📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Eu estava achando um saco o silêncio da minha casa. Havia passado a noite anterior vendo séries sem muito interesse e lendo alguns textos online. E agora que já passava das dez da manhã, eu estava sem absolutamente nada para fazer.
Já havia limpado a casa, respondido e-mails, assistido o que me interessava e tentado dormir novamente. Tudo em vão. Via com clareza agora que, se meu desejo de "férias tranquilas para escrever" tivesse se realizado, eu teria ido embora na primeira semana.
Ora, era um tédio ter que ficar mofando em casa sem nenhuma companhia. O tempo lá fora também não ajudava. Caía uma garoa fina naquela manhã e, vê-la da minha janela, era o máximo de diversão que eu estava tendo.
Por um lado estava feliz em ter finalizado o livro e ter deixado a casa em perfeita ordem pela primeira vez durante meu tempo ali. Havia até lavado a calçada com água sanitária! Eu realmente estava me superando. Mas, por outro, estava infeliz com todo aquele silêncio.
Depois de muito pensar, decidi que faria as malas. Era melhor fazer o trabalho adiantado do que só jogar as coisas às pressas no último minuto. Me orgulhei de mim mesma depois de procurar algumas dicas de organização online e montar uma lista de itens que precisava comprar para isso. Se era para fazer, que fizesse direito.
Saí de casa com a lista em mãos e uma sombrinha para ser protegida da garoa. Uma caminhada não faria nada mal a alguém que precisava matar o tempo livre. Pensei em Alek durante todo o trajeto. Sentia-me decepcionada por ele não ter me procurado após a declaração. Achei que ele seria mais insistente, como da outra vez, mas acabou ficando em seu canto. De qualquer maneira precisaríamos conversar antes que eu fosse embora, e eu tinha que tomar coragem para isso.
Seria difícil discutir o rumo da nossa relação quando, por mim, eu ficaria para sempre ali. Ficaria pelo tempo que fosse preciso para que pudesse ver seu sorriso de novo, ouvir sua voz aveludada e sua risada fácil. Seria tão difícil voltar à rotina chata da minha cidade, sem nenhuma das emoções que havia reconquistado nas férias.
Sentiria saudade do calor, do mar por perto, da simplicidade das pessoas e das aventuras que poderiam ser dignas de livro. Eu me considerava tão feliz e realizada antes de viver aquela aventura sozinha, mas agora olhava para trás e via o quão murcha e acostumava ao cômodo eu estava.
Aqui haviam me desafiado, me levado ao limite de todos os tipos de emoções e, graças a isso, eu havia evoluído. Eu estava sendo uma nova Flora. Uma mais madura, mais capaz de aguentar os barrancos das coisas incontroláveis da vida. Se antes eu me considerava uma mulher forte, hoje eu era uma mulher de ferro.
E como boa nova mulher que estava sendo, não demorei comprando os itens da lista. Aproveitei para levar embalagens plásticas para os sapatos, bolsas pequenas para itens menores e várias nécessaires para maquiagem e roupas íntimas. Organizaria tudo da melhor forma assim que chegasse em casa, e ligaria para Alek naquela tarde mesmo.
Caminhei de volta para meu lar dividida entre a alegria e a saudade que sentiria. Seria como dar adeus a uma segunda casa. Ou melhor, meu novo lar. Se antes eu tinha apenas uma casa no litoral, hoje ela havia se tornado mais do que apenas uma construção conveniente. Aquelas paredes guardavam segredos de uma aventura de verão.
Assim que abri a porta me xinguei mentalmente por ter esquecido de trancá-la. Alguém poderia ter feito alguma coisa! Mas assim que levantei os olhos, vi que alguém realmente tinha feito. O teto da minha sala tinha incontáveis balões de coração vermelho colados, e no chão algumas pétalas de rosa espalhadas. A emoção me atingiu feito um baque. Então era aquilo que ele estava aprontando com todo seu silêncio!
Larguei minhas sacolas no sofá e fui até a mesa de centro, que tinha um buquê enorme de rosas pink e um livro ao lado. Olhei para os lados, mas Alek não deu sinal de vida. Ótimo, pois eu precisaria de um tempo para digerir toda aquela informação. Me sentei com o buquê e o livro no colo. O título "Motivos para você me dar uma segunda chance – Coisas que eu deveria ter dito antes" me fez dar risada conforme algumas lágrimas de felicidade pulavam para fora.
Abri o livro e lá estava uma das fotos que havíamos tirado em nosso passeio ao morro. Dizia embaixo:
"Vinte e oito motivos. Vinte e oito rosas. Vinte e oito balões.
Esse é o número exato de dias que nos conhecemos. Você me encantou desde a primeira vez que te vi naquela balada. Quem diria que seria assim que conheceria a mulher mais surpreendente da minha vida, hein? Mas foi, e foi incrível. Quando meus olhos grudaram nos seus, juro que todo meu corpo se arrepiou. Foi algo estranho como eu senti a necessidade de estar perto de você. Era mais que atração, eu soube na hora. Nunca havia sentido algo do tipo. Claro que, além de achar você muito linda, havia algo mais, como um ímã me puxando para perto.
Eu sei que deveria ter te beijado de forma mais lenta naquele dia, da forma como queria, mas meu desejo tomou conta de mim e, quando vi, estava te beijando no estacionamento mesmo. Mas não me arrependo, porque te dei muitos beijos lentos depois, e espero que tenha feito de tudo para você se sentir especial.
Fiz muitas burradas para um tempo tão curto, confesso. Por isso, nada melhor do que um livro para coroar todos os motivos pelo qual deveríamos dar mais uma oportunidade a nós, e, claro, coisas que eu deveria ter dito antes de deixar a raiva dominar meus sentimentos.
Alek."
Sorri e chorei ao ler aquilo. Era tão real, tão palpável aquele sentimento. Alek não era um príncipe em um cavalo branco, mas era um homem que fazia de tudo para consertar seus erros e me manter por perto. As batidas aceleradas do meu coração eram quase audíveis, e eu tinha um leve tremor na ponta dos dedos. Respirei fundo, sentindo um frio na barriga, e folheei as páginas me surpreendendo com o capricho.
Parei por acaso em uma que dizia, em letras cursivas, "Motivo 14: você me faz olhar a vida de outra maneira" e um trecho de uma música do Jason Mraz. Sorri com aquilo e procurei outro dos motivos. Não leria na ordem convencional. Parei no motivo 9 que dizia "nós começamos da maneira mais inimaginável possível, mas foi ela que tornou tudo mais especial" e uma foto minha sentada na areia. Pensei por alguns segundos como ele tinha aquela foto, mas encontrei uma explicação abaixo: "Tirei essa foto do dia em que te encontrei por acaso sozinha na beira da praia. Estava tão linda, e fui tão grato por aquele encontro inesperado..."
Fui lendo o livro inteiro assim, em ordem variada, com um aperto no peito e entre sorrisos e lágrimas. Me senti tão amada conforme lia o que ele tinha preparado, que quase cheguei a me sentir uma boba por estar longe de seus braços. Uma eletricidade corria por minhas veias conforme eu lia as últimas páginas e o cheiro das rosas incendiava o ar.
Assim que cheguei na última folha, o motivo 28 estava vazio e pedia para que eu abrisse o cartão que estava no meio das rosas. Fui conferir ansiosa, retirando um envelope dourado com meu nome escrito. Com as letras azuis dizia "O motivo 28 não está no livro porque quero te dizer pessoalmente. Vem até seu quarto".
Fiquei tonta por um segundo e me levantei, ansiosa e um pouco trêmula. Olhei para tudo que ele havia preparado e me senti corajosa o suficiente para dizer um dos meus motivos em voz alta.
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.