📚 LIVRO 1 DA DUOLOGIA IRMÃOS SOAINT
Flora é professora de português e escritora com um grande bloqueio criativo. Agora, três anos depois de lançar seu primeiro livro que se tornou best-seller, ela está passando as férias em sua casa no litoral com...
Juntei rapidamente os livros e os coloquei dentro da caixa, levando-os para dentro de casa. Larguei em cima da mesa da cozinha e fui até a sala, ligando o notebook com uma ansiedade fora do comum. Aproveitei a inicialização para escrever um sms rápido para a Kris: Nova obra a caminho! Iuhu! Olhando para as horas, constatei que ela já devia estar trabalhando, por isso larguei o celular sem esperar por uma resposta.
Abri a pasta titulada "Em Construção" e fui dando uma olhadela em cada um. Abri um novo documento e comecei a colar os melhores. Logo, tinha cinquenta textos reunidos que dariam, fácil, um livro de pelo menos duzentas páginas. Eu escreveria uma dedicatória e os agradecimentos e estava pronto o pré-projeto. É claro que eu ainda precisava de uma leitura crítica e alterar algo aqui e outro lá, mas o bruto estava concluído. Salvei o documento e me estiquei preguiçosa no sofá. Ah, como era boa a sensação de serviço pronto. Suspirei, feliz e contente com minha ideia. Como havia sido tonta de não ter pensado nisso antes.
Sempre fui amante dos cronistas e poetas. Nada me sacudia mais o âmago de ser. Obviamente eu não desejava ser a nova Cora Coralina, mas queria ser boa mesmo assim. Não sei se porque eram meus amigos, mas Kristie e Adam sempre diziam que eu era uma das melhores. Eles lidavam com todo tipo de obra todos os dias, logo, eu tinha que acreditar nas suas palavras.
Meu celular apitou uma nova mensagem, e logo sorri com as palavras da minha amiga: Não me entregue nada menos do que o melhor! A Kris também era responsável por ler minhas obras e criticá-las. O Adam também fazia isso profissionalmente, mas preferia ler os romances. Dizia que "textos picotados" não eram com ele, e mesmo assim continuava lendo.
Era reconfortante sempre tê-lo por perto, tomando uma cerveja ou assistindo um filme nos dias chuvosos. Assim como a Kris, a amizade com ele sempre foi fácil. Com seu jeito brincalhão e piadista, ele não deixava nada passar. Nada. Incontáveis vezes ele se apresentou como meu irmão mais velho, ou meu namorado. Dependia do abusado que queria puxar assuntos desconfortáveis. Saíamos sempre, os três, e nos titulávamos de "Os Três Loucos Pela Literatura". Não havia denominação melhor, e combinávamos muito nessa parte.
Nunca ficamos longe, e, apesar dos altos e baixos, sempre podia contar com ele. Adam dizia que "família sempre está lá por você", e estava mesmo. Meus pais o adoram, até mesmo o Lian não nega que ele é uma das melhores pessoas que tenho no meu círculo próximo. Dona Helen e Seu Edgar não largavam do meu pé dizendo que eu e ele deveríamos tentar algo mais íntimo. Mas, depois que apareci com o primeiro namorado em casa, deixaram essa ideia cair por terra. Aparentemente. Mas nunca houve nada de malicioso em nossa convivência. Quando tínhamos dezesseis anos, estávamos em uma festa e lá pelo meio da madrugada, nos beijamos. Mas foi tão esquisito, mesmo sendo amigos há pouco tempo, que nunca mais tentamos nada, e sabíamos, sem deixar falado, que não precisávamos de nada além da amizade.
🌊
Havia mais de três horas que eu estava acordada, mas decidi me deitar novamente no sofá, preguiçosamente. Busquei dois pacotes de salgadinho no armário, liguei o ar condicionado e me cobri com a manta. Como eu não tinha nenhum plano para o dia, decidi colocar os episódios da minha série favorita em dia. Férias eram pra isso, não é? Liguei a TV e decidi aproveitar aquele início de tarde. Estava confortavelmente bem. Tudo andava nos trilhos, sem dores de cabeça, sem cobranças. Eu sempre aproveitava o máximo das férias, pois ao longo do ano, o caminho era duro. Eu precisava de um ar puro, por isso, nada melhor do que uma cidade onde eu conhecia pouquíssimas pessoas.
