— Todos querem ser felizes, na verdade, todos anseiam por felicidade. Mas isso não é algo que acontece sempre no dia a dia de muitas pessoas: trabalho, amigos, amor, tantas coisas podem dificultar esse caminho — a psicóloga falava com tranquilidade, enquanto Matt apertava minha mão, como se buscasse apoio.
— Mas eu não consigo... não é como se eu não tentasse — Matt reforçou, sua voz carregada de frustração.
O consultório da psicóloga era maior que minha casa, decorado com quadros de paisagens e uma estante repleta de livros perfeitamente organizados. Tudo ali parecia imaculado, quase obsessivamente limpo, como se qualquer desordem fosse inadmissível. O brilho do chão e os insetos mortos ao redor da lâmpada reforçavam essa impressão.
A psicóloga ainda escrevia algo em seu caderno, que estava sobre a mesa de vidro, revelando suas pernas por trás do tecido. Matt, contudo, parecia alheio a isso.
— Presumo que o senhor não me contou tudo hoje, senhor McVay, mas tivemos um grande avanço — ela disse, esboçando um sorriso de satisfação.
— Até semana que vem — Matt se despediu, levantando-se para que eu pudesse fazer o mesmo.
— Até semana que vem, senhorita Miranda. Tenha uma boa semana! — desejei, enquanto saíamos. Notei um sorriso sarcástico nos lábios de Matt.
— Por que está rindo? — perguntei, confusa.
— Porque você é muito boazinha, nem percebeu como ela te menosprezou. De qualquer forma, não vou voltar aqui.
Tive que admitir, ela realmente havia me ignorado. Eu fiz duas perguntas e ela nem sequer levantou o olhar para mim.
— E agora, para onde vamos? — perguntei, tentando mudar de assunto.
— Vamos fazer umas comprinhas — ele respondeu com um sorriso.
***
— À vista ou no cartão? — perguntou a atendente, com a voz rouca, enquanto Matt tirava um cartão dourado da carteira.
— Cartão — disse ele, entregando o cartão para mim. Fiquei surpresa, sem saber exatamente o que fazer.
Enquanto eu carregava algumas sacolas para o carro, Matt ficava conversando com a atendente, que parecia se ajeitar na cadeira, ficando mais à vontade. Não que fosse ciúme, mas...
— Amor, podemos ir agora? — perguntei, sentindo o olhar dela cravar em mim como se quisesse me fuzilar. Mal sabia ela que eu não recuo fácil.
— Vamos sim, benzinho — Matt respondeu, pegando as sacolas restantes, e eu o abracei até estarmos fora da loja, sentindo o olhar da atendente ainda em nós.
— Benzinho? — perguntei rindo. — Quem em pleno século XXI chama alguém de benzinho?
— O que você esperava? Você me pegou tanto de surpresa quanto a atendente — ele riu.
— Você até emagreceu de tanto que ela te comeu com os olhos.
— E você parece estar engordando. Será que é o ciúme te preenchendo?
— Ciúme? Eu? De você? — quase me engasguei, mas consegui disfarçar.
Quando chegamos em casa, mamãe estava preparando pastéis de carne. Enquanto eu tomava banho, Matt mostrava para elas o que havia comprado. Era difícil entender de onde vinha tanta generosidade de um cara que até poucos dias atrás era um estranho para nós. Roupa, brinquedo, tratamento, cachorrinho, passeios... Não que fosse ruim, mas era demais para nós. Ele dizia que tinha muito dinheiro e que não faria falta, mas eu desconfiava que não era só isso. Talvez ele soubesse como era perder alguém, ou como era não ter condições para uma vida digna.
Eu estava feliz, mas sabia que precisava colocar um limite.
— Matthew, precisamos conversar... — chamei, levando-o para fora da casa.
— O que eu fiz agora? — perguntou, enquanto caminhávamos. — Não vai me dizer que é mais uma crise de ciúme?
Segurei a risada para manter a seriedade.
— Por que você está fazendo tudo isso por nós?
— Como assim? Não entendi.
— Todo esse dinheiro que você está gastando... Eu não posso te pagar de volta, então acho melhor você parar.
O olhar brincalhão de Matt desapareceu, e ele pareceu ficar sério de repente.
— Achei que você ficaria feliz...
— Eu estou feliz, todas nós estamos, mas não quero que continue com isso — expliquei, percebendo que ele estava ficando triste, talvez pensando que eu o estava rejeitando, o que não era verdade.
— Tudo bem, eu vou parar — ele disse com um sorriso sem graça.
Ele realmente ficou triste? Não queria vê-lo assim. Diminui a distância entre nós e o abracei, sentindo o conforto retornar. Abraçá-lo era como sentir-se em casa, algo inexplicável.
— Não me deixa sozinho, pequena — ele sussurrou contra a minha cabeça, enquanto eu me esticava para beijar seus lábios mais uma vez.
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Querida Babá
RomanceEmmanuela enfrenta um turbilhão de emoções quando a vida que construiu com Matthew começa a desmoronar. Após uma série de eventos que põem à prova seu relacionamento e sua confiança, Emma descobre que Matthew não é o homem que ela acreditava conhece...
