Dias depois...
S
egurei firme aquelas sacolas cheias de comida, e fiquei esperando por longos minutos na frente daquele presídio.
Pleno domingo, cinco e meia da manhã e eu aqui num frio do caralho, apenas para ver por alguns instantes o meu Zé Bolacha.
Estava com tanta saudade dele, que quando chegou no sábado, foi uma luta conseguir dormir com a ansiedade batendo forte pra ver esse cara.
Mas estava tão feliz, que mesmo eu ter dormido apenas por três horas nessa noite, só conseguia pensar que iria vê-lo logo.
Passei pelas revistas, e fiz tudo certinho, de uma vez entrando naquele enorme pátio aonde estava diversos presos esperando seus familiares.
Com o olhar, eu cacei o Magrão, já ficando nervosa por não encontrar ele logo.
Tantos caras tinham um olhar estranho em mim, que mesmo eu sabendo que não poderiam fazer nada ali comigo, eu sentia medo.
E quando finalmente encontrei o Magrão no meio daqueles caras, eu soltei um suspiro longo, aliviada. Fui caminhando devagar em sua direção, até ele olhar pra mim, soltando um sorriso enorme.
André veio correndo até mim, me envolvendo em um abraço forte e gostoso. Deixei as sacolas no chão, ao nosso lado, e retribui aquele abraço, apertando o mesmo.
Rafaelly: Aí que saudades que eu estava de você, garoto. - me afastei dele, olhando em seu rosto.
Magrão: Ih, depois que me conheceu, não vive mesmo sem mim, em. - passou as mãos pelos cabelos, se achando todo.
Ala.
Ele pegou as sacolas e foi andando entre todas aquelas pessoas, até em um canto das paredes. André sentou no chão, com as costas encostada na parede e já foi abrindo as sacolas.
Me sentei ao seu lado, com as pernas cruzadas, apenas observando ele comer as comidas que minha mãe tinha preparado na noite anterior.
Rafaelly: Você tá bem? - perguntei baixo.
Magrão: Tô de boa, pô. - respondeu, com a boca cheia. - Essa semana foi bem de boa aqui dentro.
Ele me olhou de cima a baixo, parando o olhar firme em meu rosto. Fez uma careta, enfiando outro pedaço enorme de bolo na boca.
Magrão: Quem... - fez uma pausa, engolindo. - Quem não parece estar bem, é você aí. O que rolou, bacalhau?
Dei uma risada fraca ao ouvir o apelido que ele me deu, por um motivo bobo, mas que eu... amava!
Rafaelly: Aí André...
Magrão: Fala logo, garota. Rum.
Cocei minha nuca, desviando meu olhar do dele por alguns segundos, antes de falar:
Rafaelly: Neguinho e eu... paramos de ficar.
Magrão fez uma careta, e pediu para eu ir contando tudo à ele, enquanto o mesmo comia desesperado.
Fui contando tudo, cada detalhe do que aconteceu entre eu e o Neguinho naquela noite em que acabamos com tudo o que existia entre a gente.
Eu estava ainda bem chateada com o que rolou, então desde então, não tinha se quer escutado o nome dele, e muito menos visto ele pela favela.
Graças a Deus!
Ainda não conseguia lidar com tudo isso de uma forma... boa. E doía um pouquinho quando eu lembrava de tudo!
Magrão: Caralho... é foda!
Rafaelly: Ele foi um arrombado mentiroso, me escondendo a verdade nesse tempo todo.
Magrão: Pô bacalhau, as vezes o cara só estava querendo te poupar das coisas, tá ligada? Sei lá.
Rafaelly: Me poupando, mas colocando à vida dele em risco. Ridículo!
Magrão: Nessa parada ele foi meio burro. Não entendi até agora porque ele foi atrás de você querendo algo, se isso no final poderia causar a morte dele. - fez um bico, negando com a cabeça. - Latrell é meio confuso da cabeça, ala.
Rafaelly: Só pode mesmo, porque sinceramente é impossível. Ninguém iria querer matar um simples "desejo"... - fiz aspas com os dedos. -... colocando sua vida em risco, sabendo disso.
Magrão me olhou na hora, e acho que acabou pensando no que eu tinha pensando e raciocinado naquele momento.
- Aí tem coisa! - nós dois falamos juntos, concordando com a cabeça.
Sabia que tinha coisa nisso, até porque Wellington não seria buro o suficiente pra querer ficar comigo, colocando sua vida em risco, apenas por um desejo bobo.
Ih, sei não.
Rafaelly: Enfim... não vejo a hora de você sair desse lugar logo.
Magrão: Meu advogado tá vendo um bagulho de fiança aí com uns manos da polícia e do setor jurídico, mas sei não.
Rafaelly: Quantos seriam a fiança?
Magrão: O valor certinho eu não sei, mas seria em torno de uns 60 mil reais. Fora o que eu teria que pagar quando eu saísse, pra deixar o juiz e os policiais de boa.
Rafaelly: Posso ajudar com o dinheiro...
Magrão: Ih Rafaelly, nem vem em, rum. Vou aceitar nenhum dinheiro seu, porque eu tô ligado que tudo o que cê tem, é pra montar teus salões. Então, parou!
Rafaelly: André...
Magrão: É sério Rafa. Não é pra nem tentar ir atrás do meu advogado querendo pagar se isso ir pra frente. Se eu souber que foi dinheiro seu, ou de outra pessoa lá de fora, vou ficar bolado.
Rafaelly: Pra que isso? Só quero te ajudar.
Magrão: Eu sei bacalhau, mas eu quero conseguir esse dinheiro sozinho, dando meu jeito, porque se um dia eu cair por conta dessa corrupção, não quero levar ninguém comigo.
Com isso, eu apenas balancei a minha cabeça concordando, e fiquei na minha, vendo ele comer.
Não podia deixar o Magrão se matando pra conseguir os 60 mil sozinho. Iria ajudar com ele sabendo ou não.
Infelizmente não poderia mexer na minha poupança, já que quando era menor, minha mãe havia feito uma parada lá, para que eu só pudesse mexer no dinheiro, apenas quando eu completasse 21 anos. Ou seja, daqui um ano e pouco.
Então, daria outro jeito de arranjar esse dinheiro. E, já até sabia como!
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Lance Proibido
Roman d'amourA Razão nos contém dos nossos desejos proibidos... A vontade se cala, mas não se acaba... Hoje a emoção é amiga da Razão. Mas se a vontade falar mais alto e a emoção trair a razão... Amanhã vai sair na primeira edição, um crime de paixão...
