom... e você?

- Eu o quê?

- Ainda me odeia?

Acabo dando risada pela escolha das palavras. Eu nunca o havia odiado, nem mesmo quando disse que odiava. Embora Marcelo tivesse feito tudo errado, eu não sentia nada de ruim por ele. Mesmo tendo matado alguém que eu amava.

O tempo em que estive sozinha em casa me permitiu refletir sobre essa questão. Por mais que amasse meu tio e o tivesse perdido para sempre, Marcelo não matara um inocente. E cada um de nós é responsável por nossas próprias escolhas. Meu tio - assim como meu pai - havia feito as dele. E eu precisava lidar com as consequências que isso trouxe e traria para minha vida.

- Nunca odiei você - respondo por fim. - Nem por um segundo.

...

Droga. Agora estávamos tensos.

Tudo o que Marcelo faz é olhar para mim como se lesse a droga da minha mente (e Deus, que pensamentos impróprios me ocorriam agora). Chego a pensar que ele está fazendo de propósito. Afinal, para quê me olhar assim?

Flashbacks do dia em que derrubamos metade do meu ateliê me vem à mente. Ele havia me olhado do mesmo jeitinho.

Graças a Deus alguém bate na porta. Era uma camareira; trazia nas mãos uma bandeja com o café da manhã.

- Ah, desculpe, não sabia que você tinha visita - ela diz.

- Não, tudo bem. Eu comi em casa - eu falo.

- Você é Bianca Trajano?

- Infelizmente - respondo. Marcelo dá uma risadinha.

- A equipe policial está esperando por você na recepção - ela informa, deixando a bandeja sobre a cama. - Seu pai acordou e acho que já aguarda para ser interrogado.

Olho para Marcelo, sentindo de repente minha coragem se esvair. Ele estende a mão, a colocando sobre a cama. Coloco a minha sobre a dele.

- Você vai se sair bem. E qualquer coisa eu tô aqui... completamente inválido pra você.

- Há-há... bem reconfortante. Obrigada.

Quando paro na porta, porém, Marcelo me chama. A camareira acabara de deixar o quarto.

- Ei, Bi?

Pelo tom, me preparo para receber uma piadinha. Marcelo não mudava nunca... e eu sabia que ele queria me deixar menos tensa pro que estava por vir.

- Hm? - pergunto, me virando.

- Vê se volta vestida de enfermeira. Ajuda na minha recuperação.

Levo um segundo para entender. Em seguida começo a rir.

- Vá pro inferno, Marcelo.

(...)

Oi, gente! :D

Começando a semana com o humor implacável de um Marcelo em recuperação hahahaha

Esperamos que estejam todas bem!

Um beijo e até quarta ♥

Gabriela e Natália

12/03/2018

Amor em Risco (COMPLETO)Onde histórias criam vida. Descubra agora