Capítulo 53

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                                  Capítulo 53

                                      Brooke

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      Ainda não acredito que deixei mesmo Chuck Riston me fazer chegar ao ápice. É inacreditável como fazemos coisas na pressão do momento. No entanto, estarei mais que mentindo, se disser que não gostei... Foi bom, muito bom na verdade. Aquele mimado sabe o que fazer e isso não me surpreende. Um sorriso toma conta do meu rosto ao me lembrar que após me presentear com um orgasmo, Chuck ainda comprou donuts para o nosso café da manhã. Paro de passar o pano na mesa, quando percebo que utilizei uma palavra no plural; "nosso". A culpa volta a pesar no meu estômago e meu sorriso é substituído por um semblante de quem está em um dilema interno consigo mesma. Apesar das provocações, brigas e poucas horas de sono, esse tempo que estou tendo com Riston vem sendo um dos melhores que já vivi, em toda uma miserável vida. Essa parte, a do; "miserável vida", que me acerta um tapa na cara. Somos de mundos tão diferentes... Temos um tempo diferente. Enquanto Chuck trabalha sempre contando os segundos, eu conto as horas. É tão ridículo isso tudo, que chega a ser engraçado; porque para que eu viva a vida que planejei desde sempre, preciso do meu trabalho, no entanto o trabalho ocupa o tempo que a faculdade não ocupa e está aí outro abismo enorme, que diz para que eu deixe Chuck longe. Que diz para que eu deixe Chuck do outro lado da rachadura. Porque no fim, lá na frente, o que valerá a pena não será as transas que você teve ou não e sim os diplomas que você tem. Bufo brava com nada e tudo ao mesmo tempo e termino de limpar a mesa que na verdade já estava limpa há uns bons vinte minutos atrás, mas minha contradição de pensamentos não me deixou parar de arrastar o pano na superfície lisa. O sininho da porta tilinta e junto de leve as sobrancelhas, porquê geralmente esse horário não aparece ninguém; por isso estou limpando as mesas. Olho para o cara que acabará de entrar, aparentando ter no máximo 40 anos. Nunca o vi por aqui antes. O mesmo usa calça social sem um amasso, blusa de gola e óculos de grau. Seu cabelo tem um corte perfeito, com alguns fios brancos no meio da imensidão de gel. O observo olhar ao redor da lanchonete e parar sua atenção em mim. Sustento o seu olhar e ele permanece me encarando até resolver seguir para uma das mesas próxima à porta e se senta. Suspiro, pois já estava quase de saída e agora terei que atender outro cliente. Deixo o pano sobre a mesa que já finalizei a limpeza, indo em direção ao novo cliente, limpando minhas mãos na saia.

— O que irá querer? — não escondo meu mal humor, já que mesmo que Gina possa estar nos encarando, estou de costas para ela, então ela nunca vai saber se atendi o cara cheia de elogios, ou se disse que sua barba por fazer é ridícula.

O homem encarando suas mãos unidas sobre a mesa, limpa a garganta e lentamente vira seu rosto, começando a subir seus olhos, demorando um pouco na minha mão com a luva, até encontrarem com meu rosto.

— Bom dia... — sua voz soa baixa — Vocês, ham, ainda estão servindo café? — sua pergunta vacila um pouco e me faz fazer uma breve careta.

— Aqui é uma lanchonete próximo da estrada, a única coisa que não falta é café — o respondo tentando ao máximo não parecer ignorante, mas tenho raiva de pessoas que perguntam coisas óbvias. É irritante, tal como alguma visita perguntar se tem banheiro... Chuck me vem à mente.

— Ham... Certo — seu olhar se volta para suas mãos novamente e percebo que elas estão agitadas — Poderia me trazer um copo médio, por favor? — seu pedido me faz erguer as sobrancelhas, porquê já faz tempo que não escuto um; "por favor" vindo de algum cliente dessa lanchonete.

— É pra já — forço uma animação totalmente descrente e me viro indo até o balcão.

Informo à Gina o pedido do novo cliente e enquanto a dona desse lugar prepara o copo de café; meus olhos se desviam para a porta da lanchonete. Estarei mentindo se disser que não pensei que fosse Chuck entrando antes. Algo dentro de mim queria que tivesse sido ele, por algum motivo. No entanto, entendo o porquê dele não estar aqui, não paramos desde as 3/4 horas da manhã e mesmo que eu esteja cansada — na verdade cansada é apelido — sou a única obrigada a ainda estar em pé, mesmo ainda não tendo fechado os olhos desde a madrugada até agora, que já são quase 9am. Muito provavelmente o mimado deve estar dormindo na sua cama macia agora... Odeio admitir isso, mas estou com inveja. Nunca fui de sentir essa sensação, mas não é sempre que encaramos a droga da nossa vida de cabeça erguida. Gina coloca o copo de café na minha frente e encarando o líquido marrom claro respiro fundo, porque estou tão exausta que sinto meu corpo se mexer no automático, porque tenho que pagar minha bolsa na faculdade e se estou pagando minha bolsa na faculdade significa que estou trilhando um caminho para um futuro que eu mal posso esperar. Com uma determinação fajuta pelo cansaço de não ter dormido no tempo entre meu turno da madrugada e o da manhã, caminho em direção à única mesa ocupada nesse horário.

