📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Raiva, descontentamento e decepção foram o que senti por mim ontem, após dispensar o provável sexo com Thomas. Estava me sentindo fula da vida por ter inventado uma desculpa barata e ter o mandado para casa, longe dos nossos corpos quentes. Essa situação ridícula estava saindo do controle. Como podia pensar no Alek quando nem mesmo havíamos conversado direito? Eu estava beirando a loucura.
Não fazia o menor sentido. Portanto, sabia que precisava encontrá-lo. Ora, claro! Precisava deixar tudo em pratos limpos e mandá-lo sumir dos meus pensamentos. Sei lá como faria isso, e, mesmo o coitado não sabendo dos meus devaneios, ele precisava ir para longe deles.
Certo. Eu estava definitivamente doida. Era isso ou estava apaixonada por quem eu mal conhecia.
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Depois de me livrar dos últimos resquícios do sono, sentei-me disposta a finalizar a primeira versão do meu livro de crônicas. Havia encontrado a epígrafe e, portanto, só me restava escrever os agradecimentos. Mas eu não precisava deles ainda. Ou talvez eu nem os escrevesse. Gostava de finalizar essa forma de gratidão após algumas leituras betas e críticas, assim, poderia fazê-lo abrangendo todos que me ajudaram no processo.
Ah, e a criação da capa! Eu precisava pensar em alguma coisa diferente do que estava acostumada, já que meu primeiro livro foi um romance romântico. E agora tinha em minhas mãos um conjunto de textos que precisava agrupar homens e mulheres das mais diversas idades. Logo, o que fazer? Pensei em algo relacionado a flores. Der, Flora! Óbvio demais. Individual demais. Um casal estava fora de cogitação. Corações muito menos. No fim, depois de caçar na internet alguma ideia, fiz um rascunho à mão do que pretendia passar com o design. Acabei desenhando uma capa clara, com alguns post-its colados, como se fossem bilhetes de sentimentos. E prontinho, tinha a prévia noção do que queira, mesmo que ainda faltasse uma pequena jornada para esta etapa.
Encaminhei então o arquivo de texto para o e-mail da Kristie, já que Adam estava em suas pequenas férias. Ela não demoraria mais que cinco dias para me enviar uma análise, e eu relaxaria até lá. Enviei uma sms avisando sobre o e-mail, complementando que estava com saudades. Não nos víamos há quase um mês, sendo que fazia quase quinze dias que eu estava aqui, aos trancos e barrancos tentando me livrar de um bloqueio criativo.
Depois de tudo enviado, decidi deixar de lado meus aparelhos eletrônicos. Eu estava precisando era de um ar fresco para renovar as minhas energias. Precisava me manter só com meus pensamentos, me livrando de toda e qualquer maldade. Nunca fui do tipo que se mete em encrenca, apesar de falar o que me vem à boca.
Me espreguicei e liguei uma música alta. Estava começando a esquentar, e eu deixaria as ondas quentes se apossarem da casa. Abri todas as janelas, passei um pano rápido em todos os cômodos e acendi um incenso no meu quarto, banheiro e sala. Adorava o cheiro de canela por todo o ambiente. Meu estômago começava a roncar quando ouvi um barulho de palmas.
Curiosa, me dirigi ao portão quando encontrei o mesmo senhor do buquê de rosas. Desta vez ele tinha uma enorme cesta de café da manhã com as mais variadas delícias em seus braços. Ele sorria desconfortável, certo de que eu o atormentaria querendo saber de onde vinham todas essas peculiaridades. Mas ele estava enganado. Não o incomodaria no meu momento zen. Apesar de tudo, estava gostando. Todos os presentes me deram a oportunidade de escrever algo novo e aperfeiçoar alguma parte do processo de produção.
Peguei a cesta com o maior sorriso do mundo, apesar de a curiosidade me corroer. Ele não disse nada e saio devagarzinho. Entrei na cozinha e abri-a. Repleta de doces, salgados e bebidas de caixinha, o presente fez meu estômago roncar. Peguei uma bandeja e selecionei o que parecia mais apetitoso e fui em direção à rede. Sentei-me satisfeita, começando meu café da manhã quase no horário de almoço. Quem quer que estivesse me enviando essas coisas, sabia que quando não estava trabalhando, eu não era do tipo que acordava cedo.
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Com uma tremenda saudade de casa, decidi ligar para os meus pais no meio da tarde. Nunca fui do tipo de filha mais compreensiva e amorosa. Nem eu, nem o Lian. Mas nossos pais estavam certos do amor que sentíamos, embora só demonstrássemos em datas especiais. Por esse motivo, decidi ligar e, quase como uma bebê chorona, quase me arrependi no momento em que ouvi o alô:
— Oi, mãe! Tudo bem? - Fui logo dizendo.
— Tudo sim, Florinha. E você? Que voz é essa? Está triste?
— Não, só morrendo de saudade. Queria largar tudo aqui... Ir para casa. Não acho que foi uma das melhores ideias ter vindo. – Eu disse tomada por um arrependimento em decorrência dos últimos acontecimentos.
— Não fala assim, meu amor. Todos sabemos que foi a melhor escolha que você fez. Você é determinada e inteligente. Não tenho dúvidas de que vai se sair muito bem e com um próximo best-seller.
— Obrigada, mãe. Mas tenho pouca certeza. Comecei a produzir um livro de crônicas, mas o Adam já me desanimou, dizendo que esse tipo de obra faz pouco sucesso...
— É porque ele só trabalha com isso, meu anjo. Ele já viu de tudo. Mas nada te impede de alavancar de novo esse gênero. Você pode contar com seus fãs, hein? – Ouvi sua voz sabendo que ela sorria.
— Está bem. Obrigada. Vamos parar com a minha choradeira. – Dei uma risada. — Como o pai está? E o Li?
— Estão todos bem. Por acaso o Lian está aqui. – Ouvi meu irmão gritar ao fundo. — Te mandou um abraço. - Ela deu um suspiro. —Não desanime, Flora. O que quer que esteja acontecendo, só vai te fortalecer. As suas férias estão só começando.
Me despedi em seguida, com a certeza de que muitas coisas ainda estavam por vir.
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