📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Permaneci atônita por alguns segundos tentando digerir o acontecido. Meu irmão havia dado um soco no rosto do Artur por pensar que ele era o admirador malvado... Mas a caixa ao seu lado era amarela, não dourada. Ou talvez ele fosse mesmo, mas havia decidido variar na tonalidade?
Até que fazia sentido ele ser a pessoa que estava aprontando comigo, porque seus olhos faiscaram na última vez que nos vimos, e ele ficou surpreso quando recebi o buquê enquanto estávamos juntos.
Saí do transe quando Artur se levantou empurrando meu irmão para trás e acertando um soco no queixo dele. Dei alguns passos para trás, assistindo assustada Lian revidar.
Comecei a gritar para que parassem, mas eles estavam se atracando rumo ao jardim. Artur estava surpreendentemente mais diferente. Com um bronzeado a mais e o cabelo maior, ele parecia cansado. E Lian, bem, Lian havia adotado sua postura bruta.
Empurrando Artur contra a parede e encurralando-o com um braço em seu pescoço, Lian estava suado e com a regata colada ao corpo. Era uma cena um tanto quanto bonita, confesso.
Menos, Flora! Menos! Repreendi-me e inspirei todo o ar que podia para gritar:
— Chega! – Berrei e as duas cabeças se viraram para mim. — Que merda, chega! A gente não vai resolver nada desse jeito.
Cheguei perto dos dois e juntei todas as minhas forças para empurrar Lian para o lado. Olhei-o duramente até ele captar a mensagem, enquanto Artur respirava pesadamente.
— Lian, vai pra dentro. – Falei enquanto encarava o muro. Não queria ver a sensação de vitória passar pelo rosto de Artur, nem a decepção caminhar pelos olhos do meu irmão.
Esperei firme, até ouvir seus passos indo em direção a casa. Levantei então a cabeça e encarei Artur por minutos. Ele foi duro em não desviar o olhar e em não dizer as primeiras palavras. Sabendo que ele não cederia, fui até a caixa largada perto da porta e a trouxe até nós. Ele limpava o suor misturado com sangue do rosto enquanto eu abria a última das tampas misteriosas.
O conteúdo lá dentro me surpreendeu. Era um par legítimo de Louboutin. Os scarpins eram pretos com solas vermelhas. Um sonho. E por que Artur se dera o trabalho de gastar uma pequena fortuna neles?
— Pode começar. – Falei, de repente. Ele se agachou do meu lado e teve a decência de não me tocar.
— Flora, você não sabe o quanto me magoou com aquele fora. Eu fiquei furioso no início, confesso. Mas com o passar dos dias, eu só percebi o quanto gostava de você, de tudo que vivemos nesse tempo. Faz mais de um ano, hein? Cheguei a cogitar a pedi-la em namoro nesse verão, antes do acontecido. Eu tive a ideia de enviar os presentes quando estávamos juntos e você recebeu aquele buquê. Pensei que estava te perdendo... – Artur pausou a fala, suplicando por algo com seus olhos escuros.
"Eu mandei todo o resto, todas as outras coisas que você recebeu. Achei que você descobriria mais cedo ou mais tarde, e que talvez pudéssemos ter uma chance de novo." Artur finalizou e eu não sabia se ficava chocada ou se o mandava embora.
— Artur... – Comecei lentamente, tentando me controlar. – Você foi muito gentil, muito mesmo. Mas você chegou a me assustar com o e-mail e os livros, e, como diabos você sabia dos livros que eu desejava? E você é culpado pelas surpresas ruins que eu estou recebendo! – Aumentei o tom de voz. — Foi você que deu a ideia pra algum louco começar a brincar comigo.
Fiquei em pé desacreditada. Era fato que alguns presentes haviam me feito feliz e me feito produzir conteúdo, mas só o fato de que ele andava me stalkeando, querendo descobrir coisas que até então eu não permitira, me dava náuseas.
A cada segundo que se passava, diferentes memórias vinham à tona. Nossos beijos gostosos e nossas aventuras deliciosas já haviam deixado de fazer falta. Sua companhia era boa, mas não o suficiente para que me fizesse dormir tranquila à noite. Talvez eu até estivesse perdendo uma oportunidade, afinal. Talvez o destino houvesse se encarregado de fazê-lo aparecer em minha vida para sermos mais do que amantes, mas o destino que se ferrasse. Eu não merecia menos que o melhor.
— Artur, a única coisa que podemos ser é amigos. – Falei me afastando para trás.
— Mas eu não quero ser só seu amigo. – Ele disse se levantando com uma seriedade incomum. Seu rosto estava ficando feio. Inchando em lugares muito doloridos.
— Então nós não podemos ser nada. – Repliquei. — Nada, entendeu? Daqui pra frente, sem mais aparições na minha casa, sem mais surpresas ou insistências. Ou teremos que nos encontrar em algum departamento policial. – Terminei a fala olhando de soslaio para a porta.
É claro que ele se tocaria que, Lian sendo policial, as coisas não ficariam baratas, se eu assim mandasse. Havia decidido alertá-lo, porque sabe Deus o que mais ele poderia fazer.
Esse tipo de coisa me assustava. Mas não mais do que a fera que eu teria que aguentar quando entrasse em casa.
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