Capítulo 26
Brooke
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Não consigo. Simplesmente não dá. Impossível. Nem mesmo com os olhos furiosos de Chuck em cima de mim, ameaçando secretamente; mergulhar minha cabeça em uma tigela de gelatina, não consigo parar de rir. A cena fica se repetindo na minha cabeça com um replay infinito e juro que se não entrar em casa de uma vez irei me mijar todinha. Nunca, nem em meus melhores sonhos; iria imaginar que alguém como Chuck Riston, um cara com provavelmente mais de 50kg só de músculos e todo viril... Teria medo de aranhas. Do que estou falando? Medo é apelido. O chilique que Riston deu há poucos minutos atrás, quando viu o micro-inseto caminhando sobre sua mão, foi mais para um ataque de pânico, não um simples medo. Tenho certeza que nem mesmo se uma cratera estivesse se abrindo embaixo dos nossos pés; ele teria se assustado e gritado tanto como fez com a pobre aranhazinha. Ou será que foi uma formiga? Tenho minhas dúvidas.
— Ok, saiba que estou torcendo que o chão enferrujado dessa porra de escada se abra e você caia no buraco — Chuck resmunga claramente irritado com minha gozação e isso só me faz rir mais.
— Mesmo? Porque muito provavelmente se eu cair, você também cai e deve haver milhares de aranhas pequenininhas esperando para assustar você embaixo dessa escada — prolongo a gozação e o moreno desvia olhar para a rua, respirando fundo.
Decido que a noite toda valeu a pena, só por poder ver Chuck com medo de uma aranha minúscula, daquelas que só andam dando pulinhos fofos por aí. A porta finalmente é aberta e Maggie com o cabelo bagunçado, tenta focar sua visão sem os óculos de grau em mim. Ela deveria estar dormindo e nós dois acabamos de acorda-la.
— Brooke? — a voz rouca de sono de Maggie soa confusa, assim como seu semblante.
— Foi mal, esqueci a chave — na verdade não a levei por medo de perdê-la e ter que pagar para fazer outra... Sempre perco essas coisas pequenas, inclusive essa chave é a minha 3º copia desde que me mudei para cá.
— Claro, entre — Maggie abre espaço para que eu entre e me pergunto por que Oen não veio atender a porta? Muito provavelmente seja porque ele esteja desmaiado sobre seu colchão.
Não sou a única que se mata a trabalhar. Oen apesar de não frequentar mais a faculdade, se dobra em três para suprir as necessidades da empresa em que trabalha fazendo marketing. Os filhos da mãe querem Oen com novos projetos basicamente toda semana e o cara mal sai da frente do seu computador, o que me deixa com raiva já que pelo tanto de dedicação que Oen empenha, seu salário deveria ter mais números do que tem atualmente. Acabo rindo mentalmente de mim mesma, porque; do que estou falando? Praticamente vivo em uma lanchonete servindo cafés, que inclusive também não paga o salário correto e nunca abri a boca para reclamar, porque ou é isso, ou é nada. Olho para Chuck alguns degraus abaixo e não consigo controlar um sorriso divertido, o que faz com que seu semblante se feche novamente. Entro no apartamento, seguida de Chuck e o olhar surpreso de Maggie, correndo sua atenção no corpo de Riston, me deixa levemente incomodada. Não por ela estar quase babando, mas sim porque gostava dela justamente pelo fato de que Maggie nunca se intrometeu no que não era chamada, sempre fingia ser cega, surda e muda quando o assunto não a envolvia e droga... Eu a admirava por isso. Mas talvez, seja um pouco de ciúmes também. Afasto rapidamente o último pensamento sem pé nem cabeça e transfiro minha atenção para Chuck.
— Porra, isso só piora — as palavras deixam seus lábios quase como sem querer, ou não já que ele é como eu; ama provocar todo mundo.
— Nada comparado a te ver tirando a roupa, Mimado — rebato sua provocação e seus olhos castanhos amendoados miram os meus no mesmo segundo.
— Estarei... Estaremos... No quarto caso precisarem — Maggie anuncia quebrando o silêncio repentino que havia se instalado.
