Ressaca Moral

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Uma manhã tranquila e nublada pairava sobre a cidade de Crosfilt. Pássaros sobrevoavam o céu à procura de um lugar seguro, confirmando para a população e para Patrick que o dia seria de chuva. Patrick pendeu os olhos para o relógio digital do rádio de seu carro – estacionado em frente à casa de Gerard. Sentia-se receoso sobre acordá-lo às oito e quarenta da manhã, mas não conseguia esperar. Havia passado parte da noite em claro pensando no amigo.

Como dizia Romero, do programa Culpados, transmitido pela rádio Bubble durante a madrugada: "O sentimento de culpa é um dos piores inimigos do sono". Agora, Patrick entendia.

Ao sair do conforto do veículo, Patrick sentiu o ar fresco lá fora. Estava frio o suficiente para usar um casaco, mas ele havia esquecido o seu no sofá de casa. Passou as mãos pela pele arrepiada dos braços na tentativa de se aquecer e bocejou pela noite mal dormida.

O jardim da residência de Gerard continuava abandonado desde a morte de Max, e Patrick lamentou pelo estado das plantas: murchas e secas. Gerard não sabia cuidar do jardim; era Max quem fazia questão de deixá-lo lindo.

O falecido amigo dedicava-se às mudas todos os sábados pela manhã. Era costume Gerard acordar com os gritos e pulos de Max todo santo final de semana; ele enchia a casa de harmonia. Agora, nem o jardim ao qual ele tanto se dedicara por puro amor sobrevivia.

Patrick tomou a liberdade de adentrar sem chamar. Ele e Max eram as únicas pessoas com passe livre para tal audácia. Gerard os via como da família e, por isso, não precisavam de permissão. No começo, Patrick sentia-se desconfortável em invadir, mas atualmente já estava acostumado a infiltrar-se como se a casa fosse sua. Fazia muito tempo que não entrava ali, talvez desde que Max partira.

A moradia era certamente admirável e acolhedora, uma das melhores da rua Burgs. Porém, naquele momento, predominava uma desordem total que deixou Patrick chocado ao cruzar a sala.

Os objetos estavam empoeirados e fora do lugar. Havia peças de roupa espalhadas pelo sofá e, sobre a mesinha de centro, restos de quentinhas, pacotes de biscoitos e copos cheios de formigas. A TV estava ligada no canal da Cronix, mas sem som. O chão estava sujo e um cheiro de decomposição pairava no espaço, provavelmente dos alimentos esquecidos naqueles pratos de alumínio.

Patrick caminhou até a cozinha, deparando-se com um estado ainda pior. O lixo da pia transbordava para a bancada junto à louça suja. O piso estava imundo e o fogão, um nojo, com moscas sobrevoando ao redor. O cheiro era pior que o da sala. Uma caixa de leite caída mantinha a porta da geladeira entreaberta; o líquido que havia derramado estava amarelo e seco.

Patrick sentiu-se nauseado. Não perdeu tempo e foi direto para o quarto; não passaria em nenhum outro cômodo, não queria sequer imaginar o estado do banheiro. Gerard sempre fora preguiçoso para as atividades domésticas, mas sempre teve aversão à sujeira. Por mais que odiasse, ele sempre limpava ou pagava alguém para fazê-lo. Patrick estava impressionado com o estado deplorável que presenciava – o luto tinha mesmo um poder caótico de destruição.

A porta estava encostada. Patrick não precisou de muito cuidado, bastou empurrá-la delicadamente para entrar no quarto. Uma trilha de roupas se estendia pelo chão. As portas do guarda-roupa estavam abertas e um emaranhado de tecidos despencava sobre o assoalho. A cortina estava fechada, mas a luz continuava acesa, o que indicava que Gerard provavelmente "apagara" de tão bêbado, já que não conseguia dormir na claridade.

Ele estava largado sobre a cama, todo torto – meio de bruços, meio de lado. Ainda nas mesmas vestes, os cabelos do mesmo modo bagunçado e oleoso.

Patrick contornou a cama para alcançá-lo. Seus sapatos estalaram sobre vidros; percebeu mais cacos espalhados, restos de garrafas e o cheiro forte de álcool. Ao lado da cabeceira, havia mais garrafas vazias intactas e, sobre o móvel, uma de uísque pela metade. Foi uma surpresa presenciar aquilo; mais chocante ainda era ver as manchas de sangue seco em seu nariz e bochecha. Teria brigado com alguém? Teria caído? Era árduo vê-lo nessas condições.

TLIAC (Frerard)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora