Capítulo 07

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Criei minha primeira historinha aos oito anos. Falava sobre uma garota que queria um emprego para poder comprar sorvete. Criativa demais, eu sei. Foram poucas linhas que explicavam de forma direta e reta que, infelizmente, ela não conseguira o tal trabalho. Um pouco triste, eu sei. Não faço ideia por que não fiz um final feliz, mas acho que naquela época já tinha ideia de que nem tudo eram flores.

Com nove anos escrevi algo maior do que no ano anterior. Falei sobre a felicidade de se ter um animal de estimação e as aventuras vividas com ele. Nas últimas linhas a dona e o cachorro viveram "felizes para sempre" brincando todos os dias. Nessa idade eu já começava a ler mais, portanto, os textos refletiam os meus sonhos: um final bacana, não importava para quem fosse.

Aos dez anos de idade ganhei o primeiro concurso de escrita. Havia criado uma poesia falando sobre as flores e do quanto embelezavam o mundo. Eu não era lá das mais criativas, mas foi o suficiente para eu ser a número um da turma. Nesse mesmo ano ganhei mais dois concursos e, claro, comecei a me gabar. Eu era invencível, e logo me tornaria uma escritora de sucesso. Sem dúvidas.

Com onze anos não produzi nada. Nem uma linha. Caí de bicicleta e simplesmente parei de escrever. Nem um continho sequer. Não sei por qual motivo relacionei um fato ao outro na época, mas tinha certeza de que minha "carreira" acabara ali. Com um ponto final sem dó e, obviamente, um final infeliz.

Aos doze me apaixonei. Escrevia a cada minuto vago, em qualquer canto. Desde carteira na escola a diário. E é claro que terminei com o coração partido. Quem nunca teve o coração partido aos doze? Mas eu achava que meu sofrimento era maior do que dos outros, e por isso usava a escrita como escape aos quatro cantos. Nunca mais ouvi falar no garoto, e nunca mais parei de escrever.

Havia uma trilha lógica e memorável sobre a escrita em minha vida. Existia em todos os anos um fato importante e relacionado a criar. Em determinado ano, aos quatorze, comprei meu primeiro livro. Continuava visitando bibliotecas, mas chegara a vez de ter a minha. E um ano mais tarde, era a vez de começar a criar minha primeira obra. Nessa época me afastar de todos foi um fator determinante. Eu tentava estar sempre concentrada na história, e não nos garotos, ou o que quer que fosse. E falhei com maestria. Nunca mais voltei a mexer naquele livro.

Deixo-o lá, como uma obra prima inacabada (exceto pela parte da obra prima). O Adam chegou a implorar incontáveis vezes para que eu o finalizasse e ele conseguisse publicar. Sei que ele não queria só ganhar dinheiro nas minhas costas, como muitos editores por aí, mas ele sempre deixava claro que era sua história não finalizada favorita.

Quando entrei na casa dos vinte, eu bebia feito louca. Praticamente todas as noites e todos os finais de semana. Foi nessa época que escrevi Reviravoltas em Berlim, publicado anos mais tarde. Nunca me envergonhei em admitir de onde veio a inspiração, mas não busquei o mesmo "refúgio" para escrever outros livros.

Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorria, eu lia muito. Cada ano mais do que o anterior. Meu recorde havia sido sessenta livros em um ano, quando já cursava Letras. Anos antes havia caído na real de que talvez eu nunca fosse publicada, então, logo que saí do ensino médio, prestei vestibular. Nada fazia mais sentido para mim do que cursar língua portuguesa, logo eu, que amava esse universo. Depois disso, veio a Pós e o Mestrado. Anos mais tarde entrei com muita felicidade para lecionar na Universidade Federal da minha cidade, e, logo, os textos por diversão foram diminuindo, e as leituras por lazer também.

Diminuindo, mas nunca acabadas. Toda criação merecia um pedaço do meu peito, e eu jamais abriria mão disso. Por isso, na manhã sucessora a gripe, quando abri a porta com o maior cuidado e me deparei com uma caixa repleta de livros, meu coração se aliviou. Não só o medo se dissipara, mas eu tinha certeza de que agora, ao invés da casa, eu tinha um lar.

Era uma surpresa agradável. Imaginei, pelo tom do e-mail, que seria algo estranho, como acontece nos filmes. Mas eram livros, e, me ajeitando confortavelmente no chão, comecei a ler os títulos. Vinte ao total, e coincidentemente, quase todos são obras que eu desejava. A pessoa devia me conhecer muito bem para saber isso. Mas quem seria? Será que chegara a vez do Lian aprontar comigo, depois de tudo? Ou algum ex-namorado? Se bem que eu não mantenho contato com nenhum deles. Isso estava ficando cada vez mais esquisito, e eu torcia para que não piorasse a ponto de eu sair correndo daqui.

Estava empolgada lendo as primeiras páginas de Porta Giratória, quando uma luz se acendeu em minha cabeça. Então era isso! Com toda certeza do mundo, era isso! Como não pensei antes? Eu iria reunir algumas crônicas concluídas e publicaria meu novo livro!

 Então era isso! Com toda certeza do mundo, era isso! Como não pensei antes? Eu iria reunir algumas crônicas concluídas e publicaria meu novo livro!

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E aí, o que acharam da ideia da Flora? =)

Gostaram de conhecer um pouquinho mais a relação dela com a escrita?

Na Sua Onda [COMPLETO] (Irmãos Soaint 1)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora