Capítulo 38

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                                 Capítulo 38

                                       Brooke

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    Basicamente, esse grupo de adultos entre 30 e 40 anos, alguns que tem familiares sofrendo a mesma mutação que essas crianças, outros não, se reúnem aqui duas vezes por semana, para proporcionar um pouquinho de alegria as crianças que estão vencendo ou já estão entregando a luta para essa maldita doença. É admirável, confesso, mas dentre todas as pessoas do mundo; Chuck, com toda certeza seria a última que eu diria que se voluntariava a ajudar crianças com câncer. Principalmente por toda a aura de "bad boy" — ainda falamos bad boy? — pegador e mimado que rodeia sua cabeça. Mas recentemente venho percebendo que Chuck é mais do que aparenta ser... Digo, não estou dizendo que ele é um anjo, na verdade longe disso, apenas tenho a impressão que Chuck, o verdadeiro Chuck, se esconde e só se solta quando estamos sozinhos. O que não entendo e deixa meu cérebro mau dormido cansado. Por que logo comigo? Há uma infinidade de garotas no campus que — muito provavelmente e muito cegamente — se matariam para estar onde estou, para ter a atenção de Chuck, como venho recebendo. Porra Riston, por que logo comigo?

   De onde estou, abrindo a cadeira portátil em um cantinho desse lugar, consigo observar Chuck rindo e ensinando um cara à mexer em algo, no notebook sobre o palco. Quando distraído, Chuck parece até mesmo ser; um bom cara. Daqueles que ajudam velhinhas a atravessarem a rua, mas quem o conhece de verdade, sabe que a realidade não é essa. Chuck é confuso e está me deixando confusa com essa conversa toda de; "me fazer viver a vida como ela deve ser vivida", logo em seguida me trás para um encontro? Reunião? De crianças com câncer... Céus que loucura. Sou tirada da bagunça que está minha cabeça nesse começo de manhã, com a senhorinha que anda com o auxílio de uma bengala, me entregando uma maletinha sorrindo. A "adolescente" qual Chuck havia citado antes, aquela de pintava os rostos das crianças, na verdade é uma vovó de óculos pequenininhos, que se veste com roupas incrivelmente coloridas e fosforescentes. Me pergunto se ela usa essas roupas para caso se perder no meio dessa floresta assustadora pra caramba; alguém a encontre. Se sim, ela é uma velhinha esperta. Farei o mesmo na próxima vez... Assim que a ideia se monta na minha mente; suspiro. Droga Brooke, pare de pensar como se isso fosse se repetir a torta e a direita, você não quer isso. Na verdade, nem se quisesse eu poderia, não haveria tempo, já que o tempo em que estou aqui, me preparando para pintar rostos de crianças, era para mim estar gastando dormindo e recarregando as energias para daqui a pouco voltar à lanchonete. Esse pensamento me aborrece por algum motivo, talvez seja o tempo, ele é tão pouco e tão importante ao mesmo tempo. Meus olhos encontram com Chuck também me encarando sobre o palco e o mimado me envia seu sorrisinho de lado. Olho ao arredor, para garantir que ninguém estava me observando e quando transfiro minha atenção para Chuck novamente, subo minha mão livre na luva até meus lábios, beijando meus dedos e quando a afasto; abaixo cada dedo, um após o outro, até restar só o do meio. Chuck ri, mas de onde estou não escuto sua risada, apenas vejo sua reação. O mimado finge pegar meu beijo/dedo do meio no ar e o leva até o coração, o que me faz sorrir por algum motivo. É...Deveria mesmo haver mais tempo. Rose Zaytter se aproxima e pergunta se preciso de ajuda, a informo que não e mesmo assim a mulher que deve ter uns 40 anos, insiste em me ajudar a montar a mesa — também — portátil, mas nem um pouco pequena. Iniciamos uma conversa estranha, com Rose me perguntando o que curso na faculdade e logo em seguida, se eu conhecia alguns pintores famosos, que basicamente todo mundo — até mesmo quem não tem interesse no mundo artístico — conhece, como por exemplo; Da Vinci. Rose também pergunta se o que estou usando era um uniforme e sinto uma rápida vontade de respondê-la algo como; "Essa saia ridícula!? E essa blusa de botões apertadas, que por um acaso combina com a saia? Não! Claro que não! Isso aqui é meu pijama, sabe como é... Sexy até na hora de dormir", mas acabo deixando a ideia de lado. Forço alguns sorrisos, tal como faço com os clientes na lanchonete de Gina, quando Rose começa a falar do horror que a senhora/adolescente-segundo-Chuck, fazia nos rostos das crianças. Quando finalmente sou deixada sozinha, seco minha mão livre da luva na saia do uniforme e logo em seguida abro a maletinha. Um sorriso involuntário surge no meu rosto quando vejo a bagunça de tinta seca e pincéis sujos. Alguns artistas simplesmente odeiam bagunças, preferem cada coisa em seu devido lugar e de preferência; limpa. Eu? Sinceramente? Pouco me importo se meu pincel está muito sujo ou não, desde que eu me encontre na minha própria bagunça; beleza. E mesmo que essa mini bagunça não seja minha, é fácil de se localizar quando você conhece cada item aqui dentro. Começo a retirar os potinhos de tinta de dentro da maleta, os colocando sobre a base da mesa e admiro alguns dos inúmeros pincéis, uns melhores, outros piores que os que tenho. Ainda sorrindo por estar em um universo totalmente... Meu, passo o dedo sobre os pelinhos na ponta dos pincéis, os sentindo e automaticamente sinto minha energia recarregar, mesmo que imaginariamente.

