Capítulo 98

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                                Capítulo 98

                                      Chuck

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   Cathryn morreu dois dias após a cirurgia...

Teve todo um termo médico sofisticado para a merda que aconteceu, mas não consegui digerir. Em um instante minha irmã dormia e no outro começou a ter convulsões somadas a um vasoespasmo. Ela não resistiu. Talvez ela tivesse resistido caso seu corpo e cérebro não estivessem esgotados por tudo que ela passou, talvez ela tivesse resistido se não tivéssemos feito a porra da cirurgia... Há tantas porras de "talvez" pulando na minha cabeça. Naquela tarde, estávamos esperando a notícia que conseguiriam estabelecê-la na área de espera do hospital, mas essa porra de notícia nunca chegou de fato. No instante em que o médico se aproximou para contar do óbito de Cathryn, me lembro de minha mãe cair em um choro horrível que nunca havia visto antes e abraçar meu pai. Até mesmo David Riston chorou, enquanto tentava acalmar minha mãe. Eu não consegui. Queria com todas as forças chorar, mas não consegui... Tudo que fiz foi sair da sala de espera, onde estávamos e socar diversas vezes a lixeira ao lado de fora do hospital. Brooke só soube da notícia, quando chegou uma hora depois. Ela estava com a garotinha que ela cuidava, porque John e a mãe da garota foram assinar os papéis de divórcio ou alguma merda assim. Me lembro do seu sorriso desaparecer após seu olhar cair nas minhas mãos com alguns cortes e um pouco de sangue. No dia não conseguia olhar para Brooke, porquê uma parte sombria de mim mesmo à culpava pela morte de Cathryn... Por mais idiota que isso soasse em voz alta. No entanto, é sempre assim; sempre tentamos encontrar a quem culpar, quando estamos nos afogando.

Aquela tarde, foi de longe um dos piores dias da minha vida, só não levou a porra da medalha de primeiro lugar, porque logo após a morte de Cathryn, teve seu velório e enterro. Fui obrigado à ir para a fraternidade a fim de me preparar física e psicologicamente, mesmo que eu tivesse roupas na casa dos meus pais, no entanto não estava conseguindo digerir a ideia de pisar na casa que havia fragmentos de Cathryn em todo e qualquer lugar, desde seus desenhos colados nas paredes até a fotos dela sorrindo antes de toda essa merda começar, vê-los chorar enquanto eu... Simplesmente não conseguia também foi um dos "porquês" que me fizeram vir pro campus. Lembro de Brooke em algum momento aparecer e tentar fazer aquela situação ser aceitável na medida do possível, mas ainda não conseguia olhar em seus olhos. Acho que essa parte também foi uma das piores, a qual parte de mim sabia que era errado culpá-la por algo natural; entretanto ainda sim havia outra parte de mim mesmo que me alimentava de sentimentos nem um pouco legais em relação à única garota que não se foi. Brooke aceitou aquilo, aceitou que eu precisava de um espaço e só voltou a falar comigo quando soube que eu disse aos meus pais que não iria mais ao velório, nem ao enterro. Não queria mais remoer aquela situação, queria voltar a viver o agora, voltar a rir, voltar a jogar, a beber, porra principalmente voltar a beber. Brooke de alguma forma soube da minha "escolha" — provavelmente minha mãe deve ter pedido que a princesa a ajudasse me fazer mudar de ideia — e naquele mesmo dia disse que Cathryn gostaria daquilo e confesso que me surpreendi quando não a respondi na esperança que ela fosse "embora" novamente, mas a princesa ao invés de ir; segurou nas minhas mãos e me perguntou qual era a minha comida preferida, porque; "Na tristeza sempre opte por comer sua comida favorita".

O velório de Cathryn foi bonito e cheio de flores de coloração roxa. Mesmo que eu soubesse que haveria várias pétalas enfeitando seu velório, na sua despedida do seu curto agora; no caminho até onde ela estava sendo velada, parei em uma floricultura e comprei um buquê com duas de suas flores favoritas; lavanda e orquídea roxa. Brooke por mais desconfortável que se sentia no meio de desconhecidos, me acompanhou no velório de Cathryn sendo forte por nós dois, muitas vezes respondendo a pessoas que ela nunca havia visto antes por mim. A morena não soltou minha mão, nem por um segundo sequer, como se estivesse com medo de que se fizesse aquilo; eu iria fugir. Não que esse plano não havia se passado pela minha cabeça trezentas vezes, principalmente quando a vi dentro do caixão, no entanto aquele amor que arde no meu coração por Brooke me impedia de deixá-la ali naquele momento. Sozinha. Na hora em que tive que subir até o microfone, retirei minha carta que vinha escrevendo meses e meses para esse momento. A carta que eu deixava guardada no meu quarto e... No fundo, esperava que ela sempre permanecesse lá, guardada. Enquanto lia minha caligrafia horrível para os presentes, meus olhos se encheram de lágrimas e enfim consegui deixá-las escorrerem. Foi uma sensação inexplicável. O vazio e o cheio de mãos dadas. Me lembro dos pingos borrando a tinta da caneta gravada na folha amassada e no fim nem importava muito, porque eu sabia aquela carta de cor. A escrevi e reescrevi diversas vezes. Nela contava a história de dois irmãos que não tinham o mesmo sangue, nem etnia, mas que se encontraram e se amaram como se tivessem esperado um pelo o outro a vida toda... Uma vida curta, porém feliz. Entre as palavras gravadas na folha, agradeci por ter conseguido conhecer Cathryn e mais ainda por ter a tido como irmã. O mundo estava perdendo uma alma incrível naquele dia, mas no céu se acendia uma nova estrela e aquela estrela brilharia mil vezes mais que qualquer outra. Quando terminei de declarar minha despedida à minha irmã; aplaudiram. Não sei porque raios fizeram aquela merda, mas aplaudiram. E ver milhares de pessoas batendo palmas me fez sentir uma raiva indescritível, então decidi sair daquele lugar. Mesmo que isso significasse deixar a princesa sozinha. Brooke até tentou me fazer ficar até o fim, mas a ignorei porque eu não estava pensando direito e iria acabar falando coisas impensáveis para a garota que amo com todas as forças.

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