📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Cada minuto marcado pelo relógio era ensurdecedor.
Após enviar o pacote, no dia anterior, passei as horas com frio na barriga. Cada barulho lá fora era um motivo para uma espiada pela janela e um leve tremor nas mãos. Cúmplices, Anna e eu trocávamos sms desde o segundo em que Alek recebeu o livro.
Ela me disse que ele ficou atônito por algum tempo, e depois se trancou no quarto. Não havia dado sinal de vida até agora. Minha amiga estava tão preocupada quanto eu. Discutimos várias vezes a respeito da situação. Anna disse que eu deveria ser mais madura ao lidar com a raiva do Alek, mas madura em relação a quê? A não chorar?
Era inevitável não derramar algumas lágrimas já que eu estava magoada. Não havia como "ser madura" em relação a outra coisa porque ele não havia me dado a oportunidade de ser. E eu havia sido forte o suficiente para não fazer alarde extra da situação. Kristie, como minha melhor amiga, deveria saber. Anna só acabou sabendo porque pertencia ao outro lado da moeda.
Eu chorava sozinha mesmo não querendo chorar. Minha razão dizia que Alek era um imbecil, que nem em outra vida eu deveria dar outra chance a ele, mas meu coração era agarrado a tudo de bom que compartilhamos. Minhas emoções só conseguiam sentir saudade do seu sorriso, seu cheiro e suas mãos, não dos seus momentos de raiva.
Sem dúvidas era algo que deveria ser consertado, assim como minha condição alcoólica (e emocional, por que não?), mas eu não era burra em acreditar que seria eu a responsável por mudar isso. Se ele quisesse mudar, que mudasse. A partir do momento em que não fosse mais suportável para mim, eu largaria, ainda que com calos no peito.
Só que ainda não havíamos chegado a esse limite. Ora, era algo desafiador nossa situação atual, mas conseguiríamos ultrapassá-la, certo? Certo.
Respirei fundo e mandei para longe o redemoinho formado em meus pensamentos. Era sufocante não ter com quem compartilhar tudo aquilo. Me dava raiva, em certo ponto. Por que ele não poderia facilitar tudo e vir até mim? Ele era o mais errado da situação. Disso eu não tinha dúvidas.
Como um pedido atendido prontamente, ouvi um barulho lá fora. Dessa vez, o tiro foi certeiro. Alek estava do outro lado do portão e segurava o pacote. Não demorei em ir até ele e deixá-lo entrar. Sabia, sem dúvidas, de que minha expressão entregava toda a angústia que sentia. A dele, no entanto, permanecia a mesma que eu já conhecia. Nada de novo sob o sol.
Alek se ajeitou inquieto no sofá enquanto eu permaneci em pé, desconfortável, encarando-o. Segundos passaram até que a raiva saísse de dentro de mim. Eu estava tão furiosa em não conseguir captar sua expressão, que não demorei a explodir.
— Flora, - ele começou baixo — Deixa eu explicar o que aconteceu.
— Não, deixa eu falar! – Interrompi — Eu passei três anos da minha vida sem publicar nada. Três malditos anos sem encontrar inspiração suficiente para continuar. E, quando encontro, você acha que pode tirar isso de mim? Só por que você deu um empurrãozinho para ela fluir? – Soltei o ar e virei a cara incrédula — Me desculpe, Alek, mas não vai ser um cara qualquer que eu conheci no verão que vai tirar isso de mim! – Terminei com ar faltando. Não sabia, até então, que esse era o tamanho do ressentimento.
— É isso que sou para você, um cara qualquer? – Ele perguntou com o ar de magoado.
— No momento, sim. – Digo dura — Se você é capaz de pensar em tirar meu livro de mim, é esse lugar que você vai ocupar. – Falei piscando rapidamente, tentando conter as lágrimas.
— Não é esse o lugar que quero ocupar. Quero continuar ocupando o local que eu estava na sua vida. Só tomei consciência da merda que falei horas mais tarde – Alek falou se levantando e pegando na minha mão. Afastei-a ligeiramente. — Eu fui todo errado, mas você precisa me entender. Eu estava com raiva. Você consegue imaginar como se sentiria se eu escrevesse tudo o que aconteceu entre nós?
— Eu amaria, Alek. Eu acharia lindo. – Falei com as forças que me restavam ao tê-lo perto novamente. — Essa é a diferença entre nós. Eu respiro a arte, e eu achei sinceramente que você iria adorar. Eu tinha planejado uma forma totalmente diferente de te mostrar o livro.
— E eu adorei, Flora. Mesmo. – Ele dizia espremendo os olhos. — Só pude entender o que você quis dizer quando o li por completo. Estou honrado, na verdade. Mas no momento fiquei furioso porque achei que estivesse me usando como fetiche literário. - Soltei uma risada seca ao ouvi-lo. Aquilo estava ficando cada vez mais difícil.
— Você é inacreditável. Inacreditável. – Repeti — Depois de todas as barreiras que passamos, você achou que eu estava te usando? Eu não preciso disso. E, sinceramente, achei que teria forças para conversar e provar meus argumentos, mas estou tão cansada de ter que ficar nesse vai e vem, que acho melhor você dizer de uma vez o que veio falar.
Ele me olhou e voltou a se sentar no sofá. Sufoquei ao ver seus olhos úmidos olhando em minha direção e me sentei de frente a ele. Alek não tentou me tocar novamente.
— Me desculpa, Flora. Me desculpa – Começou me encarando profundamente — Eu sei que toda vez venho aqui pedindo desculpas como se isso fosse o suficiente, mas dessa vez eu sei que não é. Você trabalhou duro nisso, eu pude ver, e se eu pudesse voltar atrás, eu voltaria. Não farei nada contra você nem o livro. Céus, não sei nem como pensei em fazer isso. Estou tão arrependido que não sei medir em palavras. – Eu ouvia atentamente tentando disfarçar a velocidade das batidas do meu coração.
"Eu estava tentando tão loucamente te provar que sou uma pessoa diferente, mas acabei deixando escapar vestígios do antigo eu. Eu sei que preciso controlar essa ira. – Alek falou remexendo nos dedos. — E mal sei de onde ela vem, na verdade. Mas vou tentar mudar isso, com você do meu lado ou não. Sei que preciso. – Ele suspirou no meio da frase, olhando para baixo, e voltou a me encarar. — É muito cedo pra dizer que eu amo você, eu sei. Eu sei, mas eu sinto essa coisa tão grande dentro de mim, essa euforia quando eu fico do seu lado, e que explodiu feito vulcão quando eu li e entendi o que você quis dizer com aquilo e... – Alek interrompeu de repente. Algumas lágrimas traidoras pularam dos meus olhos e minha garganta tinha um nó. Alê chacoalhou a cabeça e entrelaçou nossos dedos. — Eu não quero mais ficar longe de você."
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