O Mocinho, o Lobo e a Fera

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O MOCINHO, O LOBO E A FERA

Antes...

Em meio à escuridão, escorado contra a fileira de fornos, Ray arfava. Sentia com os dedos a ponta da lâmina que atravessara sua mão após o golpe preciso de Lucrécia Iero. Segurando a empunhadura, preparou-se para puxar o aço quando, subitamente, a porta lateral do galpão se abriu. A claridade externa invadiu o espaço, e os olhos de Ray estagnaram em choque ao ver a última pessoa que imaginou reencontrar.

— Você? — balbuciou, pasmo.

— Vem logo, ou você vai morrer aí — disse Ryan, estendendo-lhe a mão.

No calor do momento, Ray não hesitou. Enquanto Ryan conduzia o carro pela estrada de terra, ele se esforçava para ignorar a dor lancinante que pulsava em sincronia com seu coração. Seus olhos focavam no que os faróis recortavam à frente, mas sua mente estava em alerta máximo com a presença do "ex-falecido" Iero ao seu lado.

— Eu pensei que cumpriria sua palavra. Eu te disse para nunca mais colocar os pés aqui — cobrou Ray, sem desviar o olhar do para-brisa.

— É, e eu cumpri por um bom tempo. Mas agora tenho negócios a resolver. Precisei quebrar nosso acordo. Pense pelo lado bom: eu salvei sua vida. O mínimo que pode fazer é me deixar ficar — disse Ryan, atento à direção, mas captando a tensão rígida do outro.

— Eu devia tê-lo matado quando tive a chance.

Pelo canto do olho, Ryan fitou a faca atravessada na mão do parceiro involuntário, fazendo uma nota mental de vigiar aquela arma improvisada. Calculava se conseguiria sacar a própria pistola a tempo de um contra-ataque; não havia confiança ali, apenas uma trégua de sangue.

— Não vou te dar trabalho, Ray. Serei franco: voltei por causa de Simon Iero. Questão de família. Não vou mexer com o seu garoto — garantiu Ryan. — Pode ficar tranquilo sobre isso.

— Pode ter certeza de que eu estou muito tranquilo — afirmou Ray, a voz gélida.

Eles se entreolharam brevemente.

— Ainda continua arrastando corpos por ele?

— Não sei do que está falando. Minha vida não é da sua conta.

Ryan sorriu, irônico.

— Não estou com uma escuta ou algo do tipo. Pode se sentir à vontade comigo — provocou. Ray apenas arfou e manteve-se em silêncio. — Não sei o que viu nele. Ele nem vale o esforço.

Ray passou os dedos na ponta da faca em sua palma – um sinal silencioso de que o assunto estava encerrado.

— Por que se daria ao trabalho de me salvar? — O pensamento escapou pelos lábios de Ray.

— Acha que estou armando para você? — Ryan riu. — Já disse, meu foco é outro. Simon ficaria feliz se você morresse. Por que eu facilitaria a vida dele?

— O que ele fez para te trazer de volta?

— Ouvi falar de um tal "Caso Walker". Um anônimo. Quantos você já matou até agora?

Ray não respondeu. O silêncio pesou no veículo até alcançarem o asfalto da rodovia Atlanta.

— Ah, Ray... não espere que eu te dê algo sem ganhar nada em troca.

— E o que eu te devo por ter me tirado de lá?

— Ficou entendido que posso ficar em Crosfilt. Certo?

Eles se entreolharam mais uma vez, o acordo selado no silêncio.

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⏰ Última atualização: Mar 01 ⏰

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