📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Comecei a me espreguiçar demoradamente, já que nada me dava mais prazer do que isso. Tateei a cama até encontrar meu celular e acendi a tela, queimando meus olhos com o tanto de brilho que tinha. Eram nove e doze, então decidi pular para tomar um banho ligeiro. Enquanto acendia a luz do abajur com uma mão, com a outra eu desligava o ar condicionado com o controle. Já que eu não ficaria mais ali, seria melhor economizar e usar somente o da sala. Levantei-me devagar ao mesmo tempo em que sentia uma pontada na cabeça e um puxão no músculo das costas. Ah não, exclamei quando senti velhas dores conhecidas, era só o que me faltava. E quando o último a do pensamento se foi, um espirro veio, me fazendo me amaldiçoar pelo dia de ontem.
Cruzei o quarto até a cortina já fazendo um coque em minhas ondas castanhas, e quando puxei a cordinha, bati o pé na poltrona ao lado. Soltei esbravejada um palavrão, já odiando o dia e querendo voltar a dormir. Me analisei rapidamente no espelho, notando os olhos negros levemente inchados e a pele pálida. Vai ser um longo dia, pensei enquanto a água escorria pelo meu corpo minutos depois no banho.
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Mais tarde, já deitada no sofá com uma manta e o ar condicionado gelado em dezesseis graus, liguei a internet do celular e abri o PDF de Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu. Nada melhor do que sua genialidade para me acalmar durante esse dia que estava parecendo mais uma tempestade no deserto. Enquanto passava as horas lendo, escutei a campainha notar e logo um lampejo apareceu para mim. Só falta ser algum entregador esquisito com alguma surpresinha inesperada, murmurei já me levantando do sofá. O mau humor havia me pego e não iria embora tão cedo.
Abri a porta carrancuda, me tocando finalmente que ainda estava de pijama, quando dei de cara com o Artur e fiquei, literalmente, de boca aberta.
— Hãn, oi, Artur... – Falei praticamente gaguejando. — Entra. – Falei já abrindo a porta e tentando me esconder com as mãos. Ele soltou um risinho debochado:
— Não precisa se esconder só porque ta de pijama, Flora. Já te vi muitas vezes sem.
Bati a porta forte quando ele entrou, deixando claro que não estava para brincadeiras. Ele se acomodou no sofá, sentindo-se parte do lugar.
— O que você tem? Gripe? – Perguntou — Está bem gelado aqui dentro, e me parece que você está precisando de um chá quente, com esse nariz vermelho aí. – Tinha me esquecido por um minuto que ainda estava no mesmo lugar, enquanto ele me analisava. Devia ser a dor de cabeça. Ele se levantou e veio até mim.
— Vem cá, vem. – Me abraçou de lado e foi comigo até o sofá, e enquanto eu sentava, ele me cobria e cobria as próprias pernas. — Na verdade eu vim até aqui pra falar sobre outra coisa. – Deu um riso nervoso. Ah, então você quer falar da sua crise de ciúme, pensei afirmativa. — Sei que fui um babaca saindo praticamente correndo da sua casa aquele dia, do buquê. – Ele me olhava sem desviar, como se eu ainda precisasse lembrar do acontecido.
— Sem problemas, Tur. – O apelido carinhoso que eu dera, e que ele odiava, acabou saindo. — Eu não gostei mesmo. Foi ridículo e eu até fiquei sem entender. – Falei enquanto dobrava as pernas e me ajeitava melhor no sofá, me virando pra ele.
— Eu sei, eu sei. Eu sei que nós não temos nada, e olha que já faz um bom tempo que nos conhecemos. Mas quis vir pessoalmente falar com você. Não gosto de ficar tentando consertar algo por mensagem. Então, você me desculpa? – Quase soltei uma risada nesse momento. Como sou inconveniente. Mas é que a carinha dele de cachorrinho arrependido me fizera perdoar rápido.
— Claro que desculpo. Vem aqui. – Puxei ele pelo braço e o abracei, depositando um beijo na bochecha dele um pouco demorado demais, quando ele suspirou e disse:
— Ai, Flora, até com um simples ato de carinho você me deixa doido. – Eu ri alto, e ele começou a rir também, quando acabei me engasgando com saliva e tossi várias vezes.
— Ah, merda, pelo jeito isso não vai me abandonar tão cedo. – Falei enquanto pegava o lencinho na mesinha ao lado.
— Sem problemas, minha linda. Deixa que eu cuido de você. – Ele falou todo sorridente.
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Enquanto Artur preparava um chá de camomila na cozinha, me peguei lembrando do dia em que havíamos no conhecido. Tinha sido um ano atrás, quando, logo depois que meu namorado, até então, rompeu comigo e decidi vir passar o feriado no litoral. Eu é que não iria ficar me afogando em lágrimas. Enquanto pegava um sol com a Kris, ele se sentou como quem não queria nada perto de nós, e minutos depois puxou assunto. Acabamos ficando naquele dia mesmo. Somando minha carência e tristeza, com os lindos lábios dele e olhos que pareciam sorrir mais que a boca, não deu outra. Mantínhamos desde então um contato sem compromisso. Apesar de as garotas darem em cima dele no shopping, enquanto trabalhava como segurança, ele nunca assumiu compromisso com ninguém. Nem eu. Nos divertíamos juntos. Ele era engraçado, trabalhador, honesto, educado e com boa pegada. Não havia nada que atrapalhasse. Exceto o meu interesse, que diminuía a cada dia mais.
Era a mesma premissa: ou era amor ou não era. Comigo acontecia sempre rápido, ou não acontecia de jeito nenhum. Tínhamos química, mas não passara nunca de algo sem compromisso. E apesar de ser divertido, leve, não me preenchia. Sabia que precisava afastá-lo, até mesmo pelo fato de ter conhecido o Thom, e ter sentido um leve formigamento no estômago. Então quando ele voltava com a xícara fumegante e um pacote de bolachas, sabia que era agora ou nunca.
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