Anastasia
Eu passo o batom devagar, o tom nude que escolhi hoje parece mais apagado do que o normal, mas talvez seja só o meu rosto que está diferente.
Eu fecho os lábios e pressiono um lenço de papel contra eles, retirando o excesso de batom.
Eu volto a sentir a sensação.
A sensação dos beijos dele.
E eu sinto raiva de mim mesma por isso.
Eu não deveria estar me permitindo lembrar de ontem.
A boca dele na minha nuca, as mãos me tocando, os lábios contra os meus.
A sensação do corpo contra o meu, o calor se espalhando pelo meu corpo e traindo cada promessa que eu fiz pra mim mesma no passado. Fecho os olhos.
Foram três anos tentando enterrar essa história, tentando esquecer tudo que aconteceu.
Foi um erro, Ana.
Um erro sem importância.
Foi uma noite de fraqueza sem significado.
Abro os olhos de novo. O reflexo me encara de volta, quase acusador. Minhas bochechas levemente coradas. Passo mais uma camada de corretivo, como se a maquiagem pudesse apagar a noite inteira junto com as olheiras.
A noite inteira.
Não foi apenas uma vez. Foi a noite inteira.
Um erro repetido várias vezes.
Respiro fundo, endireito os ombros e saio do quarto.
O silêncio pesa. Sem a minha filha aqui tudo fica calmo demais, silencioso demais.
Sinto falta da minha loirinha correndo pela casa.
Sinto o cheiro de café antes mesmo de chegar na cozinha e um arrepio subindo.
Eva.
Eva vira o rosto quando chego na cozinha.
— Bom dia, Annie.
— Bom dia, Eva. — respondo, forçando um tom leve, relaxado.
Ela chegou ontem à noite ou hoje de manhã?
Será que ela viu o Christian?
Vou direto pra xícara que ela deixou separada na bancada. Meus dedos tremem levemente ao pegar a alça.
Disfarça, Ana.
Ela me observa enquanto despeja o café.
— Dormiu bem? — pergunta.
Ela viu. É claro que viu.
Ela sabe.
— Dormi. — minto, levando a xícara aos lábios.
O calor sobe pelo meu pescoço até as orelhas, e não é por causa do café.
— A casa está quieta sem a Ella, né?
— Eu não sabia que você viria hoje, Eva.
— Eu vim. Não queria te deixar sozinha. — ela sorri. — Agora come alguma coisa, você precisa repor as energias. — sinto o meu rosto queimando. E eu tenho certeza que estou vermelha. — Você trabalha muito.
Respiro fundo, relaxando.
Ou tentando.
— Eu aprendi com a vida que o corpo fala antes da cabeça, querida. E está tudo bem ouvir. Repensar, voltar atrás e reconstruir. É importante se ouvir, não se enganar. Se respeitar.
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A APOSTA
FanfictionAté onde um homem consegue ir para conseguir o que quer? Até onde Christian Grey consegue ir por uma aposta? A ambição para não ferir o próprio orgulho, pode ser a maior inimiga de qualquer ser humano, principalmente para os que não conseguem lida...
