📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Eu estava em uma situação constrangedora. Nunca, em um segundo sequer, cheguei a imaginar que a Anna era irmã do Alek. E jamais pensei que nos encontraríamos em um jantar "familiar", como se não nos conhecêssemos. Ele chegou até a se apresentar para mim! E assim que ele soltou "meu nome é Alek", senti Adam chutando minha perna e vi seus olhos estreitarem. Pelo jeito ele estava tão surpreso e incomodado quanto eu.
Mas, apesar da vergonha repentina e do leve tremor em minhas mãos, eu tinha que agir naturalmente. Peguei minha taça, enchi-a de vinho e tomei num gole só. O.K, ou pelo menos tentar. Enquanto os outros não faziam ideia do que estava acontecendo, Alek também não devia imaginar que Adam já sabia da sua existência.
Comecei a beliscar o prato, com o estômago se contorcendo cada vez que eu engolia alguma coisa. Estava sendo ridículo como meu corpo parecia estar descobrindo novas sensações, doendo em lugares que nunca imaginei. Só podia ser devido à inconveniência. Só. Enquanto jantávamos, me deixei levar pela conversa fluída, fingindo que ele não estava ao meu lado, apesar dos toques ocasionais de cotovelos. Maneirei no vinho e na comida. Não podia me mostrar gulosa na frente daquela família perfeita e feliz. Eu sei, estava sendo exagerada. Talvez eles nem fossem tão comercial de TV assim, mas mereciam a felicidade pelo sucesso de Anna.
Depois do jantar finalizado, com nenhuma palavra trocada por mim e Alek, e várias empolgantes trocadas com o resto do pessoal, pedimos cada um uma sobremesa. Quando surgiu a ideia, eu fixei meu olhar no Adam, na esperança de que ele nos livrasse daquela situação, se dando por satisfeito. Mas muito pelo contrário. Ele insistiu e me disse para deixar de ser apressada, que a noite era uma criança. Pelo jeito quem havia exagerado na dose do álcool era ele.
Cada um, por fim, pediu seu doce e eu aproveitei para relaxar, olhando as novidades pelas notificações do celular, quando senti uma mão pousar na minha coxa. Olhei para baixo rapidamente, e virei o rosto para ele, praticamente com a boca aberta com tamanha ousadia. Ele descia ela até o joelho e tamborilava os dedos pela beirada da minha saia. Dei uma cotovelada forte no braço dele, irritada pelo atrevimento. Como ele fazia aquilo? A mãe dele estava do outro lado da mesa! Ele fingiu não sentir nada e continuou com o rosto tranquilo e simpático. Respirando fundo e precisando tomar um ar, eu disse:
— Vou ao banheiro. Já volto. – E soltei um sorriso curto. Me apressei até o banheiro, molhando as mãos e tocando meu pescoço, na tentativa de me aliviar do calor. Encarei-me bem no espelho, e meus olhos fervilhavam. Por sorte, ele não foi atrás de mim. Pelo menos era inteligente o suficiente. Pensei até em sair na espreita do local, mas parecia inapropriado. E eu não era nenhuma criança. Por fim, decidi voltar. Era isso que uma mulher madura fazia: encarava seus galãs de frente. Ou o que quer que isso significasse.
🌊
— Qual é, Flora! Me fala pelo menos como você se sentiu com ele por perto. – Adam dizia com um sorriso besta na cara. Besta mesmo.
— Para, Adam! Para! – Gritei enfurecida enquanto abria a porta de casa. — Eu só quero dormir agora. Me deixa em paz.
— Porra, Flô, nem teu número você passou pra ele, não tem porque ficar toda irritadinha com isso. – Ele falou revirando os olhos e tirando o relógio do pulso.
— Claro que tem. Tem porque eu me senti como uma adolescente que não sabe controlar a si mesma. Fiquei com o corpo todo tremendo como se eu tivesse sido eletrocutada. E ele foi abusado, está bem? Passou a mão na minha coxa como se tivéssemos intimidade suficiente pra isso. Nós ficamos só uma vez. UMA. Eu mal o conheço e ele fica dando aqueles sorrisos como se estivesse convencido de que eu gosto dele. Eu nem gosto. Na verdade estou até ficando incomodada com isso. – Soltei tudo o que estava engasgado rapidamente. Adam ficou parado me olhando atônito com as sobrancelhas levantadas, e mais do que se deveria sem dizer uma palavra. Por fim, falou:
— Eu vou me deitar. – E saiu silencioso.
Permaneci alguns segundos tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Estava em dúvida entre minhas palavras imbecis e a reação esquisita do Adam, para saber qual foi a mais idiota da noite. Mas quem mandou ele ser intrometido? Até parecia que não sabia quem eu era.
Caminhei até meu quarto, tirei a maquiagem e as roupas e tomei um longo banho. Nem sono eu tinha, então o que me restava era escrever. Sentei na cama com o notebook no colo, abrindo um novo documento e titulando Envolvidos. Comecei a descrever o Alek em seus mínimos detalhes. Desde aparência até o jeito. E claro, exagerei muito. O criei arrogante, autoritário e orgulhoso. Até parecia o CEO de uma história erótica. Após duas horas de raiva canalizada pelo teclado, finalizei o texto e me deitei confortavelmente, sem deixar de me perguntar: por que eu estava agindo dessa maneira?
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