📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Estava tão cansada que consegui dormir a noite toda pela primeira vez em dias.
Mas assim que abri os olhos pela manhã, parecia que havia tomado um porre daqueles. Cada parte do meu corpo estava em alerta e minha cabeça latejava com o turbilhão de pensamentos que havia para serem processados.
Eu definitivamente precisava de um tempo para mim. Todas aquelas revelações eram demais para um dia só, e apesar de ter feito as coisas de cabeça quente, sabia que precisaria tomar uma decisão: ficar ou não ficar?
De um lado eu não tinha mais nada a perder, do outro, quem quer que estivesse com raiva de mim poderia tomar decisões que poriam em risco minha estadia. Mas eu não era mais nenhuma adolescente, no fim das contas. Precisava agir com minha razão de verdade, e não com aquela que achei ter quando estava brava. Portanto, ficaria. De tão fácil que era a decisão, tomei-a rapidamente. Sabia no fundo que não desejava nada além disso. E não recuaria nenhuma vez mais.
Mas antes de tentar resolver outros assuntos importantes, eu me daria alguns dias para pensar. Já que tudo estava perdido, não faria mal deixar que todos eles pensassem o que quisessem por mais um período. E além do mais, os três se conheciam. Digo, Alek, Jasmine e Thomas. Os admiradores sabe Deus quem seriam, mas eu descobriria. Nem que fosse a última coisa a se fazer naquela cidade.
Espreguicei-me lentamente na cama sentindo cada músculo se esticar. Acendi o abajur ao meu lado e puxei o notebook da mesinha para meu colo. Abri o documento do livro em andamento e sabia que não tinha mais tempo para fugir dele. Um processo estava sendo construído. Aos poucos, mas estava. E estava na hora de deixá-lo progredir um pouco mais.
Com as costas confortáveis nos travesseiros, comecei a digitar rapidamente. A ansiedade fazia um caminho direto até meus dedos. Era parte de um desabafo, como se o teclado fosse uma válvula de escape e estivesse ouvindo cada dor que senti nos últimos dias.
Todas as minhas emoções se canalizavam diretamente para as palavras sendo construídas na tela em branco. Pouco a pouco, a tensão foi dando lugar a um texto fluído, repleto de relatos dos últimos dias. Uma pitada de fantasia aqui, outra de romance acolá, e os capítulos iam sendo tecidos de modo que não entregassem a vida real da escritora.
Enquanto digitava e me perdia em meus sentimentos, fui percebendo o quão bom era escrever. Percebi o quanto senti falta de um momento a sós com as palavras, e de como gostava do meu eu que se deixava levar pela imaginação.
Não senti os minutos passaram, tampouco as horas. Estava tão envolta no sentimento de liberdade que só me dei conta de que estava perto do horário de almoço quando senti os primeiros pingos de suor se formarem em minha testa.
Puxei então as cobertas para baixo e salvei o que havia escrito. Oito capítulos depois e me sentindo satisfeita, pulei da cama com um sorriso no rosto.
Depois de abrir as janelas e me permitir tomar um pouco de sol, fui para a cozinha com o estômago roncando. Assim que botei os pés nela, vi meu irmão em pé de costas pra mim tomando alguma coisa. Sorri reconfortada e o abracei por trás.
— Estava me perguntando quando a bela adormecida acordaria. – Lian falou me fazendo sorrir genuinamente. A saudade dele encheu meu peito e o inflou de familiaridade. Seu cheiro amadeirado característico despedaçou um pedaço do meu ser.
— Eu estava escrevendo, na verdade. – Falei ainda com o rosto colado em seu corpo, mas ele se virou nos separando. Ele me analisou por alguns segundos, com um olhar que não dizia nada.
— Que bom! Me conta mais sobre essa ideia. – Li disse me puxando para a sala. — Aliás, me conta todas as novidades dos últimos dias. Você andou sumida. Estávamos preocupados... – Ele apertou minha mão levemente, me deixando confortável para iniciar. Pude sentir os calos em sua mão, devido ao trabalho duro. Às vezes me esquecia da armadura que ele vestia quando não estava perto da família.
E eu contei. Contei cada detalhe dos últimos acontecimentos assim como contei sobre a ideia para o novo livro. Detalhe por detalhe eu abri as angústias para meu irmão. Lian fazia caras e bocas, mas seu silêncio era absoluto.
Era dessa forma que ele me entendia e permitia que eu ouvisse meus problemas em voz alta. Ele dizia que quando contamos a alguém sobre nossa dor, ela corre o risco de diminuir um pouco mais. E era realmente mágico como isso era verdade.
Contar para ele todos os passos bambos dos últimos dias me fez perceber como eu estava sendo fraca. Como eu não estava encarando meus problemas de frente, ou até mesmo deixando-os de lado definitivamente. Era uma terapia fácil, afinal.
Depois de deixá-lo por dentro de todas as histórias, com direito a lágrimas uma vez ou outra, ele disse com os olhos úmidos:
— Vamos almoçar?
E aquela era sua forma de contar que mais tarde me aconselharia sobre tudo o que havia apertado seu peito. Mas por hora, ainda estávamos na terapia. E eu devia analisar sozinha tudo que havia dito em voz alta, e que, por um momento, fizeram minha garganta fechar.
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.