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Minha cabeça dói, meu útero também mas posso afirmar que nenhuma dessas dores de compara com a que meu peito carrega neste exato momento. Não sou burra, sei que perdi meu filho, muito embora as enfermeiras passem por mim sem dizer absolutamente nada. Desde que Felipe me trouxe para o posto da comunidade eu não o vejo mais, e honestamente? Prefiro assim. Sinto nojo dele, nojo desse lugar. Maldito foi o dia que pisei neste lugar. Ah, Gleyce, só tiro você desta história de horror.

- Oi? - Ouço a uma voz família. Karol. - fiquei aqui fora um tempo, esperando você acordar. Acho que deram remédio demais para dor, você dormiu muito - Ela brinca.

- Ah...sim. - Digo sem ânimo.

Observo a agulha em meu braço e desvio meus olhos para a enfermeira que acabará de entrar.

- Olha, você acordou. - Diz a enfermeira.

- Faz tempo. - Respondo seca.

- Peguei no plantão agora. Só me disseram que a senhorita bela adormecida...ainda estava adormecida - Ela brinca tentando quebrar o clima chato.

- Quem mais está aí fora? - Indago a Karol.

- Felipe tentando acalmar a mãe dele pelo celular. - Explica. - Ainda não cobraram a ela sobre...o bebê.

- Parece um pesadelo.

Murmuro e me encosto na cama.

- Mariana, você não lembra do que aconteceu? - Nego - acho que drogaram você.

A enfermeira fita Karol e desvia seu olhar para mim.

- Não relataram isto. Se você se drogou, isso pode com certeza ter influenciado no aborto.

Assim tenho a confirmação de que perdi meu neném. Não seguro a vontade e choro feito criança.

- Calma, menina. Eu entendo sua dor - A enfermeira diz, caridosa. - Preciso que o responsável por ela venha conversar com a doutora.

- Ele está lá fora. Vou chamar. Já volto - Karol diz se retirando em seguida.

O silêncio ecoa. A mulher lê algumas coisas que estão escritas ao pé do meu leito.

- Eu não me droguei. - Digo com a voz falha. - alguém fez isso comigo.

- A troco de que? Você precisa tentar lembrar de algo. - Ela me encara - alguém te ofereceu alguma substância?

- Não. Eu estava eu uma fes...

Sou interrompida por Felipe, que entra no local como um furacão. Seus olhos estavam vermelhos e pela primeira vez não foi pelas drogas. Ele havia chorado. Karol surge por trás do mesmo, ela sorri tentando me passar conforto.

- Você é a doutora? - Ele pergunta com sua voz rouca.

- Não. Eu vou chamar ela - Ela fita seu relógio de pulso - já deve ter saído do almoço.

Ela sai do local sem manter contato visual com Felipe. Ele se aproxima de mim, seus olhos me transmitem tanta...dor. Ele também estava sofrendo, independente do meu ódio pelo mesmo.

- Olha para mim - ele pede quando desvio meu olhar do seu. - amor...

- Amor? - Desvio meu olhar para o seu - não me chame assim. Nada mudou, ou melhor, mudou sim. Meu ódio por você só aumenta.

- Não vim discutir com você. Quero saber quem te drogou. - Diz rígido.

- Eu não sei Felipe. Não lembro de merda nenhuma...

- Foi o Diguinho, não foi?

Ele assume uma postura rígida.

- O que? Claro que não. Ele só me deu comida. Aliás, eu só bebi refrigerante e comi. - Digo rapidamente.

CDC - Concluída.Onde histórias criam vida. Descubra agora