Capítulo 73

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Marcelo Menezes.

Eu estava num dos meus primeiros meses na polícia quando levei um tiro. O mesmo passou de raspão em meu antebraço, mas precisei vir ao hospital ainda assim para fazer um curativo. Não recebi nenhuma visita.

Agora, por outro lado, eu recebia em média cinco pessoas por dia. Até o Seu Inácio havia vindo me visitar. Contrabandeando uma garrafa de bolso para cima da mesa de cabeceira, ele disse, aos sussurros:

- Eu não devia fazer isso, Seu Marcelo, ainda mais porque o senhor já tem problemas com bebida... mas olha só - e então apontou para a garrafinha prateada -, aí dentro tem a melhor cachaça medicinal que o senhor vai tomar na vida.

- Ca...cachaça o quê? - eu perguntara, franzindo o cenho e reprimindo o riso.

- Cachaça medicinal - sussurrou ele de volta. - O senhor nunca ouviu falar? Tem propriedades curativas. E modéstia à parte, é deliciosa. O senhor toma e ó: vai ficar bom em um segundo.

Claro que eu o agradeci e o assegurei de que começaria a desfrutar de seu método não tão tradicional assim que terminasse o café da manhã. No fim, resolvi dar preferência aos antibióticos e analgésicos que as enfermeiras traziam. Afinal de contas, eu queria voltar para casa.

E em falar em enfermeira, minha mãe era quase uma delas. Desde que voltara de viagem, dona Glória praticamente havia se mudado para a poltrona de frente à minha cama. Ela decorara os horários dos medicamentos e as trocas de curativos, e até brigara com uma das enfermeiras que atrasou alguns minutos para aplicar a dosagem.

Todos os policias do meu DP também vieram. Após o depoimento de Sérgio ter se tornado quase público na delegacia, Daniel havia vindo mais vezes do que eu podia contar para trocar figurinhas comigo.

- Era óbvio, não era? - perguntava ele o tempo todo. - Caramba, era muito óbvio!

Cheguei à conclusão de que tudo aquilo ao menos tinha servido para uma coisa: minha amizade com Daniel parecia realmente ter voltado às boas. Talvez esse negócio de ter as vidas por um fio fizesse isso com as pessoas.

(...)

Eu desfrutava do que me parecia ser o único dia sem visitas pela manhã. Minha mãe havia avisado que só viria depois, Bianca estava confinada em casa até segunda ordem e Daniel e o resto do pessoal provavelmente viria mais tarde.

Lá pela quinta gelatina (eu havia convencido uma enfermeira a surrupiar algumas do refeitório para mim), ouço uma batida fraca na porta.

- Posso entrar? - pergunta uma voz feminina.

Não foi preciso olhar para saber quem era. A voz de Helen não era lá de se confundir com outra, se é que entendem.

Me olhando como se de repente eu tivesse me tornado de vidro do dia para a noite, Helen parecia bronzeada dentro de seu vestido amarelo. Seu cabelo comprido e escuro estava solto e, dali onde eu estava, já era possível sentir o cheiro de seu perfume.

Mesmo com tudo aquilo, porém, eu não havia sentido nada. Era realmente como ver uma amiga outra vez.

- Eu seria um idiota se dissesse não pra Megan Fox.

Helen ri e dá alguns passos para dentro, deixando a porta entreaberta de novo. Perto o bastante, ela se senta no espaço ao meu lado e passa os braços devagar pelos meus ombros.

Seu rosto se aconchega na curva do meu pescoço e eu tento apertá-la sem sentir dor. 

- Pensei que estivesse viajando - falo quando nos soltamos. Os olhos dela passeavam pelo gesso imensamente pichado que envolvia o meu peito e clavícula.

Amor em Risco (COMPLETO)Onde histórias criam vida. Descubra agora