Transfiro minha atenção para a namorada/amiga de Oen e concordo com a cabeça. Ela fecha a porta do apartamento e se dirige ao único quarto desse lugar; o quarto de Oen. Não que eu tenha dado de mão beijada o cômodo para meu colega de quarto e casa, óbvio que não, até porque não sou santa que sente dó de qualquer ser vivo... Não, Oen ficou com o quarto por ter proposto que se ele ficasse com o único cômodo que continha uma cama; o mesmo pagaria uma porcentagem a mais no aluguel. Na força do ódio tive que me contentar em dormir no sofá.
— Onde fica o banheiro? Isso se vocês tiverem — Chuck pergunta, comenta e me irrita tudo ao mesmo tempo, em uma mera frase.
Aceitar a sua sugestão de ver um filme, só foi pelo agrado da pizza e apenas isso. Empurro para o fundo do meu inconsciente a parte interna de mim, que cai na gargalhada com minha justificativa fajuta e mantenho o disfarce. No entanto, estou começando a reconsiderar se uma pizza vale a pena sua ilustre e irritante pra cacete companhia.
— Óbvio que não temos... — espremo meus olhos — Banheiro são para homens da caverna! Não vê que usamos nossas fezes para esfregar na pele e hidratar? O xixi coamos pra reutilizar, minha menstruação uso como batom e... — tento continuar meu sarcasmo, mas sou interrompida.
— Ok porra, já chega, foi nojento — Chuck comenta com uma super careta de nojo, como se acreditasse mesmo que fazíamos tudo aquilo. Homens.
— Que pergunta mais idiota a sua — deixo de espremer os olhos e caiu sentada no sofá, que ao mesmo tempo é minha cama.
Mentalmente começo a calcular se o corpo de Chuck caberia aqui e tenho quase certeza que não. Se fodeu, vai ter que assistir o filme de pé. Ahhh o filme... Não temos tv, o que só nos resta; ou ver o longa na tela do celular dele ou na tela do notebook de Oen. Aparelho esse que está atrás da porta do único quarto nesse apartamento. Será que Oen ficará bravo se eu pegar seu notebook agora? Ele não liga quando pego para fazer meus trabalhos.
— Se aquela porta é o banheiro... — curiosamente ele faz sinal com a cabeça justamente para a porta do banheiro — E aquela; do quarto do seu amigo — Chuck agora aponta para a porta de Oen — Onde fica o seu quarto? — suas sobrancelhas se unem em desentendimento.
— Você está nele — o respondo fazendo disso pouco caso, enquanto meus ombros sobem e descem.
— Nem ferrando — novamente as palavras parecem deixar seus lábios sem a permissão do que acho que é seu cérebro, não sei, talvez sua cabeça seja só um buraco oco.
Chuck olha ao redor como se isso fosse lhe confirmar o que eu disse. E pra falar a verdade deve confirmar sim, a sala é toda e somente lotada de coisas minhas; a minha bagunça. Há roupas para todos os lados e esboços de desenhos. Alguns livros e apostilhas importantes — automaticamente mais caros — ficam sobre a mesinha de centro, para não correr o risco de mofarem e no canto da parede, há meu cavalete remendado, duas malas lotadas com pertences bobos meus e claro; minhas tintas, pincéis, molduras, telas e tudo que uma aspirante a pintora — sem muito dinheiro — é capaz de ter.
— Não se preocupe, não é um apartamento 5 estrelas, mas garanto que não há aranhas — o provoco e Chuck retorna com seus olhos para os meus respirando fundo.
Me pergunto se ele está incomodado com a probabilidade de encontrar outro inseto pequeno, ou pela forma que vivo. Espero que seja a primeira opção, porque a segunda não é da conta de ninguém.
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Talvez Desconhecidos
Roman d'amour🏆 VENCEDOR DO THE WATTYS 2021, NA CATEGORIA NEW ADULT🏆 Brooke Westton sempre teve a vida corrida e cronometrada como um mero robô. As manhãs ela trabalha, as tardes assiste as aulas de sua faculdade e de noite retorna à lanchonete onde trabalha de...
