Capítulo 28

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Naquele sábado de manhã, do outro lado da cidade, Francisco deixava Joaquim na frente do consultório onde ele trabalhava como assistente. Antes que o loiro pudesse descer do carro, ouviu o namorado chamá-lo e quando olhou para trás, recebeu um beijo cálido e longo nos lábios.

– Tá bom, agora eu tenho de ir porque o Alberto não gosta quando os funcionários se atrasam... Ele é bem chato, pra falar a verdade. – sussurrou enquanto ria e enfim descia do carro. Apesar da secretária também ter a chave do consultório, na maioria das vezes era ele que abria a porta, ligava as luzes e preparava tudo para o começo do dia.

Estava destrancando a porta do consultório quando ouviu alguém chamá-lo. Olhou por sobre o ombro e encontrou seu chefe, Alberto, parado há alguns metros dele exibindo uma expressão desconfortável.

– Bom dia, Alberto, chegou cedo hoje. – entrou na sala de espera e acendeu as luzes, como vinha fazendo no último mês, mas, quando iluminava o consultório em si, percebeu que o outro não o seguiu. Perguntou se ele estava bem, ao que ouviu um murmúrio irritado em resposta.

– Aconteceu alguma coisa? – perguntou enquanto sentia o medo preenchê-lo como um líquido gélido. Não tinha tido problema com o dentista até o momento, mas a expressão facial de Alberto o fez repensar a situação.

– Na verdade aconteceu sim, Joaquim. Eu estava chegando agora a pouco e vi você dentro de um carro beijando um cara. – o tom de voz aplicado pelo dentista disparou um alarme mental na cabeça do rapaz, pois já havia visto aquele comportamento antes.

– É, ele é meu namorado. – respondeu confiante, pensando que já que tudo estava perdido, para que tentar esconder? Viu uma expressão de repugnância tomar conta do rosto de Alberto e ali teve a confirmação de que se permanecesse no emprego, sofreria todo tipo de ataque velado.

– Eu agradeceria se você mantivesse sua vida particular longe do meu consultório. – "E eu agradeceria se você não fosse um homofóbico escroto de merda" pensou Joaquim, mas respirou fundo e engoliu a frase.

– Eu não estava no "seu consultório", estava dentro do carro com meu namorado ou será que você acha que seus pacientes vão aparecer aqui as 7h45 para verem alguma coisa? – estava ficando irritado com aquela conversa que ao que tudo indicava ia terminal mal.

– Mesmo assim, não é de bom tom... – o que Joaquim queria era dar um soco no meio daquela cara redonda e rosada do dentista, mas sabia que se fizesse isso ia perder qualquer chance que pudesse ter de ganhar aquela briga.

– Sinceramente Alberto, se as coisas vão ser assim, eu gostaria de encerrar o meu contrato agora mesmo. Você me paga os dias que eu trabalhei e pronto, não nos vemos nunca mais. – viu a boca do outro se abrir em um "O" de surpresa e sentiu uma pequena pontada de felicidade, não era certo sair sem lutar, mas estava cansado de tentar enfrentar aquele tipo de gente.

– Não, eu preciso que você me assista pelo menos por hoje, tenho um tratamento de canal agendado para as 14h00 e vou precisar de ajuda. Mas se no fim do dia ainda for sua vontade reincidir o contrato, eu o farei com o maior prazer. – aquele pequeno crápula! Estava distorcendo as coisas para fazer parecer que em sua infinita "bondade" resolveu dar uma segunda chance para ele.

– Muito bem, eu assisto você hoje, mas acabando o tratamento da paciente, você assina os papéis, me paga o valor que me deve e eu vou embora. – seria um longo dia.

***

Diego se virou na cama e encontrou o corpo macio de Marcelo ao seu lado e então o envolveu de forma languida com os braços. Ainda era cedo, era Sábado e ele estava exausto de ter tomado conta de Paulo no dia anterior. A febre e a dor de barriga sumiram de repente como mágica e lá pelo meio do dia o menino estava como sempre, feliz e animado.

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