Capítulo 63
Brooke
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Eu sei que nem sempre queremos falar de algo que nos machuca. Que às vezes sequer dá para expressar tudo que estamos sentido. Chuck não estava querendo falar sobre Cathy, não naquele momento. E isso me lembrou do seu abraço naquele noite em que Riston descobriu que não me chamo Brooke, quer dizer, não de verdade. Então o abracei, porque me lembro que por mais passageira que possa ter sido a sensação; foi uma indescritível. Estávamos nos apoiando e fortalecendo sem sequer precisarmos ter dito algo um ao outro. Era como se estivéssemos descarregando todas as nossas energias dentro daquele abraço. Soltando a raiva, a dor e tudo mais. Senti que ele precisava da mesma sensação que eu tive, e desejei com todas as minhas forças que o efeito que aquele abraço teve em mim, surgisse em Chuck também. Quando nos afastamos, soube apenas olhando em seus olhos, que funcionou, não completamente até porque nossos pesadelos são monstros diferentes, mas pude nota-lo um pouco menos tenso. Pareceu errado continuar mais algumas horas atendendo os clientes, enquanto ele esperaria, então resolvi pedir para sair mais cedo. Boa espontaneidade, péssima escolha. Gina ficou furiosa com meu pedido, começando a gritar comigo e eu grito igualmente com ela. Há um certo limite até onde consigo aguentar merdas em silêncio. Alguns, na verdade; todos os clientes viram suas cabeças para a nossa direção e só paramos com aquilo, quando um braço forte enlaça a minha cintura, tirando meus pés do chão. Tento me soltar porquê ainda não disse tudo que estava guardando para dizer à Gina, mas Riston é mais forte que eu e me leva dali como se eu fosse a droga de uma boneca inflável. A dona desse lugar vem logo atrás da gente, apontando seu dedo na minha direção, enquanto me menosprezava e dizia que eu era uma péssima funcionária, para quem quisesse ouvir. Ás vezes em que tive que escutar quieta, homens nojentos falando coisas ridículas sobre meus peitos ou minha bunda, por conta desse uniforme ridículo, apenas e somente para não ser descontado do meu pagamento no fim do expediente, às vezes em que algumas mãos tocavam na minha bunda "sem querer", às vezes em que já tive que limpar mesas onde as pessoas sujavam de propósito com cuspes, até mesmo quando tive que pedir desculpas à Oen por não ter o dinheiro do meu lado do aluguel inteiro e ele teve que acrescentar do seu bolso; me veem como um monstro acordando de um longo sono. Tento me soltar novamente dos braços de Chuck, mas a porra do braço ao redor do meu corpo não cede. Estou cega de raiva, então começo a chutar o ar como criança e consigo — ao menos — derrubar uma latada de lixo próximo à porta, antes de atravessarmos a saída do lugar.
Nem mesmo a porra da brisa fria da noite me tranquiliza. Sinto minhas bochechas ferverem e meu coração continua a mil com os batimentos. Sinto vontade de socar Gina. Os braços que pareciam rochas ao meu redor, só me soltam quando paramos em frente ao seu carro. Com minhas sobrancelhas unidas olho para o mimado e o encontro já me fitando, com uma careta, como se não estivesse me reconhecendo.
— POR QUE PORRA VOCÊ ME TIROU DE LÁ? NÃO CONSEGUI DIZER NADA DO QUE EU TINHA PARA DIZER A ELA! — rosno e empurro seu peitoril com força, no entanto o mimado sequer se move e isso me deixa com mais raiva ainda.
— Mais tarde você vai me agradecer, confie em mim — Chuck suspira e bufa? Ao mesmo tempo e faz com que minhas sobrancelhas se juntem mais ainda.
— Claro! Porque você é a porra do gênio sábio! — o empurro novamente, porém dessa vez as mãos de Chuck seguram meus antebraços com força e seu olhar fica um grau mais sombrio.
— Melhor parar com essa porra — apesar de Riston estar rosnando, não me acovardo, levantando meu nariz o desafiando sem desviar meu olhar do seu — Não fui eu quem chutou sua bunda, porra! Se eu não tivesse te levado de lá, a polícia poderia estar aqui agora e aí sim você ia estragar seu precioso futuro — suas mãos me soltam conforme ele cospe as palavras e uma risada sem humor algum deixa minha garganta.
— Foi por sua causa que eu pedi para sair mais cedo, foi por sua causa que eu não vim trabalhar várias vezes e... — tento esclarecer e relembra-lo do porquê fui pedir para sair mais cedo, no entanto Chuck não me deixa terminar.
