Eu não tinha muito o que fazer no meio daquele mato. No meio do nada.
Ouvia qualquer barulho e já achava que era um bicho, ou até aquele cara estranho vindo atrás de mim.
Não sabia se tinha realmente matado ele, mas... estava em choque por pensar que tirei a vida de uma pessoa.
Só que, era melhor a dele do que a minha. Eu acho.
Já tinha se passado horas e horas e nada do Wellington finalmente chegar.
Nem sabia também se ele viria me ajudar, ou sequer tinha conseguido rastrear aquele telefone.
Eu só ficava rezando, pedindo a Deus que ele aparecesse logo. Neguinho era o único que poderia me ajudar agora.
Estava aninhada no galho de uma árvore alta, com um medo do que poderia ter abaixo naquele mato a essas horas da noite.
Fiquei agarrada ali por muito tempo, com medo de cair e acabar quebrando algum osso, ou até morrendo.
Não me mexi muito e sinceramente meu corto todo já doía por isso.
Mas era melhor do que eu acabar caindo.
A bateria do celular do homem já estava com seus minutos contados, então eu só ligava para ver que horas eram.
Meia noite e cinquenta e nada do Neguinho.
Já estava começando a ficar desesperada.
Mas foi aí que eu escutei meu nome sendo gritado em algum lugar próximo dali.
Escutei com atenção, só que assim que percebi que era a voz dele, eu desci daquela árvore o mais rápido possível e comecei a correr na direção da voz.
Ele gritava meu nome tão alto, que no foi difícil seguir a direção de sua voz.
Meu peito subia e descia com minha respiração acelerada. Minhas pernas se moviam automaticamente.
Corria sem nem sequer olhar por onde eu passava.
Eu poderia cair em algum buraco? Sim! Mas não cai.
O farol do carro dele iluminava ele naquela estradinha, e também o carro em que eu estava algumas horas antes de "matar" o homem.
Assim que me aproximei, e reparei nele mesmo, meu peito se apertou um pouco.
Fazia dias ou semanas que eu não via ele. Sabia nem se ele estava na favela, e rever ele assim, dessa maneira, é foda.
Wellington me olhou de cima a baixo, e engoliu em seco, desviando o olhar de mim até o corpo do cara no chão.
Rafaelly: Tá...?
Neguinho: Sim. O cara tá morto. - ele fez uma careta.
Morto. O cara estava morto.
E eu quem tirou sua vida desgraçada.
Neguinho: Foi uma cacetada e tanto, em.
Rafaelly: Minha vida tava em risco...
Neguinho: Eu tô ligado, e já já você vai me contar tudo o que aconteceu. Detalhe por detalhe.
Balancei minha cabeça concordando.
Neguinho: A gente precisa enterrar esse corpo. Antes que mais alguém acabe vendo. - suspirou, com as mãos já cintura. - Pega as duas pá no banco de trás do meu carro.
Eu nem disse nada, apenas fui até o carro e abri a porta de trás, pegando as duas pá que tinha ali.
Neguinho: Eu vou levar o corpo dele arrastado, e você leva isso daí. - apontou para as pá na minha mão.
Eu sem dizer nada, continuei.
Wellington começou a arrastar o corpo do homem em direção ao mato, e eu fui indo atrás em silêncio, iluminando nosso caminho com a lanterna do celular dele.
Paramos em uma parte perto de algumas árvores, e ele deixou o cara esticado no chão, pegou uma das pá e começou a cavar uma cova.
Uma cova.
Eu nunca sequer imaginei que logo iria cavar uma cova com o cara que eu gosto.
Sinceramente... Que decadência!
Wellington não abria a boca por nada. Só continuava cavando calado, e já era. Então eu fiz o mesmo.
Não era fácil cavar um buraco como eu achava não.
Por quanto tempo ficamos cavando ali? Não faço a mínima ideia.
Mas quando o tamanho e a profundidade já estavam suficiente, Neguinho jogou o corpo ali dentro, começando a jogar a terra em cima.
Quando terminamos, ele tentou deixar tudo o mais natural possível por ali, para ninguém passar e ver que tem algo de diferente e ir querer fuçar.
Não sei. Sempre tem um que acha legal fuçar aonde não deve. E eu sou uma dessas pessoas, mas isso não vem ao caso agora.
Rafaelly: Vai fazer o que com esse carro? Deve ter rastreador. - fiz uma careta, parada ao lado daquele carro.
Neguinho: Colocar fogo nessa porra.
Rafaelly: Mas Wellington, isso vai chamar a atenção...
Neguinho: E quando chamar, nós dois já vai estar na favela novamente.
Eu dei de ombros, e entrei dentro do carro dele, no banco do passageiro.
Ele pegou um galão de gasolina no porta malas e começou a jogar em todo aquele carro.
Eu só ficava olhando tudo calada, esperando para ir embora logo antes que alguém aparecesse.
Neguinho jogou o isqueiro no carro, fazendo o fogo subir. Então ele veio pro carro. Entrou ao meu lado e logo seu partida, saindo daquele local.
Para longe da aonde cometi meu primeiro crime. Meu primeiro assassinato.
E uma parte de mim ficou lá. Parada e observando enquanto o carro queimava. Lembrando da merda em que cometi hoje.
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Lance Proibido
RomansaA Razão nos contém dos nossos desejos proibidos... A vontade se cala, mas não se acaba... Hoje a emoção é amiga da Razão. Mas se a vontade falar mais alto e a emoção trair a razão... Amanhã vai sair na primeira edição, um crime de paixão...
