Resiliência

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Cheguei em casa como uma criança assustada depois de ter visto aquilo tudo. Mamãe chegou algum tempo depois, e foi quando o Finn foi embora. Contei pra ela tudo o que aconteceu comigo e ela me contou o que aconteceu com ela.

Acabou que o meu pai estava mesmo a poucos metros de mim, no fim daquele corredor, com uma perfuração no espaço intercostal.

Tradução para: esfaqueado no espaço entre duas costelas.

Sim, é horrível, mas não é a pior coisa que poderia ter acontecido. Nenhum órgão foi atingido. Ele foi suturado e estava de repouso, esperando pra ser enviado de volta.

A notícia de que meu pai estava estável foi muito importante, mas não foi a única coisa que aconteceu.

Naquele mesmo domingo à noite, eu e a minha mãe fomos ficar na casa da abuelita. A família toda se reuniu pra ficarmos juntos.

Eu estava muito cansada e sem fome, por isso acabei cochilando no braço do sofá. Acordei com o Nacho me balançando.

- Flaca. Acorda. Dá só uma olhada.

Tentei focar os olhos no celular dele, que estava aberto num site de notícias:

"Vaza vídeo de policial abusando da autoridade em hospital."

Tomei o celular da mão dele e abri o vídeo. Ele começava comigo na sala de espera:

"O meu pai também tem família senhora..."

O ângulo da gravação estava vindo de trás de mim, por isso que eu não vi quando estavam me gravando.

Mal conseguia me reconhecer no vídeo, não porque não se parecia comigo, qualquer um conseguia ver que era eu. Mas era bizarro me ver desafiando o policial, e tomei um segundo susto quando vi o mesmo acertar o garoto no rosto.

A June do vídeo levou as mãos a boca quando o garoto recebeu o tapa. Não lembrava de ter feito isso, mas fazia sentido, porque eu havia ficado em choque, havia ficado com medo.

O vídeo parou quando o policial gritou com a pessoa que estava gravando.

- Nacho...- Eu não sabia nem o que pensar, quem dirá o que fazer.

- Escuta, fica calma, eu só achei melhor você ver agora antes de ser pega de surpresa amanhã.

Me levantei do sofá e comecei a andar pra lá e pra cá na sala escura.

- Tá na internet, eu apareci na internet, o vídeo vai viralizar, já viralizou...- Comecei a falar sozinha.

- Flaca, senta aí.

- O que eu faço?- Eu grunhi puxando o meu cabelo.

- Não tem nada que você possa fazer, para de tentar resolver tudo, caramba.- Nacho agarrou minhas mãos me fazendo soltar.

- Você não tá me entendendo!- Esperneei.

Ele entrelaçou nossos dedos e quando vi a expressão dele, me arrependi imediatamente do que disse.

- Não entendo você? Flaca, eu entendo melhor do que qualquer um o que você tá passando.- Ele disse como se revivesse memórias ruins.

Pessoas RuinsHistórias para pegar e não largar. Descubra agora