Como imaginei, a salinha principal estaria vazia. Comecei a mexer em tudo, enquanto Pedro me apressava no corredor.
Mandei ele calar a boca e continuei procurando.
Mexia em tudo, mas nada. Abri todas as gavetas da mesinha que estava no centro e nada. Comecei a me desesperar assim que escutei o primeiro tiro. Estava longe, quase inaudível, mas me aterrorizou.
Pedro ficou branco, enquanto ainda me observava procurar o diário. Não pedi para ele me ajudar, e sim ficar olhando quem se aproximava.
Rafaelly: Inferno, não está aqui. — murmurei, passando a mão por meus cabelos.
No momento em que passei meus olhos pelo chão, atordoada, conseguir ver atrás da porta, uma falha na parede. Uma fresta...
Não...
Corri até lá, dando alguns soquinhos e percebi que o som estava oco. Meu coração acelerou, e abri a pequena portinha, revelando diversos papeis. Peguei o que tinha dentro, e assim que percebi ser o diário do Sinistro no meio daqueles papéis, eu quase chorei de alegria.
Comecei a folhear e meus olhos automaticamente pararam em algumas páginas, me deixando um pouco atordoada.
Naquele diário tinha tudo, percebi.
Tudo.
Desde o momento que o Sinistro foi preso no Carandiru até o último dia que passou preso antes de fingir sua morte. Informações que poderiam destruí-lo assim que usadas contra ele.
Ali tinha como tudo começou. Como a facção dele começou. Quem era os integrantes principais, suas características, familiares, seus pontos fracos e os crimes que já tinham cometido. Ali continha cada coisa horrível que ele tinha presenciado dentro das cadeiras, coisas que ouvirá que no futuro serviram como moeda de troca por dinheiro, droga e armamento. Ali, tinha como ele fazia tudo por debaixo do nariz de todos, sem que desconfiassem dele. As transações pra fora do Brasil, e quem estava cuidando de cada conta do exterior. Eram números altos. Muito altos.
E principalmente, tinha o plano todo de como conseguiu fingir sua morte e da Jade. E... Ao ler uma simples frase, meu coração parou.
[...]Estava tudo armado do jeitinho que tinha que estar. Magrão sabia o plano todo e a cada momento dizia que eu estava louco por querer levar aquilo para a frente...
Magrão sabia de tudo!
E... Esse tempo todo... Escondeu de mim.
Todos esconderam.
— Sabia que iria te encontrar aqui.
Eu estremeci assim que reconheci aquela voz. Era Carlinhos.
Fechei meus olhos por um momento, xingando. Porém, me virei em sua direção, estampando um sorriso cínico.
Pedro estava de olhos arregalados no canto daquela salinha. Carlinhos apontava uma arma para ele, e outra em minha direção.
Carlinhos: Rafaelly, achou mesmo que eu seria tão burro de sair, deixar você sem vigilância alguma e o diário assim, tão fácil de se achar?
Um riso de escárnio.
Carlinhos: Eu sabia, sabia que você viria. Sabia que estava se fazendo esse tempo todo, como se realmente quisesse nos ajudar. — suspirou, negando com a cabeça. — Eu estou há anos nessa vida, não seja burra.
Engoli em seco, me levantando devagar. Enfiei o diário em baixo de minha camisa, prendendo-o no cós da calça jeans que eu usava.
Pedro xingava baixinho, ainda em pânico por ter uma arma apontada em sua direção.
Não era a primeira vez que apontava uma arma para mim, então fiquei de boa, pensando em alguma maneira de sair daqui.
Carlinhos: Não entendo como você pôde ter crescido tão... burra? Tendo um pai como eu...
No mesmo instante, senti meu coração parando no exato momento que minha respiração acelerou. Como... Como assim?
Minha garganta secou quando me lembrei do que Sinistro tinha dito antes de eu vir para cá.
Você irá conhecer seu papai...
Porém, quando cheguei aqui, estava atordoada demais para lembrar de tal coisa.
Mas, aparentemente... Carlinhos era meu pai.
O cara que não quis me assumir, não quis me ver nesses anos todos ou sequer perguntar se eu precisava de algo. Ele não era meu pai, não...
Carlinhos: O quê? Sinistro não abriu a boca?
Neguei com a cabeça.
Carlinhos: Uma pena. — suspirou. — Mas, tenho que concordar que você não parece nem um pouco com a filha que eu esperava ter. Uma mulher inteligente que seria capaz de detectar uma armadilha, que não se renderia fácil do jeito que se rendeu.
Eu ri com escárnio, inclinando minha cabeça para trás.
Rafaelly: O que faz você pensar isso, papai?
Agora foi a vez dele de rir. O som era frio e cruel.
Carlinhos: Porque, você está exatamente onde eu queria que estivesse.
Eu sorri.
Rafaelly: Você também está onde eu queria que estivesse. No exato momento que eu quis que estivesse.
Ele me olhou confuso, e no exato momento que escutei ele destravar a arma que estava em minha direção, Pedro disparou contra ele. O tiro acertou em barriga, porém... antes dele cair, disparou contra mim. A bala veio rápida, atingindo meu ombro esquerdo.
Xinguei baixinho, de olhos arregalados. Pedro foi até Carlinhos que urrava de dor no chão, e pegou as armas que ele tinha deixado cair assim que disparou em mim.
Pedro jogou uma para mim, que agarrei com a minha mão direita. A dor se alastrou por meu corpo todo em fisgadas irritantes.
Pedro: Tá doendo muito? Consegue correr até os matos?
Balancei minha cabeça concordando.
Passei por Carlinhos, cuspindo em seu rosto.
Rafaelly: Não vou me despedaçar atirando em você. — fiz um biquinho mesmo quando eu queria gritar de dor. — Meu irmão vai fazer melhor contigo.
Então eu saí, resmungando de dor enquanto seguia um Pedro pálido, de olhos arregalados, acho que tentando acreditar que ele havia atirado em alguém.
Rafaelly: Quem te deu essa arma?
Ele demorou para me responder.
Pedro: Neguinho. — dissse, baixinho. — Eu... Nunca tinha atirado. Mas... hoje foi por uma boca causa. Eu acho...
Eu sorri para ele, agradecendo por ele salvar a minha vida alguns segundos antes de Carlinhos acabar com ela, mesmo sabendo que isso iria corroe-lo por um bom tempo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Lance Proibido
RomanceA Razão nos contém dos nossos desejos proibidos... A vontade se cala, mas não se acaba... Hoje a emoção é amiga da Razão. Mas se a vontade falar mais alto e a emoção trair a razão... Amanhã vai sair na primeira edição, um crime de paixão...
