Capítulo 64

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Christian

A Ana está irredutível. A minha mãe está irredutível.

Eu não queria que a minha relação com a Anastasia sobre a nossa filha fosse desgastante, mas eu sinto que vai ser algo bem desagradável se as coisas continuarem da forma que estão. Ela não está disposta a ceder, mas eu também não estou disposto a ceder. Eu tenho o direito de participar da vida da Ella. É o justo. O justo principalmente com a Ella, porque apesar de tudo que eu fiz ela ainda merece ter um pai presente, ela precisa ter um pai.

***

Eu paro o carro perto da praça do condomínio dos meus pais. Segundo a Gretta a minha mãe costuma trazer a Ella com muita frequência para brincar com as outras crianças.
E hoje é um dia de sorte, A Ana deixou a Ella na casa dos meus pais para passar o fim de semana, então a Eva não vai ficar junto com a minha filha durante esses dias, a Eva obviamente seria um empecilho, ela não gosta de mim.

Com motivos, obviamente.

Eu não preciso me esforçar muito para ver a minha mãe sentada, ela observa as crianças brincando.

Eu desço do carro e me aproximo. O meu coração acelerado.

Estou mais perto da minha filha do que nunca.

A Ella é uma dessas crianças.

— Mãe. — eu chamo a atenção dela. A minha mãe me olha com os olhos arregalados, o seu rosto pálido.

Ela obviamente não contava com isso.

— Christian. — ela se aproxima. — O que você está fazendo aqui?

— Eu vim finalmente conhecer a minha filha. — eu olho para as crianças. — Qual delas?

— Não. Vai embora, Christian. Você não pode fazer isso.

— Você me forçou a isso, mãe. Eu pedi a sua ajuda.

— Não. Você quis impor a sua vontade, Christian, não é a mesma coisa.

— Eu só quero fazer parte da vida da minha filha.

— Eu não posso decidir sobre a vida da minha neta dessa maneira. A mãe é a Anastasia e se ela decidiu que você não deve se aproximar da Ella a vontade dela precisa ser respeitada. Eu não vou passar por cima do desejo dela.

— Eu sou o pai da Ella. Eu posso ter sido omisso nos últimos anos, mas a Ella continua sendo a minha filha, e eu tenho o direito de ter contato com a minha filha. — digo firme.

Não estou disposto a voltar a ceder. Eu não quero mais ser o covarde que fui nos últimos anos.

— Qual delas é a Ella?

— Christian...

— Mãe, você não pode me negar isso. Não depois da mentira que você me fez acreditar. — olho para as crianças. — Qual delas é a Ella?

A minha mãe respira fundo. Ela olha pra trás, talvez procurando a minha filha entre as crianças.
Ela para o olhar em uma garotinha específica, brincando de costas. Não é preciso que ela diga nada para eu ter certeza que é a Ella.

— Ella, querida. — a minha mãe chama, a garotinha se vira e vem correndo na nossa direção.

A minha mãe se abaixa e a pega no colo. Beija a bochecha vermelha e suada.

E então eu posso ver a minha filha. Olhar de fato pra ela. De perto.

Pela primeira vez.

A Ella é linda.

Os cabelos são loirinhos. Os olhos são como os meus. As bochechas são gordinhas, e ela tem sardinhas, assim como a Ana. O nariz é arrebitado. O rostinho é angelical. Ella se parece muito comigo quando eu era criança, mas também se parece muito com a Ana.

É indiscutivelmente nossa. Minha e da Ana.

Ela é linda. Perfeita.

Absolutamente perfeita.

Não consigo tirar os olhos da minha filha.

Ella é simplesmente a criança mais linda que eu já vi na vida.

E não é qualquer criança. É a minha filha, a minha filha com a Ana.

— Ela é linda, mãe.

Ella me olha desconfiada e deita a cabeça no ombro da minha mãe.

Vovó quem é ele? — ela pergunta baixinho, com muita inocência e doçura, mas ainda consigo ouvir.

— É alguém muito importante pra vovó. — a minha mãe diz mais pra mim do que pra minha filha.

Ninguém nunca deve ter sequer mencionado o meu nome perto da Ella.

— Não esquece que tudo que eu fiz foi sempre pensando nela. — ela diz e acaricia o rostinho da Ella. — Princesa, que tal irmos pra casa pra comermos um bolo de chocolate bem gostoso?! — Ella olha animada pra minha mãe e concorda eufórica. — Depois continuamos essa conversa, Christian.

— Mãe, por favor. Pensa em mim, pensa nela.

— O que eu mais faço é pensar em você, filho. Mas eu também preciso ser justa. — respiro fundo. — Tchau, Christian.

— Tchau. — olho pra Ella. — Ella, você é linda, parece uma princesa. — os olhinhos dela brilham e ela me dá um sorriso tímido. Um sorriso lindo, capaz de fazer o meu coração ficar acelerado e as minhas mãos suarem ainda mais. — Tchau, Ella.

Tchau. — ela acena, as mãoszinhas balançando, e com um sorriso lindo, os olhinhos brilhando com inocência.

A minha mãe faz o seu caminho com a Ella no colo. A minha filha olha pra minha mãe sorrindo e com os olhinhos brilhando.

Ella é doce e inocente.

E é como um soco no estômago.

Eu não sei como pude ter coragem de negar essa garotinha. Eu não sei como eu tive estômago para falar tudo que eu falei para a Anastasia. Eu cuspi por aí que essa menininha não era minha filha. Eu fui um burro, um ignorante, um verdadeiro moleque. Fui capaz de negar a minha própria filha.

Minha filha com toda certeza, porque é impossível que a Ella não seja minha filha.

E agora que eu percebi isso eu preciso concertar as coisas.

Agora, principalmente depois de ter visto a Ella, eu não consigo mais sequer pensar em desistir disso. Eu quero e vou fazer parte da vida da minha filha.

Eu vou ser o pai da Ella.









{...}

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