Ao chegar na favela, eu fui direto correr para a casa do Pedro.
Precisava saber se ele estava bem. Se tinham deixado pelo menos ele sair de boa nessa merda toda.
Neguinho até tentou me acalmar, porque viu e percebeu o meu nervosismo de longe, mas de nada adiantou.
Meu peito subia e descia freneticamente enquanto eu corria na direção da viela aonde era a casa dele.
Pedia aos céus que quando chegasse lá, viria ele bem e a salvo.
Só que, assim que cheguei próximo da pequena praça que tinha a algumas ruas antes da viela, me deparei com uma multidão de pessoas em volta de algo.
Meu coração deu um pulo dentro do peito, e minhas pernas fraquejaram.
Fui me aproximando devagar, ainda escutando os passos do Neguinho atrás de mim.
Ele tinha deixado seu carro na porta da minha casa, e vindo correndo atrás de mim pelas vielas aonde o carro não passava.
Afastei as pessoas conforme eu ia me aproximando da onde eles olhavam e cochichavam.
Alguém gritava por socorro, enquanto outras apenas olhavam caladas e paradas.
E assim que consegui enchegar o que todos estavam olhando, eu senti meu coração parando aos poucos.
A mãe do Pedro chorava desesperada enquanto segurava o filho no colo desacordado.
Meus joelhos fraquejaram quando vi uma poça de sangue ao seu redor e um pedaço de papelão pregado em sua barriga com alguma coisa escrita.
As lágrimas desceram de uma vez pelo meu rosto, e quando tentei me aproximar, a mãe do Pedro levou seu olhar até mim, percebendo minha presença ali.
Rosa: Sua vadia. Isso tudo é culpa sua. Meu filho está morrendo por sua culpa. - berrou, me olhando com uma raiva imensa nos olhos. - Não se aproxima.
O barulho da ambulância estava distante. Não tinham como subir com o carro para cá. Não tinha como passar pelos becos e vielas até aqui em cima.
Então me aproximei dele novamente, e a dona Rosa gritou pedindo alguém que me tirasse de perto deles.
Rafaelly: Por favor... eu sou quero ajudar. Eu...
Rosa: Sai daqui, sua desgraçada. Se não fosse por você meu filho estaria bem. Se não fosse você indo fazer sua vagabundagem chamando ele, tudo estaria bem... Ele estaria bem.
Senti o peso daquelas palavras caindo tudo em minhas costas e eu não poderia dizer mais nada. Não tinha a porra da razão ali.
Não tinha como eu discutir contra a mãe dele.
Neguinho segurou meu braço, e ouvi ele chamando pelo rádio alguns meninos para levarem o Pedro até a ambulância. Coisa que já deveriam ter feito desde quando jogaram ele aqui.
Eu não fazia ideia de quanto tempo tinham feito isso. Mas não deveria ser muito, já que o sangue ainda estava fresco.
Rosa: Sai daqui. - continuou berrando.
Rafaelly: Para. Eu só quero ajudar. - berrei também, me aproximando dela. - Ele é meu amigo.
Neguinho: Rafaelly, é a mãe do moleque, não rebate.
Ignorei ele e quando me aproximei mais, consegui ler o que tinha escrito no papelão pregado em sua barriga.
Três dias pra tu, Rafaelly, me entregar o que eu pedi, se não... quem vai sofrer é teu amigão aí, que só está desse jeito por tua causa. Se liga em, vadia.
Coloquei minhas mãos sobre a boca, sem ter o que reagir.
Aquela porra era tudo, tudo culpa minha.
Meti ele nessa merda toda, e quem tá pagando é ele. A pessoa que ficou do meu lado quando todos estavam virando as costas pra mim.
A única.
Alguns caras chegaram sem arma, sem nada, e levaram o Pedro que ainda respirava, em direção a ambulância, que já tinha deixado os paramédicos subirem até aqui por ordem do comando.
A mãe dele foi junto, ainda desesperada e me xingando. E eu continuei sem ter o que fazer naquele momento.
Meus pés começaram a se mecher em direção a minha casa. Mas eu estava por um fio de desmoronar por completo no meio da rua.
Wellington continuou atrás de mim, falando com a minha mãe ao telefone. Ela estava desesperada atrás de mim, querendo ao mesmo tempo me matar por saber o porquê fui encontrar com aquele homem, e no mesmo instante querendo sentir que estou bem.
Então assim que cheguei em casa, minha mãe me abraçou. E estar ali em seus braços, foi o limite pra mim.
Cai de joelhos no chão, soluçando de dor. Não física, mas emocional. Com medo do que poderia acontecer com o Pedro se eu não fizesse o que estão mandando.
Não podia deixar ele morrer por minha culpa. Ele já sofreu demais em meu lugar.
As mãos de minha mãe desciam pelos fios do meu cabelo, fazendo um carinho leve, enquanto eu chorava desesperada.
O ar começou a me faltar aos poucos, e minha visão ficou meia turva. Meu corpo todo tremia a cada soluço que escapava de mim.
Coloquei minha mão sobre o peito, puxando o ar com força.
Mas não adiantava. Em minha cabeça só se passava tudo o que poderia acontecer no futuro se eu não entregasse aquele maldito diário.
O que poderia acontecer com o Pedro, com a minha mãe, com o Neguinho ou até com o William...
E tudo isso por minha causa. Por não cumprir o que foi passado a mim obrigatoriamente.
As palavras que estavam pregadas no Pedro rondavam por minha cabeça, fazendo tudo ao meu redor girar.
O ar definitivamente parecia que tinha sumido. Tudo parecia que tinha virado pó. Só restava eu ali. Eu e minhas escolhas que poderiam colocar alguém na mira.
Apertei meu peito, batendo com a outra mão no chão, em busca do ar que meus pulmões clamavam.
Meus olhos vasculhavam tudo ao redor, vendo um Wellington desesperado, e uma Ana tremendo. Mas não conseguia escutar o que eles falavam.
Não escutava nada. Apenas a minha cabeça, e... a minha culpa.
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Lance Proibido
RomansaA Razão nos contém dos nossos desejos proibidos... A vontade se cala, mas não se acaba... Hoje a emoção é amiga da Razão. Mas se a vontade falar mais alto e a emoção trair a razão... Amanhã vai sair na primeira edição, um crime de paixão...
