•Madison Eden•
O caminho até o hotel foi longo e doloroso. Charlotte fez um torniquete improvisado na minha coxa e passou a viagem toda preocupada com Carson. E por mais que ele falasse que estava bem, eu podia perceber o quão pálido estava.
_ Chegamos. - Ben anuncia estacionando a van em frente a um hotel de tijolos. - Eu te ajudo... - Ben me oferece sua mão, mas recuso. O soco podia ter sido um bom começo, mas ainda não estávamos quites! Me tiro sozinha de dentro da van e observo Charlotte envolver seus braços em volta do peito de Carson e o levar até a entrada do hotel. Engulo em seco, seguindo-os logo atrás.
Chegamos até um dos quartos e a morena deposita-o sobre a cama. Dois médicos ja estavam nos aguardando dentro do cômodo.
_ Asseoir... - a médica me chama e eu não a entendo, até que ela me indica uma poltrona. Sento-me e ela abre uma maleta, começando a me examinar. - J'ai besoin que tu enlèves ton pantalon. - a encaro, perdida. Depois volto minha atenção para as outras cinco pessoas no quarto.
_ Ela precisa que tire sua calça... - Ben murmura - Pra ela poder olhar o ferimento da bala. - ele explica e eu assinto. Abro meu zíper e faço o que a doutora me pede. Olho de relance para Carson, que agora tinha Charlotte ao seu lado e o outro médico costurando sua ferida no ombro. Ele devolve meu olhar e se ergue com os cotovelos, fuzilando Ben que, agora, me via de calcinha.
_ Acho que você não é necessário aqui! - ele murmura para seu irmão - Porquê não sai? - Ben balança a cabeça e caminha para fora do quarto.
_ Fique quieto! - Chalotte exclama, deitando-o de volta na cama.
Passamos mais uns vinte minutos ali, sendo costurados e tratados, e quando finalmente terminamos, eu estava exausta. Eu me sentia suja e cheirava a sangue, fumaça e suor. Então, como fui liberada primeiro, deixei Carson sendo tratado e caminhei até o quarto com o número da chave que me haviam dado.
Era um cômodo simples, mas aconchegante. As paredes eram verdes e brancas, os móveis de madeira e uma cama de casal que parecia muito macia. Tudo que eu queria era me jogar sobre ela e dormir por cinco dias, mas eu ainda precisava de um banho. E foi o que fiz. Me livrei das minhas roupas sujas e entrei debaixo do chuveiro, deixando toda a sujeira do meu corpo escorrer pelo ralo em forma de uma água avermelhada.
Quando sai do banheiro, enrolada na toalha, percebi que eu não tinha roupas limpas. Na verdade, eu não tinha nada. Considerei interfonar a recepção ou procurar por alguns dos homens de Carson para que me arranjassem algo pra vestir, mas me peguei cansada demais para isso. Portanto, apenas vesti o roupão do hotel e me enfiei debaixo das cobertas. Foram preciso apenas que meus olhos se fechassem uma única vez para que eu caísse no sono.
•••
Acordo com um barulho e dou um salto na cama, assustada. Olho ao redor do quarto e encontro Carson deixando o banheiro com uma toalha enrolada em sua cintura. Ele me nota sentada no colchão e sorri de leve.
_ Acordei você...? - ele lamenta.
_ Tudo bem. - coço meus olhos - Eu acho que apaguei... - comento.
_ Foi uma noite difícil. - ele diz e eu concordo. - Se estiver com fome, podemos descer até o restaurante, ou pedir serviço de quarto. Também arrumei algumas roupas pra você, são da Charlotte... - ele me indica uma pilha de roupas em cima de um móvel de madeira.