Acordei horas mais tarde, quando o sol já estava se pondo. Esfreguei os olhos na tentativa de mandar a preguiça para lá e me levantei. Desliguei tudo e fui para um banho gelado. Enquanto me deliciava com o frescor e o cheiro de Jasmim do óleo de banho, meu celular apitou com uma mensagem. Eu não fazia questão de sair apressadamente e verificar, como a maioria das pessoas. Então somente quando estava seca e com o cabelo enrolado na toalha, peguei o aparelho e vi três chamadas perdidas de Jasmine. Quem era Jasmine? Hum, acho que preciso verificar isso, pensei. Fui até o perfil online dela e lembrei na hora. Ah, a jogadora loira de vôlei, constatei. Abri as mensagens e a última era dela, pedindo para que eu retornasse as ligações. Apertei no botão chamar:
— Oi, Flora! – Ela atendeu. — Tudo bem?
— Tudo bem, e você? Demorei a atender porque estava dormindo, foi mal. – Falei e soltei uma risadinha.
— Ah, que bom que você estava dormindo, porque vamos ficar acordadas a noite toda. – Ao ouvir isso, fiquei em silêncio. Isso definitivamente soou esquisito. E malicioso. Ao perceber meu silêncio ela remendou aos risos: — Ai meu Deus, desculpa. Estou te convidando para irmos à balada, preciso me divertir um pouco. Além do mais, quero beber hoje. Vamos?
— Claro, vamos sim! Que horas você quer ir?
— Te pego as onze, está bem? – Respondi com um OK e nos despedimos. E é claro, eu precisava estar impecável.
Mas não com fome. Dei uma olhada rápida na lista de deliverys da cidade e pedi uma pizza. Eu era doida por toda comida com calorias extras, e não me restringia com rigidez. Depois de a comida chegar, aproveitei para devorá-la de volta com as séries. Às nove, voltei para o quarto. Depois de constatar que meu armário ainda estava revirado, peguei o melhor vestido que vi. Um curto, aberto nas costas e um decote em V muito generoso na frente. Bem colado ao corpo, o vestido contava com muita pedraria, formando desenhos triangulares e abstratos. Separei o sapato preto alto, e parti para a maquiagem. Passei o batom vermelho bem vivo e escureci meus olhos. Com um pouco de pó compacto pelo rosto e um brinco comprido, estava pronta, uma hora depois.
Aproveitei para postar uma foto em meu perfil pessoal e atualizar a foto das sms. Logo ouvi a buzina, peguei documento, dinheiro e saí. Trocamos muitas risadas ao longo do trajeto, e ela não parava de falar sobre o tal Royd, de quem havia levado um fora há seis meses, mas que jurava que iriam voltar. Ixi, pensei, pelo jeito ela é do tipo possessiva. Mas resolvi deixar para lá e nos divertirmos.
Após as primeiras doses, já estávamos bem mais alegres. Dançávamos em todas as músicas e estávamos certas de que chamávamos a atenção. Estava sendo mais do que divertido. Era de uma noite dessas que eu andava precisando! Jasmine me informou que iria ao banheiro e aproveitei para ir ao bar e pedir uma cerveja. Quando abri e tomei o primeiro gole, quase engasguei. Vi o Grey da vida real. O Dimitri da beleza esplêndida. O Hardin da sensualidade se concretizara na minha frente.
Depois de muito nos encararmos, ele se aproximou de mim e sorriu. Não falamos nada um ao outro. Com aquela quantidade de bebida correndo por mim, timidez era a última coisa que importava. Ele se movia ao ritmo da música, e eu também. Uma eletrônica tocava ao fundo, com pequenas pausas. Me virei de costas para ele, ciente da proximidade e dos riscos que esse toque traria. Ele colocou as mãos na minha cintura e nos movíamos juntos, quando ele puxou meu cabelo para o lado e deu pequenos beijos no meu ombro, nos fazendo parar e aproveitar a conexão. Me virei de frente a ele, arrepiada da cabeça aos pés, e louca para descobrir o sabor daquela boca. Ele deu um sorriso de canto e levantou meu queixo. Estávamos quase com os lábios colados quando ouço uma voz rouca desdenhar:
— Ora, ora, parece que você acabou de conhecer o meu Royd.
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