Capítulo 45
Brooke
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Apesar da manhã estressante — onde cheguei mais que atrasada na lanchonete e consequentemente tive 20 dólares descontado do meu pagamento, fora os 15 da noite passada — me sentar nesse banco isolado lendo e observando as partes da anatomia humana retratada por Da Vinci, Albert Dürer e Michelangelo acalma cada célula — ou como diria algum desses artistas que estou segurando em mãos; veias ou tendões — do meu corpo. Até mesmo todo o estresse de Chuck ter me deixar no meio de uma floresta sozinha com pessoas que sequer conheço, se esvai. No entanto, por mais que o quero longe, quero mais ainda uma explicação para aquela droga de atitude. Respiro fundo e tento esquecer o acontecido. Passo o dedo nos traços precisos de um corpo masculino do século XV na figura que ocupa uma página inteira do livro de artes, que sempre carrego comigo. Se me pedissem para fechar os olhos e dizer o que cada página desse livro — de um pouco mais de 400 páginas — contém, eu responderia sem excitar e todas as respostas seriam exatas, por simplesmente ser viciada nesse livro. Me recordo da minha primeira tentativa de desenhar um corpo humano. Me inspirei no meu próprio corpo, o que me rendeu horas de observação totalmente nua à frente do espelho, do meu antigo quarto. O resultado não foi meu o melhor trabalho, no entanto também não foi o pior. Esse pensamento me leva direto à sensação de quando os lábios de Chuck roçaram nos meus... Foi exatamente isso; algo estranhamente estranho e estranhamente bom. Como se fôssemos ossos quebrados, tentando se encaixar em outros ossos a vida toda e quando enfim encontramos um ao outro; o encaixe enfim se firmou. Fecho o livro rindo de mim mesma. Não posso estar mesmo pensando que o que aconteceu naquela floresta foi em certo ponto importante, nem pra mim mesma, muito menos para Chuck. Aposto que nesse momento o mimado deve estar por aí beijando outra e introduzindo seus dedos mimados dentro dela. Essa lembrança que estava com todas as forças do meu corpo tentando esquecer, me faz mordiscar o lábio inferior.
*
Algum evento deve estar acontecendo próximo à lanchonete essa noite. Há muito mas gente aqui, que o habitual e já está próximo da 1am, o que significa que ou essas pessoas estão saindo famintas de alguma apresentação e vieram atrás de comidas a preços acessíveis, ou estão enchendo o estômago com comidas a preços acessíveis, antes do show ou sei lá o que os atraiu para cá. Equilíbrio quatro copos de cerveja, enquanto caminho em direção à mesa que havia os pedido e escuto o barulho do sininho sobre a porta se sobressair, no falatório que está em todas as mesas lotadas. Desvio meu olhar por algum motivo e respiro fundo ao ver Riston adentrar a lanchonete e erguer as sobrancelhas, surpreso pelo movimento repentino do local. Seus olhos castanhos amendoados terminam de averiguar o arredor, pousando nos meus e no segundo em que um sorrisinho de lado aparece no seu rosto; bufo voltando a ir em direção à mesa do pedido que ainda estou equilibrando. Deixo os quatro copos sobre a mesa dos caras e me dirijo até o balcão, onde Gina coloca um prato de omeletes e bacon levemente queimados, resmungando com cara feia o número do pedido. É sempre assim... Toda vez em que essa espelunca lota, Gina fica brava porquê ela quem cuida da cozinha sozinha, ou seja; ela também tem que preparar todos os pedidos sozinha. Bom, se ela e o marido deixassem de ser pão duro e pagassem mais funcionários, Gina não ficaria sobrecarregada. Inclusive eu não reclamaria se houvesse um ajudante, pra me ajudar a servir às mesas. Pego o prato com os ovos e o bacon, me virando e quase os derrubo ao dar de cara em Chuck, como a droga de uma estátua parado atrás de mim. Ajeito o ovo frio que estava quase caindo do prato pelo esbarrão e subo meu olhar para o de Riston de sobrancelhas juntas.
— Você quase me fez derrubar isso! — rosno o mais baixo que consigo, evitando que os demais clientes percebam e Chuck ri brevemente. Espera, ele acaba de rir!? Depois de tudo, ele acha que tem o direito de rir!?
— Quero falar com você — o mimado me informa e desce olhar para meus seios, ou para a plaquinha com meu nome, muito provavelmente a primeira opção, o que me faz ficar mais brava do que já estava.
— É não é só você, eu também "quero falar com você" — rosno entre os dentes contando até mil mentalmente, para não perder a calma.