— Não começa porra, você sempre faz isso; sempre age como se só a porra da sua vida fosse uma merda! Acorda pra vida Bonnie, não é só você que é cheia de problemas — sua voz um grau mais alta que o normal assustaria se eu não estivesse acostumada e brava pra caramba, entretanto ignoro tudo que ele diz e me concentro em apenas uma merda de palavra que deixa sua boca.
— Nunca mais me chame por esse nome! — grito e o empurro novamente, no entanto agora, o peso de tudo que está acontecendo começa a pesar em meu inconsciente e minha voz treme.
Acabei mesmo de perder meu emprego. Acabei de perder a única fonte que me rendia dinheiro para pagar a metade do aluguel e da minha bolsa na universidade. Meus olhos ardem e logo minha visão fica turva pelas lágrimas. Nunca fui de chorar. Sempre acreditei que não há motivos para se chorar por qualquer coisa, porém agora, nesse exato momento, não reprimo as lágrimas... Apenas as deixo escorrer. As sinto despencarem como se fossem meteoros aquosos, trilhando um caminho salgado ao entrarem em contato com minhas bochechas e de repente meus pulmões parecem implorarem por ar. Começo a respirar fundo várias vezes, sentindo o medo do futuro incerto. O medo do meu pesadelo se tornando real... Dois braços me puxam até meu rosto encontrar com seu peito sólido e fraquejo. Despenco contra o corpo de Chuck e o mesmo me abraça forte. Escuto sua voz ao longe falando algumas coisas, mas não as compreendo, estou concentrada no fato do que irei fazer agora... Que não terei mais como pagar merda nenhuma. A opção de ir atrás de um outro emprego é tão instável, como confiar em alguém atirando a faca na maçã sobre sua cabeça. As chances da mira pontiaguda da faca atingirem mesmo a fruta, são as mesmas que ela tem de acertar seu rosto.
— Brooke, olhe para mim — a voz de Riston deixa de ser um zumbido ao longe, quando o mesmo deixa de me abraçar, apenas para mover suas mãos até meu rosto, Chuck segura minhas bochechas e me faz olhá-lo nos olhos — Vamos, você precisa descansar e esfriar a cabeça — seus polegares sobem e descem nas minhas bochechas e por alguns instantes apenas aprecio seu gesto tão carinhoso e ao mesmo tempo; tão "não-Chuck".
A princípio, não entendo de primeira o porquê dele ainda estar agindo como se a gente formasse um "nós". Ai me lembro da noite passada e um peso maior ainda se instala embaixo de tudo. Sexo, saídas noturnas, sem emprego, só me falta agora a gravidez indesejada para seguir os mesmos passos deles. Fecho os olhos com força por alguns segundos e nego com a cabeça mentalmente. Não, eu não serei como eles; nunca. Sem que eu o dissesse algo, Chuck solta meu rosto e abre a porta do carro para que eu entre. Meus olhos encaram o acolchoado de couro do banco e logo se desviam para Riston novamente, que já estava me observando sem expressão alguma. Suas palavras vem com força novamente em meu inconsciente e então percebo que ele tem razão, não é só eu que tem a vida cheia de problemas... Sua irmã quase morreu hoje. Pela primeira vez me sinto culpada de algo que digo e ao invés de entrar no carro, me viro ficando de frente para Chuck novamente. Nas pontas dos pés, alcanço o cabelo da sua nuca e puxo seu rosto, até a ponta de nossos narizes se tocarem.
— Desculpa — sussurro dentre o vento gelado da noite e Chuck pousa suas mãos em cada lado da minha cintura.
Ele fecha os olhos e logo em seguida; fecho os meus. O sinto respirar profundamente e quando solta o ar, o mesmo sussurra um; "Me desculpa também" igualmente baixo. Mexo de leve minha cabeça, fazendo com que a pontinha de nossos narizes se raspem e abro os olhos no exato segundo em que seu sorrisinho de lado aparece. O dia inteiro foi uma gigantesca, enorme e colossal; merda. No entanto, tudo que aconteceu — de alguma forma — parece longe demais para me atingir, quando estou aqui fitando seu sorriso.
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Talvez Desconhecidos
Storie d'amore🏆 VENCEDOR DO THE WATTYS 2021, NA CATEGORIA NEW ADULT🏆 Brooke Westton sempre teve a vida corrida e cronometrada como um mero robô. As manhãs ela trabalha, as tardes assiste as aulas de sua faculdade e de noite retorna à lanchonete onde trabalha de...
