**Capítulo 66**

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Eu não tinha muito o que fazer no meio daquele mato. No meio do nada.

Ouvia qualquer barulho e já achava que era um bicho, ou até aquele cara estranho vindo atrás de mim.

Não sabia se tinha realmente matado ele, mas... estava em choque por pensar que tirei a vida de uma pessoa.

Só que, era melhor a dele do que a minha. Eu acho.

Já tinha se passado horas e horas e nada do Wellington finalmente chegar.

Nem sabia também se ele viria me ajudar, ou sequer tinha conseguido rastrear aquele telefone.

Eu só ficava rezando, pedindo a Deus que ele aparecesse logo. Neguinho era o único que poderia me ajudar agora.

Estava aninhada no galho de uma árvore alta, com um medo do que poderia ter abaixo naquele mato a essas horas da noite.

Fiquei agarrada ali por muito tempo, com medo de cair e acabar quebrando algum osso, ou até morrendo.

Não me mexi muito e sinceramente meu corto todo já doía por isso.

Mas era melhor do que eu acabar caindo.

A bateria do celular do homem já estava com seus minutos contados, então eu só ligava para ver que horas eram.

Meia noite e cinquenta e nada do Neguinho.

Já estava começando a ficar desesperada.

Mas foi aí que eu escutei meu nome sendo gritado em algum lugar próximo dali.

Escutei com atenção, só que assim que percebi que era a voz dele, eu desci daquela árvore o mais rápido possível e comecei a correr na direção da voz.

Ele gritava meu nome tão alto, que no foi difícil seguir a direção de sua voz.

Meu peito subia e descia com minha respiração acelerada. Minhas pernas se moviam automaticamente.

Corria sem nem sequer olhar por onde eu passava.

Eu poderia cair em algum buraco? Sim! Mas não cai.

O farol do carro dele iluminava ele naquela estradinha, e também o carro em que eu estava algumas horas antes de "matar" o homem.

Assim que me aproximei, e reparei nele mesmo, meu peito se apertou um pouco.

Fazia dias ou semanas que eu não via ele. Sabia nem se ele estava na favela, e rever ele assim, dessa maneira, é foda.

Wellington me olhou de cima a baixo, e engoliu em seco, desviando o olhar de mim até o corpo do cara no chão.

Rafaelly: Tá...?

Neguinho: Sim. O cara tá morto. - ele fez uma careta.

Morto. O cara estava morto.

E eu quem tirou sua vida desgraçada.

Neguinho: Foi uma cacetada e tanto, em.

Rafaelly: Minha vida tava em risco...

Neguinho: Eu tô ligado, e já já você vai me contar tudo o que aconteceu. Detalhe por detalhe.

Balancei minha cabeça concordando.

Neguinho: A gente precisa enterrar esse corpo. Antes que mais alguém acabe vendo. - suspirou, com as mãos já cintura. - Pega as duas pá no banco de trás do meu carro.

Eu nem disse nada, apenas fui até o carro e abri a porta de trás, pegando as duas pá que tinha ali.

Neguinho: Eu vou levar o corpo dele arrastado, e você leva isso daí. - apontou para as pá na minha mão.

Eu sem dizer nada, continuei.

Wellington começou a arrastar o corpo do homem em direção ao mato, e eu fui indo atrás em silêncio, iluminando nosso caminho com a lanterna do celular dele.

Paramos em uma parte perto de algumas árvores, e ele deixou o cara esticado no chão, pegou uma das pá e começou a cavar uma cova.

Uma cova.

Eu nunca sequer imaginei que logo iria cavar uma cova com o cara que eu gosto.

Sinceramente... Que decadência!

Wellington não abria a boca por nada. Só continuava cavando calado, e já era. Então eu fiz o mesmo.

Não era fácil cavar um buraco como eu achava não.

Por quanto tempo ficamos cavando ali? Não faço a mínima ideia.

Mas quando o tamanho e a profundidade já estavam suficiente, Neguinho jogou o corpo ali dentro, começando a jogar a terra em cima.

Quando terminamos, ele tentou deixar tudo o mais natural possível por ali, para ninguém passar e ver que tem algo de diferente e ir querer fuçar.

Não sei. Sempre tem um que acha legal fuçar aonde não deve. E eu sou uma dessas pessoas, mas isso não vem ao caso agora.

Rafaelly: Vai fazer o que com esse carro? Deve ter rastreador. - fiz uma careta, parada ao lado daquele carro.

Neguinho: Colocar fogo nessa porra.

Rafaelly: Mas Wellington, isso vai chamar a atenção...

Neguinho: E quando chamar, nós dois já vai estar na favela novamente.

Eu dei de ombros, e entrei dentro do carro dele, no banco do passageiro.

Ele pegou um galão de gasolina no porta malas e começou a jogar em todo aquele carro.

Eu só ficava olhando tudo calada, esperando para ir embora logo antes que alguém aparecesse.

Neguinho jogou o isqueiro no carro, fazendo o fogo subir. Então ele veio pro carro. Entrou ao meu lado e logo seu partida, saindo daquele local.

Para longe da aonde cometi meu primeiro crime. Meu primeiro assassinato.

E uma parte de mim ficou lá. Parada e observando enquanto o carro queimava. Lembrando da merda em que cometi hoje.

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