_ Pode ser. - respondo, examinando as opções de vestimentas que Charlotte havia me dado: uma calça jeans e de moletom; duas blusas regatas; um sutiã branco básico de renda e calcinhas. Me troco no banheiro e quando retorno ao quarto, vejo Carson me esperando em frente a porta. Saímos pelo corredor e descemos as escadas, passando pelo saguão do hotel até chegarmos ao restaurante. Era um local muito lindo na verdade. Ao ar livre, com várias mesinhas brancas espalhadas por um deque sobre um pergolado florido, dando uma vista gloriosa do jardim. Carson e eu encontramos uma mesa no canto e abrimos o cardápio. - Eu acho que poderia começar com um uísque... - comento e Carson me lança um olhar sobre o menu, antes de assentir e fazer nossos pedidos. O garçom me serve um copo com a bebida e eu tomo um gole. O líquido desce queimando minha garganta.
_ Hm... - Axel limpa sua garganta, chamando minha atenção - Madison, eu sei que já te fiz essa pergunta algumas vezes esta noite, mas... Eu gostaria da resposta real. - ele comenta balançando o gelo em seu copo - Você está bem? - Desvio meu olhar do seu e suspiro, puxando um pacotinho de palitos de dentes e os picando pela mesa.
Se eu estava bem? Bom... Eu estava a salvo. Estava viva. Estava livre...
_ Eu não sei. - confesso. - É só que... É demais, entende? - encaro o garoto a minha frente. Ele parecia tão cansado quanto eu, seus olhos estavam escuros e por mais que fossemos quase da mesma idade, ele parecia tão mais velho. - Não existe um manual pra lidar com tudo isso. Como eu devo agir daqui pra frente? Meu meio-irmão, que eu conheci há dois dias, era um gângster e psicopata. E agora ele está morto e eu não sei... Devo ficar triste? E-eu... Não sei. - repito e sinto as mãos grossas de Carson tocarem as minhas.
_ Ninguém disse que precisa saber como lidar com isso, amor. Se quiser ficar triste, feliz, zangada ou até socar alguém... Ninguém vai te julgar. - ele afirma - Se quiser fazer a última, recomendo que use Ben como cobaia, de novo. - sorrio.
_ É... Aquilo foi bom! - rio e Carson se afasta quando o garçon volta com nossos pedidos.
_ Eu só não quero que pense que precisa lidar com tudo sozinha, Madison. Me deixe carregar um pouco do peso com você. - engulo em seco, assentindo. Desvio meu olhar do seu e ambos começamos a comer, em silêncio. Eu não havia percebi quão faminta estava, até a primeira garfada. Talvez pelo fato de eu não ter comido nada desde ontem a noite.
Assim que terminamos nosso jantar, Carson e eu caminhamos pelo jardim, longe o suficiente da visão das pessoas. Ainda era possível escutar a música ambiente do restaurante, quando nos deitamos sobre a grama e encaramos o céu estrelado.
_ Eu percebo agora que te pedir para entrar na gangue foi um erro. - quebro o silêncio, olhando de lado para Carson.
_ Todas aquelas lutas e mortes te assustaram, não foi? - nego e ele prende seu olhar em mim.
_ Na verdade, eu acho que matei um homem essa noite. - Carson se ergue pelos cotovelos e me analisa, surpreso - Quem me fez isso... - passo minhas mãos pelo meu pescoço - Eu acho que o matei. - confesso e Carson volta a se deitar, seus olhos presos no céu.
_ Acho que ele mereceu seu destino, Madison. - concordo.
_ Mas não foi isso que me assustou! - murmuro - Não foi matá-lo e nem sentir esse nada por tê-lo feito... - os olhos do garoto ao meu lado estavam atentos em mim - Foi quando pensei que havia perdido você. - meus olhos marejam e eu pisco algumas vezes, afastando as lágrimas. - Foi aterrorizante. - sinto seus braços me puxarem para si, até que estou sobre seu corpo. Nossos olhos se prendem, como imãs, e sinto seus dedos colocarem meu cabelo atrás da orelha.
_ Agora entende o porquê de eu sempre tentar te manter segura... - ele sussurra - As vezes que mais sentimos medo, é quando amamos alguém.
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GET YOU
RomanceCarson Axel sempre viveu em um mundo violento. Drogas, álcool, festas, mortes, garotas... Seu pai? Um mafioso perigoso. Seu melhor amigo? Seu parceiro de crimes. Sua mãe? Morta. Ele só conheceu o caos em sua vida, mas nada comparado a quando Mad...
