📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Parecia que eu estava vivendo um pesadelo. Sentada no sofá abraçada a uma almofada, eu piscava lentamente à luz clara da madrugada. Passava pouco mais das quatro da manhã e tudo que eu mais precisava era de um relaxante. Para minha infelicidade, os que eu tinha em casa haviam acabado e nenhuma farmácia estava aberta na cidade.
Alek estava ainda furioso em meu quarto. Depois de encontrarmos a casa vazia, brigamos mais uma vez. Em meio a choque e tensão, deixamos vir para fora toda a raiva que havíamos guardado em relação a Thomas. Toda. Toda a raiva que ele havia me feito passar, toda a mentira que havia contado e todo o medo que me fez passar. Discutimos até sobre meu tempo com ele e sobre a amizade dele com Jasmine. O problema do Alek era se preocupar somente com sua vingança, e não poder torná-la real havia sido o ápice para que ele liberasse em mim.
Ele e eu estávamos tão cegos pelo ódio que não nos preocupamos em descarregar palavras pesadas um contra o outro. Agora, com a mente mais clara, conseguia perceber o quanto havíamos sido egoístas e nos magoado ainda mais em um momento delicado.
Não fugimos da discussão, no entanto. Brigamos de uma forma feia pelo caminho de lá até minha casa, e assim que chegamos aqui, mandei-o ir embora. Eu queria berrar, perguntar a Deus por que ele permitia que coisas daquele tipo acontecessem, mas tudo que consegui foi chorar. Tudo o que fiz foi derramar lágrimas de derrota e cansaço.
Horas depois, quando meus olhos haviam voltado ao normal e eu libertava toda minha dor embaixo do chuveiro, ouvi a porta ser aberta. Passei pelo quarto e vi Alek deitado em minha cama, claramente ressentido por tudo. Ele abriu a boca para falar e eu soltei baixinho um "amanhã nós conversamos" e saí.
Alê não pestanejou nem veio atrás de mim na sala. Aproveitei para escrever por horas, deixando que o silêncio invadisse meus ouvidos e a madrugada fosse dando sinal. Meu novo livro tinha mais de quarenta capítulos prontos. Capítulos longos e precisos, que com certeza fariam alguns corações balançarem. Fechei o documento com exatos quarenta e nove depois de algumas horas.
Ao contrário do que estava acontecendo em minha vida, em meu livro meus personagens estavam felizes. Esta era uma das mais divertidas coisas sobre escrever. Apesar da raiva contornar meu coração, eu havia conseguido continuar meu trabalho romântico em Envolvidos. Eu havia deixado os protagonistas tão apaixonados que poderiam chorar de felicidade. E só faltava uma cena. Apenas uma, para que ficasse completo.
Eu havia colocado todo o meu coração naquelas palavras. Erik, meu mocinho literário, chegava muito perto do que Alek era em seus bons momentos. Era muito parecido com o cara imperfeito da minha vida real. Apesar de estar colocando detalhes da minha própria vida romântica em meu novo trabalho, nestes últimos capítulos eu inventei tudo.
Inventei tudo o que meu coração precisava ouvir. Inventei a delícia de ter um amor fácil, amigos sinceros e dias curtos. Naquele instante, eu não precisava de nada além da minha imaginação e do silêncio que fazia naquela cidade litorânea.
Eu estava imersa em um mar de sensações. Estava com raiva por Thomas ter fugido, mas feliz por faltar apenas uma cena para que meu novo livro estivesse concluído. Eu havia chegado àquele momento arduamente. Com muito choro, alegria, dúvidas, desafios e romance. Havia tornado melhor uma pequena versão de mim.
Eu havia empacado em relação ao último capítulo. Eu queria que ele fosse especial, e não escreveria naquela madrugada. Para ele, esperaria a inspiração mais bonita que houvesse surgir. Quando ela chegaria, eu não sabia.
Depois de encarar a escuridão por longos minutos naquele estado, liguei o abajur do ambiente e fui até a geladeira. Havia algumas cervejas lá dentro e eu nem hesitei em pegá-las. Após a quarta garrafinha eu não sabia mais se estava bebendo para comemorar ou para explodir.
Aquela velha sensação inebriante do álcool havia me invadido de novo, e eu sabia que faltava pouco para que eu corresse até o quarto do Alek e fizesse alguma loucura. Naquele ambiente mal iluminado, eu bebia sem pudor e controle. Bebia sozinha como costumava fazer tantos anos atrás. Bebia como antes de aprender a me controlar.
Quando o relógio marcou dez para as seis, me levantei trôpega e abri a porta do quarto. Não foi surpresa nenhuma encontrar Alek com os olhos estreitos e encarando o teto. Seu corpo estava tenso e se retraiu ao me ver entrar naquele estado.
Éramos dois imperfeitos, afinal. Eu, viciada em disfarçar meus sentimentos, e ele, que jogava seus sentimentos para fora sem se preocupar com quem seria atingido.
Naquele momento, ao vê-lo se afastar devagar enquanto eu me deitada tonta na cama, uma nostalgia me atingiu. Um impacto de saber que tudo poderia estar perdido em breve, assim que eu arrumasse as malas. Um medo tão grande que não fui capaz de abrir a boca, apenas me aconchegar em seus braços e cair em um sono tão profundo que mandou embora tudo o que eu senti naquele dia tão longo.
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