— Então vem — Chuck segura meu braço e tenta me puxar, mas fixo meus pés no chão.
— Não! Óbvio que não! Não está vendo que estou no meio do meu expediente? — pergunto com um quê de como sequer precisasse estar falando aquilo e Chuck respira fundo.
— Peça um intervalo — sua sugestão soa como se ela fosse realmente viável e seus olhos se desviam novamente para meus seios, ou talvez ele esteja mesmo encarando minha plaquinha, o me faz perder a paciência.
— Não e pare de encarar meus peitos, seu Mimado! — tento passar por ele, mas Chuck me impede, se colocando à minha frente novamente.
— Porra jura que vai me fazer esperar você atender essa gente toda? — Chuck olha ao arredor das mesas lotadas para dar ênfase no que disse e logo volta a me encarar.
— O que? Você pode me abandonar no meio da porra de uma floresta e eu não posso te fazer esperar? — deixo escapar uma prévia do que quero discutir com esse mimado e Chuck transforma sua careta descrente, em uma confusa.
— Como assim? — sua pergunta soa realmente convincente, como se ele estivesse mesmo confuso, no entanto não caiu na sua jogada.
— Não se faça de desentendido, é ridículo da sua parte — espremo meus olhos, mantendo minha atenção fixa nos olhos dele.
— Não estou me fazendo de desentendido porra, apenas não sei do que está falando, você quem me deixou lá! — sua "defesa" é tão ridícula, que me faz rir de verdade e alto, chamando atenção de alguns clientes e de Gina.
— Eu te deixei lá? Sério? — questiono entre breves risadas, deixando claro meu sarcasmo.
— É — suas sobrancelhas se unem de leve, como se ele não soubesse o porquê de eu estar rindo.
— Brooke! Vá entregar o pedido garota! Agora! Céus preciso mandar ainda?! — Gina interrompe nosso acerto de contas, exclamando furiosa antes de me dar a chance de rebater a resposta de Chuck.
Olho para a dona do restaurante atrás da chapa, onde ela fritava as coisas e Gina aponta com a espátula para as mesas. Respiro fundo e concordo com a cabeça, engolindo a vontade de mandá-la se acalmar. Volto a encarar Chuck e ele suspirando diz um; "Estou lá fora" e antes de se virar e ir, o mimado rouba uma tira de bacon do prato que estou segurando, o que me faz erguer as sobrancelhas como se lhe perguntasse; "Sério isso?". Em resposta, Riston apenas sorri de lado e se vira indo em direção à saída da lanchonete. Após a silhueta de Chuck desaparecer com a porta se fechando; suspiro e levo o pedido até uma mesa com algumas mulheres. Cada uma me olha com uma careta, como se eu estivesse as entregando lixo para comer e quando uma delas diz que errei de mesa, forço meu melhor sorriso e peço desculpas me virando para ir até Gina, lhe perguntar qual maldita mesa esses ovos e bacon pertecem, porque eu simplesmente não me lembro e Riston é o maldito culpado disso.
*
Quase três horas depois, termino de entregar o último pedido e percebo que só resta quatro clientes na lanchonete. Todos estão comendo, bebendo, conversando e não pedindo mais aperitivos; então sou rápida em tirar esse avental, tão minúsculo quanto o uniforme que estou usando e jogá-lo no balcão. Olho para Gina a avisando sem falar nada que já voltaria e me apresso indo em direção a saída da lanchonete. Assim que deixo o estabelecimento, meus olhos correm dentre o estacionamento mal iluminado e encontro com a figura de Chuck apoiada em seu carro. Cruzo os braços e caminho até parar alguns passos à sua frente. Os olhos de Chuck miram na minha plaquinha novamente e minhas sobrancelhas se unem.
— Por que você está encarando minha plaquinha a noite toda? — questiono sem paciência e sem entender, fazendo com que Chuck suba seus olhos para os meus.
— Por que ela não está certa, está? — sua pergunta minuciosamente lenta consegue rastejar por todo meu corpo, me fazendo respirar fundo.
Seu tom de voz... Sua calma... Essa é uma daquelas perguntas que não importa o que você irá responder, porque ele já sabe a resposta.
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Talvez Desconhecidos
Romance🏆 VENCEDOR DO THE WATTYS 2021, NA CATEGORIA NEW ADULT🏆 Brooke Westton sempre teve a vida corrida e cronometrada como um mero robô. As manhãs ela trabalha, as tardes assiste as aulas de sua faculdade e de noite retorna à lanchonete onde trabalha de...
