📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Quando ele então se sentou, me dando o chá, tomei-o demoradamente olhando para o nada. Seria a primeira vez em que daria um fora em alguém. Todas as vezes o coração partido era o meu. E, droga, como havia doído. Talvez não fosse doloroso para ele, afinal, nunca havíamos firmado um compromisso, mas me sentia na obrigação. Por loucura... Ou idiotice mesmo. Mas precisava acabar. Ficar com um aqui, e outro lá, não era minha praia. Definitivamente não.
— Sabe, Artur, – comecei dizendo, como quem não quer nada — Eu acho que deveríamos terminar o que estamos tendo. É só um rolo, a gente fica de vez em quando. Não me entenda mal, mas conheci outra pessoa. – Em seus olhos se acenderam centelhas. — Ele não é melhor que você, não é isso, sei lá, você não é de todo mal, sabe? Mas eu encontrei ele, e aí... – Ah, que infeliz eram as minhas palavras. Eu gaguejava e mal sabia como desenvolvê-las.
— Entendi, Flora. O.K. Tudo bem. – Ele levantou rapidamente, deixando as bolachas na mesa de centro. — Já que depois de tanto tempo assim, você mal me apresentou pro seu irmão, espero que você seja feliz com esse cara. Seja ele quem for. – Se virou e saiu, batendo a porta. Nos olhos dele, havia chamas em fogo.
🌊
Fiquei alguns minutos absorta nas palavras que acabara de ouvir. O Artur andava esquisito. Definitivamente. Começando dias atrás até o momento que havia se passado. Será que ele queria algo a mais comigo? Se sim, por que nunca havia deixado transparecer? Ou será que fui eu que nunca havia captado os sinais? De qualquer forma, peguei o celular e deletei o número dele da minha agenda. Se alguma hora eu ficasse bêbada, não cairia na tentação pedindo desculpas.
Rolei os contatos e vi que a Kristie estava online. Certamente já havia saído do trabalho, então enviei um emoji a ela que definia minha situação no momento: um coração partido. Ela não demorou muito para responder:
Quem foi o infeliz que partiu o seu coração? – Ela sempre me defendia mais do que ninguém, indo contra todos os homens que ousavam brincar comigo.
Ninguém, amiga. Eu é que parti o coração do Artur, terminando com ele. – Respondi, acrescentando um emoji pensativo, desconfiada se era a decisão certa. Ai, essa modernidade sabia me ler em todos os sentidos!
Assim que visualizou a mensagem, ela me ligou e comecei a falar a respeito do Thomas. Era bom saber que tinha alguém para me animar, apesar de tudo. Garanti a ela que não estava triste, mas me sentindo um pouco má, por ter ferido alguém tão bacana. Ela me garantiu várias vezes de que logo o Artur esqueceria e partiria para outra.
A Kristie sempre fora o tipo divertido de pessoa. Poucas coisas deixavam-na para baixo, e ela sempre tinha uma frase engraçada na manga. Era assim desde que havíamos nos conhecido, mais de dez anos atrás. Nos primeiros dias do ensino médio, eu sentava e absorvia, cautelosa, as informações da aula, enquanto ela parecia já conhecer bem a cada aluno. Ela sempre tinha sido inteligente e dedicada, e não era à toa que havia se dado bem na vida. Merecidamente. Sem dúvidas havia algo de especial em sua personalidade.
Nunca havíamos tido uma briga séria. Acho que nem brigas bobas. Nos dávamos bem em todos os momentos. Compartilhávamos comida, emprestávamos roupas uma da outra, sentávamos lado a lado na sala de aula e, sempre que uma tinha uma notícia boa, ligava para a outra. Fora ela quem segurou meu cabelo no primeiro vômito de ressaca, ela quem fez uma tatuagem comigo – um coração pequeno atrás da orelha - e sempre apresentávamos homens uma a outra. Entre tantas outras coisas a qual sou grata.
Mas, despedi-me dela quase uma hora mais tarde e fui checar meus e-mails. Havia um estranho na caixa de entrada, enviado há apenas dez minutos. Com o endereço virtual em letras embaralhadas e números que não faziam sentido, o assunto era "Você já começou?". Pensei em deletar antes mesmo de ler, pois comumente recebia spams, mesmo sendo em minha conta pessoal. Na profissional então, recebia inúmeras coisas absurdas. Mas abri com medo de que meu notebook já travasse com algum vírus, e no corpo do texto estava escrito:
"Nenhum ferro pode penetrar no coração humano de maneira tão gélida como um ponto colocado no momento exato." (Isaac Bábel)
Lembre-se que Berlim logo será esquecido, mas uma nova obra fará você voltar ao topo.
P.S.: Abra a porta.
Depois de ler, apaguei rapidamente o e-mail. A última frase me assustara. Será que havia alguém na porta? E se fosse algum louco? Ou uma pegadinha cruel? Fiquei sentada olhando para a tela sem saber o que fazer, e em silêncio, caso houvesse algum ruído. Depois de alguns minutos sem sair do lugar, tomei a decisão de ir para a cama e ficar por lá mesmo. Tranquei bem a porta e tentei dormir. Quem quer que estivesse lá, não esperaria até amanhã.
Mas quem estava brincando comigo? E como essa pessoa tinha meu e-mail, além do endereço da minha casa de praia?
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