O Hart não mandou mensagem, nem ligou. Não sei porque eu estava esperando que entrasse em contato. Era óbvio que ele não iria querer falar comigo tão cedo.
Foi muito estranho pegar o ônibus na manhã seguinte. De todas as vezes em que discutimos, eu nunca mandei ele não vir me buscar.
O ônibus não era tão ruim quanto eu lembrava. Aquele velho tarado não estava lá, talvez tivesse morrido, ou sei lá. Mas eu ainda sentia um vazio, falta de alguma coisa. Isso eu sabia o que era.
Chegando na escola, eu tentei evitar as pessoas a todo custo. Até as meninas. Com certeza eu não seria uma boa companhia agora, ia acabar baixando o astral delas:
- Você sabe que não pode ficar aqui não é?- Robbie reclamou pela centésima vez, ou quase isso.
Se você não lembra quem é o Robbie, o que é bem provável, ele é o assistente do diretor. Eu normalmente vinha pra sala dele, que também era um depósito, quando eu precisava de alguma coisa. No momento, eu precisava de um local pra ficar.
- Você fala como se eu estivesse incomodando.- Eu disse enquanto fazia uma corda com os clipes de papel da mesa.
- Mallard, ter boas notas, não isenta você das regras, sabia disso?- Ele começou a soltar o clipes pela outra ponta.
- Eu sei, eu sou isenta das regras por não me importar com elas. Não tem nada a ver com as notas.
Robbie soltou os clipes e eu também. Ele se escorou na cadeira dele:
- Tá se escondendo?
Eu hesitei antes de responder:
- Não. Só tô dando um tempo aqui.
- Se tá com problemas, por que não vai ver o orientador?- Ele me questionou.
Fiz uma careta inconscientemente. Não queria falar com o Carroll, não queria uma orientação, ou um conselho. Queria ficar aqui, e importunar o Robbie, até que eu me sentisse melhor.
- Não tô com problemas.
- Então acho que pode ir logo pra sua aula, não é? Não é como se você estivesse se escondendo.- Ele falou cheio da razão.
- Desde quando você ficou tão confiante?
- Eu comecei a fazer terapia.
Demorei um pouco pra absorver aquela informação. Aparentemente, eu era a única pessoa no mundo, que não está evoluindo.
- Parabéns.- Respondi, sem muita emoção.- Você fala de mim lá?
Ele deu uma pausa antes de responder:
- Isso é particular. E quer saber? Você devia começar também, talvez descobrisse de onde vem a sua necessidade de controlar tudo.
Filho da mãe.
- Não tenho dinheiro pra isso.
- As terapias em grupo são mais baratas.- Ele sugeriu.
- Não tenho bateria social pra isso.
- Mas vai precisar, porque tá cheio de pessoas do outro lado dessa porta.- Ele indicou a saída
Aquele desgraçado terapeutizado tava certo. Não acredito que eu acabei tomando lição de moral do Robbie.
Peguei uma das canetas dele, me levantei e fui até uma das caixas que ficavam empilhadas e procurei por alguma da papelaria.
- O que tá fazendo?- Ele questionou.
- Eu perdi uma aula inteira aqui, eu vou escrever um bilhete da "enfermeira", justificando a minha ausência.- Eu disse encontrando e apanhando um canhoto rosa.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Pessoas Ruins
Teen Fiction"Eu sou uma pessoa ruim, talvez seja difícil pra maioria das pessoas, simpatizarem comigo, e eu posso culpá-las? Elas nem me conhecem e já me odeiam, imagina se soubessem?" June Mallard não tem uma vida muito confortável, e apesar de passar o tempo...