— Aqui está — anuncio, colocando o copo à sua frente e o homem agradece sem me encarar.

Que sujeito estanho. O informo o valor e aguardo, enquanto o mesmo retira da sua carteira uma nota de 100 dólares. Pergunto se ele não tinha outra nota com um valor menor, mas ele nega e suspirando me viro, indo até Gina. A dona da lanchonete acha ruim por não ter dinheiro o suficiente na caixa registradora para o troco e parte para a parte de trás da loja bufando, a fim de pegar troco de uma lata enferrujada, onde ela e seu marido guardam para emergências. Espero e brinco com minha luva, tentando parar de lembrar como tudo em mim gostou e muito do que Chuck fez essa manhã. Minha atenção só é puxada para o agora quando o sino da porta tilinta e percebo que o homem acabará de ir embora. Uno as sobrancelhas e observo sua silhueta desaparecer em um carro, pelas imensas janelas de vidro dessa lanchonete. Sem entender, me aproximo da mesa, onde ele estava e encontro um bilhete. Pego o pedaço de papel de sobrancelhas juntas.

     "O café está ótimo, pode ficar com o troco ;)"

Encaro a carinha piscando e acabo rindo sem humor. O cara acaba mesmo de me dar 97 dólares de troco? Transfiro minha atenção para o estacionamento novamente, a fim de ver a pegadinha sem graça, como talvez câmeras, ou outros caras que tenham o desafiado fazer isso, mas o lugar se encontra vazio. Meus pulmões puxam o ar fortemente no instante em que Gina retorna à lanchonete e chama minha atenção, me viro e caminho até ela lhe mostrando o bilhete. Ela fica admirada, mas tenho quase certeza que não pelo fato do cara ter deixado mais de 50 dólares de gorjeta para mim e sim pelo fato de que alguém elogiou seu café horrível.

    *

Chego no meu tão querido apartamento, com cheiro de mofo e agora — graças a mim e Chuck — queimado também. Sem me importar em tirar esse uniforme, apenas me jogo no sofá duro e afundo o rosto no travesseiro/almofada perdendo a consciência. Meu corpo resolve voltar aos vivos, apenas quando um barulho familiar começa baixo e vai aumentando, à medida que os segundos se passam. O gemido exagerado toma um grau mais alto e me força a levantar a cabeça do travesseiro, apenas para colocá-lo sobre minha nuca logo em seguida. A tentativa de abafar os gemidos falha e isso me irrita. Me levanto bufando e tateio até achar meu despertador. Aperto o botão do aparelho para checar as horas e meus olhos se arregalam assim que encontram com os números o e 5pm colados. Céus eu dormir demais. Tento me lembrar qual era minha grade curricular de hoje, mas meu cérebro cansado protesta. Droga, não só meu cérebro, meu estômago também protesta de fome, então resolvo me levantar e atender as necessidades humanas, uma de cada vez... O banheiro primeiro.

Aproveito que estou no banheiro apertado e tomo um banho sem pressa. Bom, sem pressa até a água quente acabar. Nunca tinha dormido tantas horas seguidas como hoje... Meu corpo parece mais relaxado que o normal.

Visto minhas roupas íntimas e acabo por somar ao meu traje; a camisa de Chuck que vira um vestido em meu corpo. Disfarçadamente puxo a gola do tecido e a levo até meu nariz, cheirando seu perfume ainda presente na camisa. Sorriu por algum motivo e caminho até a cozinha, procurando por algo para comer. Faço uma careta para o cheiro forte de queimado concentrado nesse pequeno lugar e acabo optando por cereal com leite na tigela. Caminho até o sofá e me sento de pernas cruzadas. Observo as pilhas de papéis sobre à mesinha de centro e me inclino pegando algumas folhas em particular. Encaro as inúmeras informações sobre arte abstrata e seu conceito. Me lembro de uma avaliação que teremos sobre isso e começo a estudar sobre. Afinal como diria Riston; tenho um tempinho antes do meu turno noturno começar e devemos aproveitar cada minuto... Nego de leve com a cabeça, tentando não sorrir. Que besteira.

Talvez DesconhecidosOnde histórias criam vida. Descubra agora