Eleonor
Entro no meu quarto como se fosse o inferno, o chão fosse de pura gosma, como se aquilo fosse me afundar, mas coloco as duas malas em cima da cama. Caminho até o closet e pego tudo. Absolutamente tudo. Meus patins e as fotos mais pessoais que eu tenho com meu pai. Abro as gavetas e pego minhas boinas e coloco tudo dentro da cama, assim que acabo sento no chão e respiro fundo. Ainda posso sentir.
Ainda não queria me desfazer isso. Ainda sinto falta, ainda sonho com ele assistindo minha apresentações, eu deveria ficar feliz quando chego ao pódio, mas só sinto vontade chorar porque eu não tenho ninguém torcendo por mim. Porque ele me deixou sozinha. Ainda me lembro da dor quando me contaram que ele tinha morrido. Parecia que meu peito ia rachar, e rachou. Eu quase morri. Deveria ter morrido.
Engoli o choro a seco e peguei minhas malas, e desci as escadas, silenciosamente, a mansão Fane é silenciosa outra vez. Eu jurava que poderia ouvir vozes quando meu pai morreu. Antes que eu saia, paro e sinto um frio na espinha mas não me deu medo. Foi mais como um ventinho gelado no verão. Me viro para trás e não tem nada, a porta do escritório está aberta, não entro no escritório do meu pai desde que ele morreu. Não consigo, por mais que minha dissesse que eu entrava quando estava dormindo.
Já cresci, eu acho que consigo. Deixo as malas no corredor e me aproximo da porta, coloco a mão na maçaneta e engoli o medo e a vontade de fugir da realidade. Empurro a porta. Sinto o mesmo ventinho na cara então entro e fecho a porta nas minhas costas. Olho ao redor e todos os móveis, todos os livros e todos os retratos estão intocáveis, meus troféus estão atrás da mesa dela e minhas fotos da competição estão ali.
Quero pegar e ir embora mas não consigo me mexer. Não quero pegar. Se eu pegar significa que eu aceitei a morte dele. Significa que eu continuei e isso é mentira porque eu sinto falta dele todos os dias, parece tudo pra mim é cinza. Sempre que entro no gelo eu olho para um ponto específico, e a cadeira sempre está vazia. Sempre dói e sempre arde. Sempre queima. Isso foi tão cruel. Foi tão ruim.
Vejo a janela aberta e vi de onde o vento está entrando. Caminho até ela para fechar mas paro, perto da lareira, tem uma sequência de fotos, casamento dele, mamãe grávida, Rika bebê, mamãe grávida, eu e Rika, nos quatro quando fomos para Espanha. Eu e meu pai em Londres, gostávamos de andar combinando. Depois Paris e Bélgica, então Espanha com ele. E Rússia, cada país. Gostei do Brasil. Achei muito calor mas gostava das pessoas. Da comida e de como todo mundo falava com todos.
Peguei as fotos que estou apenas com meu pai e as que ele está. Mesmo que ela tenha me machucado, mesmo que Rika tenha me maltratado eu ainda não quero que se apague isso. Éramos uma família feliz. Era perfeita e deveria ser como sempre foi.
Engoli a dor e chorei um pouco enquanto pegava cada caco da minha alma junto com as fotos e as medalhas, os prêmios e os documentos importantes. Quando sentei na cadeira senti o vento na nuca, e chorei. Porque acho que tenho muito mais do que saudade, acho que sou tão traumatizada por isso que qualquer vento acho que é o espírito dele. Mas não é. Isso não existe.
Olho para mesa e tem uma foto, só consigo ver essa foto, foi um evento icônico na minha vida, estávamos na Inglaterra, e eu estava no colo do meu, estávamos indo comprar meus primeiros patins. Tinha que ser vermelho. Tinha que ser perfeito.
Peguei o quadro e coloquei no peito e chorei, chorei ao ponto de doer, ao ponto de arder. Eu não pedi muito na vida, eu não ligava para fama e nem queria uma coroa, eu só patinava porque meu pai gostava de me ver sorrindo. E eu só sorria porque ele estava lá. Era minha coisa era eu e ele. E me tiraram isso.
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Corrupt: It was never me
Fanfic⚠️ Aviso ⚠️ * É um dark romance * Contém linguagem imprópria. * Gatilhos como, drogas, agressão, estupro, etc. * É para maior de dezoito anos. (o Preto) * É apológico a religião. * A cidade é fictícia, tudo é fictício. * Devil's night.(Mas não tem n...
