28° capítulo

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Jay.

Havia levantado cedo hoje pra levar meu tio de volta a clínica. Não queria ir trabalhar, muito menos focar em meus serviços como cuidar de Sarah.

Boa parte por ter Sinclair na minha cola depois daquele dia.

Tio Fred parecia mais lúcido do que nunca. Nunca o vira assim antes, talvez quando tinha uns 8 anos, ele era tão bonzinho assim e até trazia presentes para eu e meus irmãos.

— tá tudo bem? — pergunto o olhando no banco do passageiro, que concorda feliz enquanto tem as mãos entrelaçadas sobre seu colo.

Bem comportado.

— vamos fazer um churrasco? — paro no sinal vermelho. — estou faminto. — foi sincero e eu tive pena.

Pena de um cara que vinha pro meu quarto com seu cinto em mãos para poder abusar de mim e descontar sua raiva.

Pena dele quando eu tinha 12 anos e ele olhava para minhas irmãs como se elas fossem uma mulher de 30 anos gostosa.

— quer comer um hambúrguer? — pergunto contra a minha vontade, acelerando o carro. — fala agora. — estava na esquina da rua de um fast food.

— quero, por favor. — fiquei tão surpreso que isso estava estampado em minha face.

Palavras assim, nunca ouvi, nem mesmo quando criança.

Passei pelo drive thru da lanchonete e pedi hambúrguer com fritas e refrigerante para meu tio, que devorou em questão de minutos naquele estacionamento.

Eu ficava surpreso com tanta mudança tão de repente, mas não levava a sério que isso poderia durar por tanto tempo.

O via mastigar aquele hambúrguer como se fosse o alimento mais delicioso do mundo e, eventualmente, um que ele nunca tivesse provado.

Como poderia não se lembrar, já que nosso jantar era a base disso todos os dias e em qualquer refeição, e quando não tinha isso, não tinha outra coisa.

Ele terminou e levei as coisas até a lixeira antes de partir para a clínica.

— olha meu filho. — o encarei quando adentrei o carro. — você está crescido, acho que precisa de um quarto maior e uma esposa. — respirei fundo, estava demorando.

— é tio Fred. — digo num tom respirando fundo. — oque é bom dura pouco, não é? — puxo o cinto ao redor dele e o prendo, logo fazendo o mesmo em mim.

— acho que já tem cabeça para ter uma família. — suspiro, girando a chave na ignição.

— é mais eu não procuro por uma família no momento. — talvez nem nunca.

Não trocamos mais palavras até chegarmos na clínica, isso já deveria ser umas 14h.

— ah não, de volta para essa merda! — falou em tom de voz alta e eu estacionei bem na frente.

— se não fosse um perigo para si mesmo e um alcoólatra, poderia estar em casa. — retiro nossos cintos e saio do carro antes dele, dando a volta.

— eu não vou sair. — resmungou após abrir a porta.

— acabei de te dar um hambúrguer, te fiz um agrado, me agrada também. — fui paciente e ele me olhou com desdém.

— você sempre quer o meu dinheiro para ir ao fliperama, seu insolente! — seguro um riso de minhas próprias lembranças e o pego pelo braço.

Fliperama = boca de fumo atrás da escola.

Ele tinha um vício, eu também.

Logo um enfermeiro da clínica vem ao nosso encontro com uma cadeira de rodas, onde tio Fred se recusou a sentar até ouvir da boca do homem um "há uma bela torta de maçã esperando por você".

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