Capítulo 39
Chuck
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Cada detalhe do rosto concentrado de Brooke, produzindo sua arte no meu, é memorável. As sobrancelhas levemente unidas, os lábios brevemente tencionados... Em dado momento até penso em assusta-la, no entanto uma Brooke raivosa com toda certeza não chamaria sua clientela mirim. Pelo contrário, aposto que os afastariam. Por estarmos à centímetros um do outro, consigo sentir sua respiração calma e ligá-la a algo relativamente "calmo", estando acordada, é diferente. A ponta delicada dos seus dedos ainda com a luva, segura o pincel que ela está trilhando no meu rosto, enquanto a outra segura a ponta do meu queixo. É inevitável não querer rir dessa droga que está acontecendo... Uma garota pintando a porra do meu rosto, em uma porra de evento que eu jurei não contar a porra de ninguém que ia. Não me leve a mal, pessoas que se voluntariam em ajudar outras pessoas, sempre são tachadas como; "boas-almas" coisa que estou longe de ser. No entanto, minha família vem participando desses encontros voluntários desde bem, desde o começo. Na verdade vinha...
— Você tem um esqueleto bonito — sou tirado da porra dos meus pensamentos, quando Brooke sussurra. Meus olhos voltam a se fixarem nas órbitas pretas à minha frente, concentrados em dar continuidade a seja lá qual for o desenho que Brooke está produzindo no meu rosto.
— Esqueleto? — questiono tentando não mover o maxilar e Brooke mira seus olhos nos meus por uma fração de segundo, antes de voltar a prestar atenção no que estava desenhando.
— É sabe... — a morena respira fundo, claramente contrariada a dizer o que quer que fosse acrescentar — Você tem um maxilar marcante e nariz bem moldado, olhos no lugar certo; um esqueleto bonito — as pinceladas de Brooke no meu rosto não param, enquanto os ombros da mesma subiam e desciam. Ok, "esqueleto bonito" não é lá o melhor elogio do mundo, mas vindo da princesa é algo.
— Ahhh Princesa, pode apostar que não é só isso que eu tenho de bonito — tento sorrir, no entanto o olhar matadouro que Brooke me envia, me faz mudar de ideia no mesmo segundo; voltando a relaxar o rosto.
Antes de começarmos, Brooke disse que eu não poderia fazer expressões faciais, não até a tinta das suas pinceladas secarem. Mas espera, por que raios estou escutando? E ainda por cima; obedecendo o que Brooke — uma desconhecida — diz? Essa pergunta rodeia minha cabeça e faz com que minha vontade de sorrir realmente evapore.
— Você pensa em algo sexual até quando está no meio de um monte de crianças? — sua careta me faz pensar por um segundo, que realmente não deveria ter dito aquilo, no entanto aquele segundo voa com o vento ao nosso redor.
— Você só se vive uma vez, pra deixar pro amanhã o que pode ser dito hoje — resmungo, enquanto meus ombros sobem e descem.
Brooke migra com seus olhos até chegarem nos meus e respira fundo. Suas sobrancelhas se unem de leve, no entanto não vejo raiva no seu rosto e sim confusão. Sei que na sua cabeça, está se passando tudo que disse à ela naquele estacionamento do lugar onde Brooke praticamente mora. Não é nada definitivo, mas tenho a impressão que pouco a pouco, estou conseguindo o que quero. A princesa banha seu pincel na tinta facial vermelha novamente e logo o leva até meu rosto. Mentalmente me pergunto o que raios ela está aprontando. Até agora já a vi usando a cor preta, branca e agora a vermelha... Se ela estiver fazendo joaninhas juro que a mato. No entanto, a ideia dos insetos logo se vai, Brooke não estaria tão concentrada para fazer bolinhas vermelhas contendo outras bolinhas pretas menores e anteninhas, ou estaria? Ahhh droga... Não quero nem pensar no que terei que dizer aos caras, quando chegar com o rosto cheio de insetos "fofinhos". Estarei lado a lado de Gregory no quesito "mais-ridículo", ele com aquela dancinha horrível na abertura dos jogos e eu com desenhos infantis no rosto. O que uma porra de garota não faz com a nossa cabeça, eim? A morena continua com aquilo por mais um certo tempo e quando finalmente diz que terminou, arrumo minhas costas, agradecendo mentalmente. Por conta da nossa diferença de altura, tive que ficar inclinado para que nossos rostos ficassem frente à frente. Um sorriso perfeito surge no rosto de Brooke, enquanto a pintora observava sua obra prima e confesso que não esperava vê-lo. Esqueço de onde estamos e simplesmente apenas observo seu sorriso... Puta que pariu, acho que essa é definitivamente a primeira vez em que me sinto excitado por conta de um sorriso.
