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Revisado

Termino de preparar minha mais deliciosa refeição da noite; Pão com ovo e cebola. Caminho até a poltrona novinha que meu pai acabará de comprar, se quer retirou o plástico protetor, que infelizmente faz um barulho terrível toda a maldita vez que mexo meu bumbum.

Busco o controle remoto sem tirar minha atenção do pão. Ligo a televisão apenas para não me sentir só, já que meu pai está bebendo por aí. Sempre assim, ele nunca vem direto para casa, sempre segue seus amigos pedreiros para encher a cara em algum canto. Não me preocupo em deixar alguns pães para o mesmo.

Meus pés doem. O cheiro do meu perfume barato já havia se despedido a horas atrás, agora só me restava o odor do suor misturado com o amaciante em meu uniforme.

Passo algum tempo vidrada em meu celular, até notar que já se passavam das onze da noite. Meus créditos vão acabar.

Merda, Mariana não sobrou dinheiro para isto.

Me dirijo até a cozinha e deixo meu prato dentro da pia, amanhã eu o lavaria. Volto para a sala e desligo a televisão, antes que pudesse adentrar em meu pequeno quarto, meu celular toca. Cristine não dorme? Provavelmente brigou com o namorado e quer algum conselho.

Sempre pede conselhos meus, logo os meus, de uma pessoa que só teve um relacionamento sério em toda a vida. Solto uma risada baixa ao lembrar de Daniel. O celular vibra novamente em minha mão, só então me desligo dos meus pensamentos angustiantes.

— É melhor que seja importante — Digo risonha.

Por que, iria dar? — Ouço sua risada escandalosa e logo a voz grave de seu namorado ao fundo.

Um constrangimento moderado atinge meu ser. Ela não deveria falar comigo desta forma quando está ao lado de um homem.

— Fala logo!

—Você cuida de velhos, né? — Pergunta.

— Cuidadora de idosos, Cristine. — A corrijo — Agora diga, o que tem?

— Então professora, o Felipe precisa de alguém para cuidar da mãe dele. Indiquei você, tem diploma, né? — Pergunta de forma errônea.

De alguma forma aquilo me deixou animada, seria o fim de anos de escravidão naquela maldita pastelaria? Talvez, eu não poderia pedir as contas, perderia muitas coisas além do mais, trabalhar para um traficante estava fora dos meus planos.

— Sim, tenho certificado. — Respondo baixo — Mas não dá para mim, se eu pedir as contas vou perder muitas coisas.

Ouço o namorado de minha amiga pedir para falar comigo, o que denunciava; a chamada estava no viva-voz.

Minhas entranhas se retorcem ao imaginar a ideia de tê-lo conversando comigo através do celular.

O cara é procurado pela polícia.

Caminho rapidamente até minha cama de solteiro, a ouço ranger quando me sento desesperadamente.

— Oi, é o Felipe — Sua voz soa ao outro lado da linha, fazendo meu corpo se arrepiar por inteiro. —
Tá aí?

Dou conta que estou parada fitanto o nada, totalmente desligada e viajando em sua voz grave e arrastada.

— Érr.. O-Oi, Felipe. Sou Mariana, prazer em conhecê-lo. — Digo trêmula, mas por que?

Mas que merda está acontecendo comigo? Isto é medo? Talvez receio. Levo minha mão até minha testa quando me dou conta que o cumprimentei feito uma velha.

CDC - Concluída.Onde histórias criam vida. Descubra agora