  *

Chuck da um jeito nas caixas de som e logo uma batida nem muito baixa, nem muito alta começa a tocar, alegrando um pouco o lugar. Por ser uma desconhecida no meio de conhecidos, as crianças ficam com um pé atrás quando se aproximam da mesinha em que estou sentada, esperando para pintar o rosto de alguém. Um garoto com a cabeça totalmente careca chega a se aproximar, mas apenas encara as tintas. Tento ser pela primeira vez extrovertida e aceno sorrindo para o mesmo. O garoto me olha e logo em seguida corre para longe. Minhas sobrancelhas se unem de leve sem entender o que havia feito de errado e antes que eu pudesse chegar a uma resposta; Chuck se aproxima.

— Porra, você leva jeito com crianças — ele me provoca e se senta na cadeira à frente da minha, que era reservada para as crianças se sentarem, enquanto eu pintava seus rostos.

— Ou elas que não levam jeito comigo — dou de ombros e desvio olhar do mimado à minha frente, olhando ao redor.

— Acho que elas estão com medo de você ser tão ruim quando a outra era — Chuck comenta despreocupado e isso me faz voltar a encara-lo.

— Você é um amor com pessoas velhas — espremo meus olhos.

— Elas tem meu coração — sua resposta também sarcástica, me faz rir por algum motivo e Chuck sorri.

— Sabe, talvez elas só precisem de um incentivo — depois de um breve silêncio; uma ideia me vem à mente.

— E o que seria? — Chuck questiona erguendo uma de suas sobrancelhas.

— Ninguém compra quadros sem olhar uma demonstração de arte primeiro — o respondo dando de ombros e a sua careta de confusão me faz rir.

— Ainda não entendi aonde você quer chegar, Princesa — Chuck pronuncia a droga do apelido bosta e se mantém sem entender.

— Vem mais pra perto — o instruo e Chuck levemente contrariado, aproxima sua cadeira da minha, até nossos joelhos se encostarem.

Sorrindo começo a pegar os pincéis certos e Chuck me observando capta a mensagem. O mimado nega com a cabeça e faz menção de se levantar, mas envolvo minhas pernas em uma sua o "trancando" no lugar, mesmo que com a nossa diferença de força; ele poderia simplesmente se levantar e sair. No entanto, Chuck se mantém ali sentado me encarando sério.

— Vai, vou até deixar você escolher — acabo rindo ao pronunciar minha bondade e Chuck respira fundo, me encarando como se pensasse uma, duas, três vezes se me deixava fazer aquilo ou não — Olha vamos fazer assim; eu pinto seu rosto, então se as crianças começarem a vir; você pinta o meu no fim da festa — sugiro e lentamente Chuck vai cedendo ao relaxar o corpo e seu sorriso diabólico de lado começar a aparecer no canto dos seus lábios.

— Como quiser, Princesa — suas únicas três palavras me fazem sentir um breve e quase imperceptível arrepio, mas resolvo deixar isso de lado.

Talvez DesconhecidosOnde histórias criam vida. Descubra agora