Capítulo 71
Brooke
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Chego ao apartamento que divido com Oen e uma mistura de nervosismo com ansiedade me domina, antes de abrir a porta. Meu plano era chegar aqui e comentar o que aconteceu com Oen; lhe dizer que muito provavelmente ele terá que encontrar outra parceira para dividir o aluguel, já que por enquanto estou desempregada e pedir desculpas, já que se fosse ao contrário e ele quem estivesse fugindo, eu ficaria muito brava. Respiro fundo e mentalmente digo que tudo vai acabar bem. Entro no apartamento que por mais decaído que possa ser, foi a minha casa desde que vim para cá, cursar minha bolsa de artes... Minha bolsa, todos os minutos estou agradecendo mentalmente à mim mesma, por ter pago duas mensalidades mês passado, no entanto não é como se dois meses fossem durar para todo o sempre. Empurro o medo de ter que trancar a faculdade para algum canto em meu cérebro e caminho até a porta do quarto de Oen. Bato na madeira e espero, espero e espero. Na décima batida, bufo e aceito que ou Oen não está, ou está em um tipo de sono profundo. Muito provavelmente a segunda opção. Me viro e olho ao redor da minha bagunça. Meus materiais de estudo, minhas tintas, pincéis, telas, tudo se encaixa tão bem aqui... É injusto esse jogo que o universo está fazendo comigo. Afinal ele me faz viver coisas que nunca vivi antes, mas me tira a oportunidade de viver outras. Com esse pensamento, desço olhar no uniforme em meu corpo. Tenho que devolver isso... Gina deixou bem claro quando fui contratada. Respirando fundo, retiro o uniforme que eu usava praticamente 24h por dia e procuro por algum outro par de roupa. Até o lavaria antes de entregá-lo, mas a parte perversa de mim mesma vence, então apenas o dobro e deixo o apartamento. Quanto mais rápido eu colocar um ponto final nessa história toda, mas rápido eu poderei tentar iniciar outra, talvez aquele restaurante que uma vez me ofereceu a vaga, ainda esteja precisando de uma garçonete. O único problema é que ele fica a mais de uma hora do campus, o que significa que dependente da carga horária dele; só conseguirei ver Chuck no máximo 1 hora, que é o tempo do intervalo que tenho de uma aula para outra. Isso se ele não estiver em alguma das suas aulas nesse meio tempo. Respiro fundo e nego de leve com a cabeça, descendo os degraus da escada enferrujada. Tudo vai ficar bem, eu dou meu jeito. Se eu aceitar dividir o quarto com Chuck, então talvez nossa 1 hora possa se transformar em 2, talvez 3, dependendo do quão cansada chegarei.
*
Atravesso a porta de entrada da lanchonete e no segundo em que meus olhos encontram com a garota, que está com roupas casuais, mas com o avental que eu costumava usar; minha esperança morre. Estaria mentindo se dissesse que não tinha a mínima esperança que seja, de que quando entrasse aqui; Gina me falaria com seu jeito mandão para ajudá-la a servir às mesas e esquecer aquela noite. Acabo rindo mentalmente de mim mesma. O universo não dá segundas chances para você esqueceu, Brooke? Paro de apertar o uniforme nas minhas mãos e caminho em direção ao balcão do estabelecimento. Cumprimento alguns clientes fiéis, que todas as manhãs vinham aqui e percebo que aquele cara estranho também está presente, mas dessa vez sem a sua filha. Ele não me percebe no recinto. Paro em frente ao balcão e espero Gina sair da cozinha da lanchonete, afinal estou com tempo. Oen sempre que cai no sono, demora muitas horas para dar sinal de vida novamente. Apoio o uniforme devidamente dobrado sobre a bancada e percebo que estou sem a luva. Engulo no seco e encaro minha mão coberta pela tatuagem de ossos. Nunca vim aqui sem a luva. Na verdade, nunca sai sem ela e agora estou até me esquecendo que algum dia a precisei... Ao mesmo tempo que esse pensamento me conforta; ele me deixa apreensiva. Ainda estou encarando minha mão descoberta, quando alguém se coloca ao meu lado.
— Soube que você não trabalha mais aqui — antes de virar o rosto, para seja lá quem for, fecho minha mão, ainda a deixando apoiada sobre o balcão em um teste de resistência comigo mesma e respiro fundo, passando olhar para o cara, que uma vez me deu uma gorjeta de quase cem dólares.
Corro olhar no seu rosto e me pergunto o por quê dele ter perguntado se eu não estava mais trabalhando aqui, afinal se ele tem a resposta, ele teve que perguntar em algum momento. Então me lembro do mesmo pensamento que me ocorreu na última vez que o vi; ele está interessado em mim.
— Está tudo bem? — sua pergunta "preocupada" vem acompanhada de seu levar de mão, até a base das minhas costas.
