Bluma

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Eles rasgavam as nuvens como arautos, enviando um aviso aos humanos, que, por um instante, esqueciam suas preocupações para admirar o espetáculo sombrio. O verão chegaria ao fim e já não era mais seguro permanecer no reino. 

— Petrus! Petrus!

O soldado Joshua Conan — conhecido apenas como Soldado 16 — largou seu posto ao avistar o corpo caído entre os escombros do campo de batalha. Lá estava Petrus Kennan, ferido mortalmente, cercado por dezenas de corpos que apodreciam sob o sol. Mas, para Joshua, ele não era apenas mais um soldado. Era seu irmão de alma, seu melhor amigo desde os oito anos.

— Alguém já te disse que fica horrível de bigode?

O sargente Petrus sabia que era seu fim e não brigou contra ele. Joshua, desesperado, ajoelhou-se ao lado do amigo, tentando ignorar o sangue que escorria do abdômen dele.

— Vem, vamos te levar para a enfermaria. 

Tentou erguê-lo, mas foi impedido por um Petrus ofegante, que segurou seu braço com força. 

— Josh, Josh, Josh! — Gritou, impedindo a força do irmão, que tentava levantá-lo. — Protege a Bluma. Não deixe ela se perder.

— Não! Você não pode ir. 

Esqueceu-se da guerra e que estava em um campo de morte. 

— Ei. — Pegou as mãos ensanguentadas dele e colocou em seu peito. — Pelos montes de Tylia…

Joshua fechou os olhos, segurando as lágrimas.

— Até às águas claras do Gehon.

Repetiu o juramento que fez meses atrás.

— Darei a minha vida por amor de ti, Zoe. 

Petrus morreu como viveu: lutando pela paz. Mas não era o sangue dele que as espadas realmente buscavam.

15 anos depois

— Cuidado!

O vento cortava a floresta como um aviso. Forte o suficiente para derrubar árvores, trazia a promessa de chuvas e, talvez, a esperança de fuga.

— Uma guerreira não foge. 

O velho homem cortou os cipós e passou por cima dos troncos velhos. Parecia não se importar com as dificuldades ou com o peso da idade. Na verdade, nada importava, só precisava ensiná-la. 

— É um monstro! — A garota de cabelos avermelhados correu com todas as forças, desviando de troncos e cipós. — Zohar! Zohar.

Não ganharia dele correndo, sabia que ele era mais rápido, por isso apoiou-se no cavalo que atendeu ao seu chamado. O esbelto animal surgiu permitindo que ela montasse em um único movimento fluido.

— Não vai fugir de mim. Rina! 

Como se a própria natureza respondesse, uma figura gigantesca rasgou os céus. Um único grito e o animal que mais parecia uma figura mitológica surgiu. As asas escuras não estavam gastas e, quando bateram, elas abriram espaço pela floresta. A menina cerrou os olhos quando a imensa criatura a observou atentamente. De fato, uma visão aguçada. Tão assustador quanto seus impressionantes 3 m de comprimento, eram suas garras. Conseguiu prender a garota como se ela fosse só uma presa indefesa. 

— Me solta, Rina. 

Presa entre as garras da criatura, ela cruzou os braços, emburrada, enquanto era levada pelos ares como uma presa indefesa.

— Continua fugindo. 

O velho, arfando e já muito exausto, se aproximou, não contendo a risada. 

— De uma águia gigante e do ex general do exército!

Jogou a espada longe e mostrou toda sua indignação. 

— Não importa, não somos dos que retrocedem, Bluma Kennan.

— Você vive como se estivesse me preparando para uma guerra. Somos só os ferreiros do reino, tio Josh. 

— É, somos só isso. — Olhou para o céu e relembrou da promessa. — Vem, vamos preparar a lareira, o inverno se aproxima. 

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