— O que foi, Riston? — Brooke me percebe fissurado em seu sorriso e só desloco minha atenção dos seus lábios, quando os mesmos param de projetar aquele encanto. Espera aí? Eu acabei de pensar mesmo em "encanto"? Que porra estou falando? Limpo a garganta e desvio olhar do de Brooke, negando com a cabeça.
— Nada — controlo, por alguma razão, a vontade de acrescentar um; "porra" no fim da minha resposta e só depois que o oprimo, me pergunto o que por que?
— Então tá — Brooke ri claramente sem humor e procura algo dentre as coisas que antigamente a velha/adolescente utilizava para pintar os rostos das crianças, da forma mais macabra possível.
Tudo que a velha tentava fazer, nunca se refletia no que era pra realmente ser. Por exemplo; se uma criança pedia uma flor no rosto, o resultado parecia mais um pênis deformado, com várias bolas. Era horrível e ainda acho que ela é daltônica, porque ela realmente já pintou uma flor em um tom marrom uma vez e não de verde, vermelho e o restante das cores que normalmente uma droga de flor realmente tem. Quando acha o que estava procurando, Brooke se levanta abraçando contra seu uniforme ridículo de garçonete; um mini espelho. Subo meu olhar para seu rosto e quase sorriu, ao ver o sorriso de antes de volta em seus lábios.
— Ok, feche os olhos — mesmo sorrindo, seu tom era autoritário, o que me faz unir as sobrancelhas.
— Você sabe que não manda em mim, né porra? — questiono deixando claro que ninguém algum dia vai mandar em Chuck Riston, no entanto Brooke faz pouco caso da minha pergunta.
— Fecha de uma vez a porra dos olhos, Riston — seu tom fica um grau mais sério e respirando fundo fecho os olhos, apenas e somente porquê quero ver de uma vez se ela fez mesmo joaninhas no meu rosto e não porquê ela mandou — Me tira uma dúvida é só dizer "porra", que você passa a entender o espírito de alguma coisa? — escuto a sua pergunta esbanjando sarcasmo e ela me faz respirar fundo, de novo.
Penso em mandá-la se foder. Penso em desafia-la a dizer de novo aquela porra olhando no meus olhos. Penso em diversas formas de fazê-la abaixar seu nariz, porém não faço ou digo nada. Não porque 1) Brooke muito provavelmente nunca mais olharia na minha cara e eu ainda não decidi se isso é bom ou não, 2) Com toda certeza aquela droga de pote de tinta facial voaria em direção ao meu rosto e 3) porque não quero que ela torça meu braço na frente de um monte de crianças, que acham que eu sou foda... É pirralhos, até o Superman tem sua fraqueza. No meu caso, Brooke é a minha kryptonita.... Eu gostando disso ou não. E eu não gosto.
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Talvez Desconhecidos
Roman d'amour🏆 VENCEDOR DO THE WATTYS 2021, NA CATEGORIA NEW ADULT🏆 Brooke Westton sempre teve a vida corrida e cronometrada como um mero robô. As manhãs ela trabalha, as tardes assiste as aulas de sua faculdade e de noite retorna à lanchonete onde trabalha de...
