📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Alek e eu entramos silenciosos e de mãos dadas na casa. Ele havia me dito que seria um jantar simples, somente com sua mãe e Anna. Depois de passado o nervosismo, caminhamos tranquilos até a edícula dos fundos. Uma mesa posta com petiscos nos aguardava juntamente com jarras de sucos variados.
— Minha mãe meio que exagera – Alê falou com um sorriso — Ela até contratou uma cozinheira para isso.
— Meu Deus, Alê – Fiquei vermelha no mesmo instante — Se eu soubesse que ela tinha se preocupado tanto, eu teria trazido uma lembrança para ela.
— Só a sua presença está de bom tamanho – Ele respondeu me dando um selinho.
— Aí estão os dois pombinhos! – Anna saiu da casa pela porta dos fundos e veio até nós. Ela estava estupenda, como sempre. Vestia um vestido tubinho rosé e um colar que brilhava de longe. Beijou o irmão no rosto e me deu um abraço. — Como você está linda, Flora!
— Obrigada – Respondi animada — Você está maravilhosa.
— Imagina! – Ela disse rindo. — Minha mãe já vem. Ela está acertando os últimos detalhes com a Laura – Imaginei que fosse a tal cozinheira que Alek mencionou. — Está com sede? – Anna perguntou.
— Muito! – Respondi e desvencilhei minha mão da de Alek. Logo Anna e eu nos entretemos em uma conversa animada enquanto bebíamos e beliscávamos o lanche. Alek sorria o tempo todo vendo nossa interação, mas ficou pouco ali. Acabou indo para dentro verificar as coisas com a mãe, e eu me senti um pouco mal por não ter ido atrás.
Digo, se meu intuito ali era conhecê-la, por que ela estava demorando? E, se estava lá dentro, esperava que eu fosse até ela? Cheguei a perguntar de forma amena para Anna, mas ela disse para não me preocupar que a dona Suzan viria até nós. Sosseguei de certa forma, mas sempre dava uma olhada discreta para a porta.
Depois de termos bebido quase uma jarra toda de suco, a tão esperada "quase sogra" chegou.
— Me perdoem a demora. Acabei levando mais do que o esperado para escolher uma roupa e dar uma conferida no prato. – Ela falou vindo até Anna e abraçando-a. — Você deve ser a Flora, prazer. – Disse me conferindo e me dando um abraço caloroso.
— O prazer é meu, Suzan. Sua casa é linda. – Sorri educadamente e nos olhamos. Ela era uma mulher elegante. Vestia um macacão fino branco que ia até os pés e tinha um leve decote. Com uma sandália alta e cabelos amêndoa que desciam até os ombros, eu não tinha dúvidas de que cada detalhe havia sido minuciosamente pensado. Era delicada também, no entanto.
— Nós já nos conhecemos, certo? Aquele dia no jantar para a Anna... – Suzan perguntou e um frio correu por minha espinha.
— Sim, mãe, fui eu quem apresentou o Alek para ela. – Anna interrompeu me salvando de uma. Alek havia dito que Anna estava a par de todo o acontecimento com Thomas, e que também tentaria manter aquilo de forma mais cautelosa possível.
— Que bom. O Alek fala muito bem de você. Nunca o vi elogiar tanto uma mulher – Ela disse piscando para mim em companheirismo.
Sorri sem graça encarando os olhos escuros de Suzan. Sua presença causava certa timidez em mim, mas ela deve ter notado, e rapidamente estávamos rindo e dividindo histórias.
Alek apareceu novamente quase uma hora mais tarde para anunciar que o jantar estava pronto. Anna havia admito que ele saiu para que ficássemos mais à vontade para nos conhecermos. Confesso que em alguns instantes senti falta dele, mas a cumplicidade feminina que nos cercava estava boa demais para ser desperdiçada.
Assim que entramos na sala de jantar, dei um suspiro imperceptível. Estar naquele lugar trazia algumas lembranças de volta, e sorri assim que Alek repousou sua mão na curva das minhas costas.
Era tudo elegante demais para a situação. A mesa estava posta com sofisticação e o aparador no lado direito possuía orquídeas roxas. O cheiro suave do prato subiu até os meus sentidos, e logo descobri que se tratava de um risoto de camarão e lula.
Sentei-me depois que Alê puxou a cadeira, e ganhei alguns olhares surpresos. Sorri já me sentindo acomodada àquela família enquanto Anna servia um pouco de vinho na minha taça.
— Flora, me conte o que você faz da vida – Suzan pediu servindo um pouco de risoto em seu prato.
— Eu sou professora de português em uma Universidade Federal, e escritora quando sobra algum tempinho – Falei e ela soltou um riso leve.
— Deve ser muito dedicada para ter conquistado tudo isso sendo tão nova – Respondeu me olhando afetuosamente. O brilho em seu olhar trazia algo enigmático, e eu dizia cada palavra com cuidado para causar uma boa impressão.
— Gentileza sua – Respondi tomando um gole da bebida roxa em minha frente. Alek apertou levemente minha coxa e fiquei me perguntando o que aquilo significava.
— Imagina – Suzan disse — Fico feliz que Alek tenha escolhido a mulher certa desta vez. – Ela falou causando uma eletricidade por todo meu corpo. Havia temido por aquilo a noite toda.
— Eu também – Alek respondeu me olhando com carinho, não se deixando afetar pelo comentário inusitado.
Todos sorriram e começaram a jantar. O incômodo veio e saiu como uma leve brisa, e acabou sendo esquecido depois de duas ou três taças de vinho.
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