É um gesto simples. Em até certo ponto afetivo, caso tivéssemos o mínimo de intimidade. Coisa que não temos. Diferente daquela vez que deixei passar, hoje respiro fundo e me mexo, me livrando do seu toque.
— Olha, seja lá o que você está pensando... Não, eu não estou "disponível" ou seja lá como as pessoas chamam — bufo não tendo cabeça para isso agora.
— Disponível? C-Como assim? — uma confusão toma conta tanto do seu rosto, quanto da sua voz.
— Você, dando em cima de mim — espremo os olhos ao respondê-lo e o cara engole no seco, dando um breve passo para trás, criando mais espaço entre a gente. Pelo menos ele entende o que é; não.
— Acho que houve um engano — sua voz adota um tom mais firme e agora sim ele aparenta ter a idade que tem, mesmo que eu não saiba exatamente qual seja — Eu sou comprometido — o cara mostra sua aliança dourada no dedo e controlo minha vontade de rir.
Se eu fosse contar quantos idiotas com um anel no dedo, já assobiaram ou deram em cima de mim... O resultado seria algo com dois números, talvez três, com toda certeza.
— Sinto ser eu quem vai lhe informar, mas anel não significa nada hoje em dia — deposito meu sarcasmo em cima do cara, que abaixa seu olhar para suas mãos e respira fundo.
Por ainda estar o observando; percebo que sua barba por fazer está maior que da última vez e já há alguns fios brancos, denunciando sua idade entre o restante dos fios pretos.
— Eu só vim aqui oferecer ajuda — demora alguns instantes, até que o cara volte a falar e retorne seu olhar para mim novamente.
— Ajuda? — questiono quase que rindo e minhas sobrancelhas se unem, porquê se ele disser que me paga para fazer um boquete nele, juro que o faço comer essa aliança.
— Eu... Na verdade minha filha, está precisando de uma nova babá, a última se formou e voltou para a cidade natal dela, eu e minha esposa trabalhamos pelas manhãs e tardes, o que significa que você poderia cuidar dela pelo menos pelas manhãs, já que pela tarde você tem as aulas... — ele passa a mão no seu colete de lã fechado, por cima da blusa social de manga cumprida que está usando — Posso pagar 100 dólares por hora — o cara propõe e me estuda, assim como eu o estudo.
Escuto com atenção sua proposta irrecusável, no entanto não dou importância a ela em um todo e sim na parte em que ele sabe que estudo no período da tarde.
— Como... Você sabe que eu estudo? — o questiono dando um passo para trás, com receio de estar sendo vigiada por um maníaco, afinal eu poderia muito bem ser uma dessas pessoas que se contentou em viver apenas com o diploma do ensino médio.
— Venho aqui pela tarde também e você nunca está aqui para servir, só pelas manhãs e noites... Uepplen fica bem próximo daqui, então só liguei uma coisa a outra, fora a sua idade — sua naturalidade em me responder, como se nos conhecêssemos a anos me faz ficar mais assustada.
— Como caralhos você sabe a minha idade? — uno as sobrancelhas deixando transparecer que não estou gostando nem um pouco onde essa conversa está chegando.
E o cara até abre a boca para me responder, mas é interrompido por Gina, que se aproxima jogando um prato com panquecas no balcão e me encara resmungando um; "Até que enfim trouxe o uniforme". Encaro a dona do estabelecimento e sua careta, enquanto checava o uniforme para ver se ele estava rasgado, me dá raiva. Fiquei praticamente dois anos trabalhando para ela, aceitando tudo que ela jogava nas minhas costas. Trabalhei na droga do natal e em outros tantos feriados, que nem faço mais ideia de nomes, saia daqui na madrugada só para ter que retornar algumas, poucas, horas depois, para receber 5 dólares por hora e ela sequer me dá o mínimo de respeito? Acabo rindo sem humor, com toda uma raiva borbulhando em meu interior.
— Quer saber? Eu aceito a sua proposta, pelo menos você vai pagar um salário digno e não vai explorar ninguém... — encaro o cara por alguns segundos, antes de voltar a encarar Gina — Igual essa porra de estabelecimento faz — continuo respondendo o cara alto o bastante para boa parte dos clientes escutarem e mesmo estando falando com o meu novo "chefe", encaro Gina com os olhos espremidos, esquecendo de todas as pessoas ao nosso redor que provavelmente devem estar nos encarando.
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Talvez Desconhecidos
Romantizm🏆 VENCEDOR DO THE WATTYS 2021, NA CATEGORIA NEW ADULT🏆 Brooke Westton sempre teve a vida corrida e cronometrada como um mero robô. As manhãs ela trabalha, as tardes assiste as aulas de sua faculdade e de noite retorna à lanchonete onde trabalha de...
