Ela faz que sim com a cabeça, com os olhos já rasos d'agua e ele passa a mão no peito, aliviado com a comprovação, feliz.
- Eu não sei se tenho família, se tenho uma casa, eu não sei meu nome. - já ia chorar. Alfonso pega Anabella e põe no andador pra que ela não repetisse o choro ao ver 'a mãe' chorar. Liga também a televisão que havia de frente ao sofá, num canal de desenho para a menina se distrair. E volta ao sofá:
- Me conte, como foi parar nessa casa.
Ela dá um longo suspiro antes de começar a contar:- Tudo que lembro foi que acordei no fundo de um barranco. Tinha uma água suja passando do meu lado... E não sei como fui parar ali... Minha cabeça doía muito aqui. - ela leva a mão acima da nuca - Parecia que já ia anoitecer, ou amanhecer, eu não sei dizer, e eu tinha que sair dali. Mas eu me mexi e todo o meu corpo doía, como se tivessem me batido. Levantei com muito esforço e... - omite detalhes. Ela funga para não chorar. Olhava só para a menina quase debaixo da televisão entretida com uns bonecos e uma música infantil - Eu não sabia onde estava, eu não lembrava nada... Eu consegui subir depois de muito tentar e comecei a andar naquele lugar feio. Me sentia muito fraca. Meu corpo não ajudava e estava sangrando ainda. - ela acaba contando.
- Sangrando? - ele se arrepende de perguntar. Ela fica sem graça, desvia o olhar da menina para suas mãos. Ele sabia. A mulher havia dito que Anahí teve um parto normal. Sem anestesias, sem ajuda médica, sem o conforto da família, mas com uma psicótica! Ele suspira por ela, sentindo sua dor.
Nina abaixa a cabeça e passa a mão nos olhos: Eu não via ninguém, só havia mato, lixo, ruas sem asfalto... e tive que continuar andando. Eu achava que ia morrer a qualquer hora. E já era de noite quando eu avistei umas luzes, eu me esforcei tudo o que eu podia, mas só consegui sentar na cerca da casa velha.
Anabella já perde o interesse pelo desenho, com seus passinhos desordenados ajudados pelo andador ela vai atrás de seus novos e grandes brinquedos: os aparelhos de ginástica. Nina agora já não tinha mais para quem olhar, olha para o nada:
-Mas quando eu encostei na cerca, derrubou uma madeira, e fez barulho. Eu também acabei caindo para o lado e ali fiquei. Só que com o barulho, saiu uma senhora com uma madeira de muleta, gritando, xingando, quando me viu, esbravejou que sua porta não era lugar de desova. Ela me cutucou com a madeira e mandou eu levantar e sair dali...
- Ei, levanta, sai daí, não quero coisas na minha porta, não. Xô, some daqui!
- Eu não consigo mais andar, por favor. - diz com voz fraca e senta-se.De noite, a viela escura, mas a senhora nota o vestido dela molhado, uma mancha escura, todo ensanguentando.
- Que fizeram com você?! Que que tu andou aprontando!??
- Por favor, me ajuda!
- Vai morrer na minha porta?! Anda, vai, sai!... Droga! Só um copo d'agua e tu se manda!- Eu não aguento mais levantar...
A mulher continua contando: E ela me arrastou para dentro. Minha roupa ficou mais suja ainda. Sentada no chão do banheiro, ela abriu o chuveiro pra que eu tomasse um banho. A água era muito fria, eu comecei a tremer muito... Acho que se compadeceu de mim e não me botou pra fora naquele dia. Me deu uma roupa dela. Mas eu não parava de... - se cala.
- O que você fez garota?! Tá sangrando por uma vida!- Ela só chorava - Toma, come isso porque amanhã quero que tu vai embora logo daqui! - lhe da o prato de alguma coisa que ela nem identifica, parece uma sopa, mas muito grossa. Mas ela não consegue comer. Já devia ter um dia que não se alimentava. Se sentia fraca por demais.
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Nostalgia
Mistério / Suspense"Marido é principal suspeito no desaparecimento de gestante: Com novas investigações, para a polícia, o principal suspeito no sumiço de Anahí Herrera é seu marido. 'Ele foi o último que a viu no dia, mas falou com ela por telefone e depois disso a m...
